ESPOSA POR UM ANO

 
Kathryn Ross

Peggy e Brad  chegaram a um acordo. Se Peggy exercesse o papel de amante dedicada durante sua campanha eleitoral para a prefeitura, Brad pagaria todas as dvidas de seus vinhedos. Era pura e simplesmente um negcio mas surgiram algumas complicaes.
A primeira: Brad no s lhe exigiu que aparentasse ser sua esposa; tambm lhe exigiu que cumprisse com seus deveres como tal. 
A segunda: Peggy sempre tinha amado a Brad.
S duas coisas lhes impediram de romper seu compromisso matrimonial por um ano: o orgulho de Peggy e a antiga noiva de Brad
O que seria necessrio para transformar o primeiro aniversrio de casamento em comemorao em vez de divrcio?


Captulo 1


Os ltimos raios de sol do entardecer se derramavam sobre os vinhedos californianos quando Peggy deixou de trabalhar por esse dia. Cansada, sacudiu o p das calas enquanto contemplava o trabalho realizado.
Era uma mulher esbelta, de vinte e dois anos, com o cabelo comprido e escuro. Sua delicada e feminina aparncia contrastava absolutamente com sua roupa de trabalho e a pesada caixa de ferramentas que tinha utilizado. No era muito boa nessas coisas, mas apesar disso tinha conseguido instalar a cerca. O nico problema era que tinha demorado muito.
O mesmo lhe tinha acontecido com o resto das tarefas que tinha se proposto a fazer durante naquele dia. Tinha comeado a trabalhar s seis horas da manh e aps no tinha parado. Ainda lhe tinham ficado vrios trabalhos pendentes em sua lista de afazeres para aquela jornada. Suspirou. A luz estava desaparecendo to rpido que no teria mais remdio que deixar tudo at o dia seguinte. Alm disso, estava muito cansada para continuar. J estava sonhando com um relaxante e prolongado banho quente.
Animada por tal perspectiva, apressou-se a guardar as ferramentas. J estava a ponto de terminar quando escutou o som de cascos de cavalos no pedregoso e poeirento caminho da propriedade. Quando se voltou, o corao lhe encolheu no peito ao ver seu vizinho, Brad Monroe, cavalgando para ela.
Tinha estado esperando-o at esse instante. Sabia o que iria dizer-lhe. Um n de apreenso lhe apertou o estmago.
-Boa tarde, Peggy -puxou as rdeas do magnfico semental negro quando esteve muito perto dela.
-Boa tarde -teve que fazer um esforo supremo para aparentar indiferena.
-Que tal vo as coisas?
-No muito mal... tendo em conta as circunstncias -murmurou.
Brad esperou at que ela tivesse terminado de fechar a caixa. Sua montaria pisoteava o cho, impaciente por aquele atraso.
-Se me tivesse pedido, teria enviado algum para que te ajudasse com a cerca.
Os brilhantes olhos azuis da jovem refletiram um profundo desprezo.
-Ei, Peggy, s uma mulher muito teimosa -acrescentou Brad, com uma nota de impacincia na voz.
Ela o ignorou e se agachou para levantar a caixa de ferramentas, de maneira que a longa e escura cabeleira se derramasse sobre seu rosto, como uma cortina de seda. A caixa pesava muito, mas fez um decidido esforo para que Brad no o notasse. Seu esbelto corpo se resistiu do peso, e se viu obrigada a utilizar ambas as mos.
Ouviu o rangido da sela quando Brad desmontou. Levantou o olhar para v-lo dirigir-se para ela, com sua silhueta recortada contra o sol vermelho do entardecer. Era alto, devia medir mais de um e oitenta, cabelo espesso e escuro, mandbula quadrada, com olhos de uma cor preta intensa. Tinha trinta e sete anos, quinze mais que ela, e com aquela roupa jeans que usava parecia realmente uma estrela do western.
Peggy se sentia incmoda. Sempre tinha achado Brad extremamente atraente. Desde que o viu pela primeira vez quando s tinha treze anos, tinha se apaixonado por ele. Em segredo, tinha sonhado com que algum dia Brad a notaria e corresponderia a seus sentimentos. Isso nunca tinha chegado a acontecer. Mas havia outra coisa, recordou-se Peggy com energia. Brad Monroe no era o homem que ela havia imaginado.
Fazia to somente uns meses que tinha descoberto como era na realidade, e todas suas iluses a seu  respeito tinham desaparecido.
Brad se inclinou para ajud-la com a caixa de ferramentas e fechou uma mo sobre a dela. O contato de sua pele a fez sobressaltar-se.
-Suponho que viestes me apresentar um ultimato: que te pague o dinheiro que te devo ou me jogar daqui -para seu desgosto, sua voz no era de todo firme. No queria que soubesse que no tinha todas as foras consigo quando estava perto dele.
-Eu no sou seu inimigo, Peggy -reps com frieza-. Eu s queria te ajudar.
-S queria se apoderar desta terra -corrigiu-o ela-. Desculpa por ser to brusca, Brad, mas j no me impressiona seu papel de vizinho solcito e preocupado. Sei quais so suas verdadeiras motivaes.  um abutre, e ao fim, depois de ter estado planejando sobre mim durante meses, est a ponto de cair sobre sua presa. Levo semanas esperando-o.
-Sei que ainda segue muito afetada pela morte de seu pai -reps Brad sacudindo a cabea-. Ainda no pode ver claramente muitas coisas, mas...
-O problema  que posso ver as coisas com muita claridade -interrompeu-o -. Agora, se me desculpar, tive uma longa e exaustiva jornada de trabalho e quero voltar para minha casa para relaxar -enquanto possa conserv-la, acrescentou para si, preocupada.
Mas em lugar de partir, como ela tinha esperado, Brad a acompanhou a caminho de casa.
-Se me culpar te ajuda em algo, v em frente -disse-lhe em um tom baixo-. Mas mais cedo ou mais tarde ter que confrontar-se com a verdade. J transcorreram dois meses desde que seu pai faleceu. No pode seguir vivendo sozinha aqui durante muito tempo mais. Os vinhedos esto vindo abaixo, Peggy. Vai te custar muito dinheiro se quer salv-los, e no o tem. Alm disso, est endividada.
Peggy no desejava que Brad lhe recordasse os problemas que tinha. Seu orgulho se rebelava como uma fera, mas no disse nada porque sabia que no fundo tinha razo.
-Olhe, Peggy, no vim te ver com a inteno de te desgostar. Vim para te oferecer ajuda prtica. Se quiser, te darei uma mo com as contas e...
A jovem ps-se a rir.
-Para que possa te informar melhor da quantidade de vinhedos que pode me roubar? No, obrigado. Minhas contas so minhas.
Brad deixou a caixa de ferramentas no cho da varanda que rodeava a casa.
-Apesar do que possa pensar, estou sinceramente preocupado por ti.
-Est preocupado porque tiveste que esperar mais tempo de que tinha previsto para se apoderar desta propriedade. Quo nico deseja  ampliar seus vinhedos para tirar mais benefcios.
Brad a pegou por um brao quando ela j se dispunha a lhe dar as costas.
-Eu no fui o culpado dos problemas econmicos de seu pai.
-Possivelmente no -murmurou, tensa-. Mas sim acelerou sua queda.
-Lhe emprestando dinheiro quando mais o necessitava?
-Lhe exigindo que lhe devolvesse isso em um prazo impossvel de cumprir. Pode ser que no fosse a causa dos problemas de meu pai, mas certamente voc o rematou -olhou-o com olhos brilhantes-. Vem aqui para me dizer que no  um inimigo, mas para mim ... e sempre ser. Podia ter oferecido a meu pai um prazo maior para que te pagasse a dvida, mas no o fez. Voc contribuiu para sua morte, e por isso te odeio.
-Isso que diz no tem nenhum sentido, Peggy -replicou Brad com voz baixa de fria contida-. Sim, de acordo, poderia lhe ter oferecido um prazo maior, mas isso no teria tido nenhum sentido. Seu pai no era um homem... -vacilou e Peggy terminou a frase por ele.
-No era um homem to desumano nos negcios como deveria ter sido? Ao menos era honesto.
-E pensa que eu no sou?
-Sei o que voc . Durante os ltimos meses vi como  na realidade -baixou o olhar  mo com que ainda lhe mantinha preso o brao-. E agora me solte.
-Peggy, precisamos falar e solucionar isto  reps ele com voz spera.
-No h nada do que falar.
-Est equivocada -aproximou-a para si, e a temperatura de Peggy subiu ainda mais-. Durante anos fomos vizinhos e amigos. No quero que nossa amizade termine to bruscamente... desta forma. Voc estava fora, estudando na universidade, quando os problemas econmicos de seu pai se aprofundaram, e ele foi me buscar para me pedir que lhe prorrogasse o prazo de devoluo do emprstimo. Voc no sabe o que ocorreu na realidade.
-Sei o que meu pai me disse -espetou-lhe furiosa-. Sei que quando voltei para casa e fui te buscar para te pedir em nome de meu pai que prorrogasse o prazo do emprstimo, mais ou menos voc riu na minha cara. Ou vais dizer que imaginei tudo isso?
-J te expliquei as razes pelas quais no estendi o prazo limite -reps Brad com tom tranqilo.
-Sim, fez-o.... Como era que...? Ah, sim. Disse que o fazia para seu prprio bem -exclamou com tom sarcstico-. Um detalhe muito considerado de sua parte.
-Matt tinha problemas muito srios. Voc no o compreende...
-No me trate com condescendncia, Brad... replicou ela com tom dbil.
-No era minha inteno. O que pretendia te dizer  que voc estava fora, na universidade, e no pde te dar conta do que estava acontecendo aqui...
-E agora est tentando me dizer que tudo foi minha culpa, porque estive fora de casa durante uns poucos anos -Peggy sacudiu a cabea-. Realmente, deve estar desesperado para ficar com esta propriedade. Qual  o problema, Brad?  que sua incurso no mundo da poltica est te custando mais dinheiro do que esperava? Est pensando em ampliar suas margens de lucro me roubando minha terra?
-Minha candidatura a prefeito nada tem que ver com isto. Exceto pelo fato de que preferiria no ter que suportar o aborrecimento de ver-te zangada comigo durante todo o tempo.
-As pessoas votariam em ti se soubessem como tratou a meu pai? -espetou-lhe Peggy de repente. No me surpreenderia que estivesse preocupado com isso. A verdade  que no seria um grande benefcio para a imagem que voc gostaria de projetar de ti mesmo, no? Essa frase de s estou fazendo isto pelo bem da comunidade soa muito vazia ao lado da maneira em que tratou a seu vizinho.
-No posso acreditar que esteja deturpando tanto os fatos.
- a verdade, Brad, e voc sabe.
-A verdade tal como voc a v. Com seu olhar estreito e destorcido.
-Sei que a nica razo pela qual emprestou dinheiro a meu pai foi porque tinha a esperana de que ao no lhe poder devolver o dinheiro te capacitasse para lhe arrebatar a propriedade. Estou segura de que uma vez que ponha esta terra em venda, lanar-te sobre ela.
-Ests pensando em vender?
-Cuidado, Brad, estou notando a sede de sangue que tens... -esboou uma careta, como se sua fria se estivesse apagando-. E sim,  obvio que vou vender. Na semana que vem colocarei no mercado esta propriedade. Aconselharam-me que um leilo  o melhor que posso fazer. Depois partirei daqui para comear uma nova vida.
Brad franziu o cenho.
-Oh, no se preocupe. Saldarei minhas dvidas contigo antes de partir da Califrnia -assegurou-lhe ela.
-Aonde irs?
-Depende do dinheiro que possa conseguir pela propriedade. Sei que quem quer que a compre, vai adquirir-la por um bom preo. No se encontra precisamente em muito boas condies.
-Isso tambm ser minha culpa, suponho... -murmurou ele com tom seco.
-Isso  o voc diz, no eu -Peggy desviou o olhar para onde se encontrava seu cavalo, pastando na zona de grama que separava o jardim dos vinhedos-. E, certamente, seu semental no est ajudando muito.
-Trata-se de uma conspirao, sem dvida -disse Brad enquanto se aproximava do animal para segurar-lo pela brida-. Estou disposto a te arruinar a vida e ordenei a Buck que se encarregue de te destroar o jardim -havia um brilho de humor em seus olhos quando se voltou para olh-la.
Por um segundo Peggy sentiu desejos de lhe devolver o sorriso. A lembrana do quanto estava acostumado a sentir-se bem em sua companhia, da facilidade com que sempre a tinha feito rir, resultava muito intensa e poderosa.
-Estvamos acostumados a ser amigos, Peggy -comentou-lhe Brad enquanto ela continuava olhando-o.
-Ah, sim? -o corao lhe deu um tombo no peito, e sacudiu a cabea-. Eu no o recordo.
De repente deu meia volta e se apressou a entrar na casa, dando uma portada. No acendeu em seguida as luzes do vestbulo, mas sim permaneceu com as costas apoiada na porta, em meio a escurido, respirando rapidamente.
Estvamos acostumados a ser amigos... As palavras de Brad ainda ressonavam em seu crebro, e as acompanhando, as lembranas assaltaram sua mente em uma sucesso de imagens.
Sendo to somente uma menina tinha admirado Brad, tinha-o respeitado... e amado. Pelo menos ele nunca tinha adivinhado aqueles sentimentos. Isso teria sido muito humilhante.
Recordava como, sendo uma adolescente, Brad se tinha burlado sem piedade dela. Sempre a tinha feito rir... e derreter-se com um simples olhar de seus incrveis olhos.
Tinha ansiado ser o suficientemente velha para sair com ele, e havia sentido um enorme cimes das espetaculares mulheres que tinham desfilado por sua vida.
A me de Brad tinha adivinhado a verdade, entretanto. Ao evocar a lembrana de Elizabeth, lhe fez um n na garganta.
Peggy no podia lembrar-se de sua verdadeira me, mas Elizabeth tinha sido uma espcie de me adotiva para ela. Era uma mulher amvel, sincera, encantadora... Peggy se havia sentido capaz de falar com ela... tinha desfrutado realmente de sua companhia.
Tinha sido a me de Brad quem lhe ensinou a montar a cavalo, tinha-lhe contado muitas coisas sobre os cultivos, sobre as vinhas. Tinha sido ela, mais que seu prprio pai, quem lhe tinha irradiado o amor por aquela terra.
Tinha transcorrido ano e meio desde que Elizabeth faleceu, e Peggy seguia sentindo sua falta. Fechou os punhos ao lado do corpo. S Deus sabia o que poderia fazer agora, na situao em que se encontrava...
Com atitude enrgica, ps-se a andar pelo escuro vestbulo. No queria pensar no passado. Sentia-se muito cansada, muito triste. Subiria ao andar de cima, tomaria um bom banho e se esqueceria de tudo. De repente seus pensamentos se interromperam quando tropeou e se golpeou em um p com um objeto duro, muito slido. Gritou instintivamente de dor e se ajoelhou no cho para esfregar o p ferido, chorando de fria e de frustrao.
-Maldita, maldita seja -murmurava entre dentes. Esqueceu-se de que nesse mesmo dia, cedo pela manh, tinha baixado uns caixotes do apartamento de cobertura e as tinha deixado no centro do vestbulo.
-Peggy, encontra-te bem?
Era a voz de Brad, no outro lado da porta principal da casa.
-Sim. V embora -gritou, ansiando que a deixasse sozinha.
Brad ignorou por completo sua ordem, porque Peggy no demorou ao ouvir o som da porta abrindo-se. Rapidamente se aproximou dela, olhando-a com expresso preocupada.
-Que diabos tem feito?
-Estava jogando futebol com os caixotes -murmurou com tom sarcstico.
Brad sorriu enquanto se agachava para lhe examinar o p. A jovem esboou uma careta de dor quando sentiu o contato de seus dedos.
-Viver.... no  grave -disse Brad ao mesmo tempo que se incorporava, e por um instante Peggy pensou que ia partir. Mas no o fez, mas sim se dirigiu  cozinha-. Vou conseguir um pouco de gelo para o inchao.
-No  necessrio. J me arrumarei sozinha -ao levantar descobriu que o p lhe doa muito, e teve que apoiar-se no caixote.
Brad voltou da cozinha com uma bolsa cheia de cubos de gelo e se ajoelhou a seu lado para aplicar-lhe no p.
-Sente-se melhor? -Brad levantou o olhar para ela.
-Sim, obrigado -reps Peggy com voz rouca. Podia sentir como sua fria se evaporava sob a onda de um sentimento mais forte.... pelo homem ao qual sempre tinha amado. A tristeza se refletiu em seus olhos azuis, obscurecendo-os com uma sombra de cor violeta profunda. Se seu pai no tivesse se dirigido para Brad em busca de ajuda econmica... No queria pensar mal de Brad. Ansiava deixar de lado todos aqueles pensamentos para poder confiar nele, como sempre tinha feito.
-Odeio ver-te to triste, Peggy. Desespera-me ver-te assim. -A jovem tragou saliva, decidida a no chorar.
-Voc... deveria ter pensado nisso antes, quando meu pai te pediu que prorrogasse o prazo de devoluo do emprstimo -suas palavras j no tinham o tom acusador de antes, nesse instante sua voz s destilava tristeza e arrependimento-. Somente teramos necessitado de alguns meses e...
Brad sacudiu a cabea e olhou a seu redor, fixando o olhar nos caixotes que ocupavam o vestbulo.
-Eu jamais quis que tudo isto chegasse at este ponto -murmurou sombrio-. Certamente ignorava que estivesse fazendo as malas para partir  -passou-se uma mo pelo cabelo, com gesto distrado-. Ser um trabalho descomunal embalar tudo o que tem aqui.
-Sim. Trs geraes de minha famlia viveram nesta casa. Demorarei bastante em terminar.
-O que far? Levar os mveis a um armazm?
-Os agentes imobilirios me aconselharam a vender com tudo. Mas h um grande nmero de coisas de grande valor sentimental, assim farei uma reviso exaustiva e conservarei o que puder -tentou adotar um tom prtico, para no lhe deixar saber o muito que lhe doa tudo aquilo.
-Amas muito esta casa, verdade? -perguntou-lhe ele com tom suave.
- meu lar... -aspirou profundamente.
-Apesar do que possa pensar, no era isto o que eu queria -afirmou Brad-. A propsito, foi minha me quem primeiro emprestou a seu pai o dinheiro que necessitava, no eu -explicou com tom tranqilo-. E no somente o fez porque desejasse ajud-lo. Ela estava muito afeioada contigo, Peggy.
-Eu tambm estava com ela -reps a jovem, com os olhos cheios de lgrimas-. Foi muito amvel de sua parte -admitiu com voz rouca.
-No chore, Peggy.
-No estou chorando -negou furiosa, enxugando uma furtiva lgrima.
Brad lhe aproximou para estreit-la entre seus braos. Por um instante Peggy se apoiou nele, reconfortada. Depois, quando levantou o olhar, o sentimento de consolo que tinha experimentado comeou a transformar-se sutilmente em outro de desejo.
Brad pronunciou seu nome em um suave murmrio que a fez tremer de excitao. Peggy queria que a beijasse. O desejo que ardia em seu interior lhe resultava simplesmente entristecedor.
Segundos depois Brad baixou a cabea e ela sentiu o contato de seus lbios misturado com o salgado sabor de suas lgrimas. Durante anos tinha sonhado secretamente com o dia em que ao fim a beijaria. Imaginou-se que seria um momento mgico, apaixonado, mas no tinha estado preparada para a tormenta de desejo que se desencadeou em seu interior.
Quando Brad se apartou, Peggy estava sem flego. Olhava-o fixamente, sem falar, perdida nas profundidades de seus olhos.
Mas logo a realidade a golpeou com toda sua fora. Pensou em seu pai, pensou nas palavras que ele tinha murmurado com esforo, palavras de dio contra Brad Monroe. Frio, duro, implacvel; esses eram os adjetivos que tinha utilizado para referir-se a ele. Aquelas palavras ressonavam em sua mente como uma recriminao, e a invadiu a pesada carga de culpa. De alguma forma, sua paixo por Brad lhe parecia um enorme ato de deslealdade para a memria de seu pai. Empurrou-o para longe dela. -No sei o que passou, mas foi um tremendo erro.
-Eu acreditava que tinha agradado aos dois -murmurou Brad com tom frvolo, arqueando uma sobrancelha.
-No acredito que a sua noiva goste tanto -replicou Peggy. 
-Eu no tenho noiva -espetou-lhe Brad. 
-E o que passa com Carolyn? -perguntou-lhe. 
-Terminamos.
-Mas eu acreditava... todo mundo pensava que vocs dois... bom, que iam se casar.
-Todo mundo supe muitas coisas sem saber -murmurou secamente Brad-. Tudo acabou entre Carolyn e eu.
-Oh! -olhou-o fixamente, realmente surpreendida por aquela notcia-. Est muito abalado?
-Por que? -esboou uma careta-. Queres me consolar? -inquiriu com tom sardnico-. Uns poucos beijos mais como este e acredito que poderia chegar a me sentir muito melhor.
-No seja absurdo -Peggy sentiu que lhe encolhia o corao. Disse-se com firmeza que no lhe importava com quem estivesse relacionado. Isso no interessava a ela. Mas muito no fundo seguia recordando aquele beijo... a sensao de sentir-se segura em seus braos. Bruscamente, deu-lhe as costas-. Acredito que deveria partir agora.
-Se for isso o que quer... Espero que acredite em mim, Peggy, quando te digo que jamais foi minha inteno arruinar a seu pai.
A jovem no replicou nada... no sabia o que pensar. Sentia-se desconcertada, assustada. E jamais em toda sua vida se havia sentido to sozinha.
-Se isto te servir de ajuda, quero que saiba que posso esperar o tempo que for at que me devolva o dinheiro que me deve. No me importa quando me pague isso. 
Ao escutar aquilo, Peggy girou em redondo e exclamou, sacudindo a cabea.
-No posso acreditar! Faz to somente uns meses te pedi que prorrogasse o prazo limite. Negou-te rotundamente. Agora meu pai est morto e voc tem a ousadia de me dizer, com toda tranqilidade, que no te importa quando te devolva o dinheiro... 
-Quero te ajudar.
-Bom, pois  muito tarde -nesse momento, sua voz destilava angstia-. Sabe condenadamente bem.
-No posso ficar quieto vendo como destroa a ti mesma -murmurou Brad,
-Com o risco de resultar repetitiva, direi-te que isso mesmo no te importava faz to somente uns meses -aspirou profundamente-. Ou te atormenta terrivelmente a conscincia, ou s um ator condenadamente bom.
-Minha conscincia no me atormenta -apressou-se a replicar Brad-. Tinha minhas razes para dizer a seu pai o que lhe disse. E eram muito boas.
-To boas que eu no consigo compreender-las -espetou-lhe ela-. Bom, no sou to estpida como para no ver o que se oculta atrs de uma oferta assim. Est preocupado pelo que possa pensar as pessoas se chegar a lhes contar os detalhes dos problemas econmicos de meu pai. Um homem que se apresenta como candidato a prefeito no quereria uma mancha semelhante em sua reputao. Da a grandeza de seu gesto -sacudiu a cabea-. Brad, no necessito de sua caridade.
-No te estou oferecendo caridade alguma -replicou com tom seco-. Estou-te oferecendo ajuda como vizinho...
-Oh, por favor! -interrompeu-o, rindo desdenhosa-. Como voc bem sabe, Brad,  muito tarde.  o que est acostumado a acontecer quando cai em bancarrota, sabe? -exclamou com tom zombador-.  como o efeito domin. As dvidas vo se acumulando... de repente algum te exige que lhe devolva seu dinheiro imediatamente e, pouco a pouco, tudo comea a paralisar-se -olhou-o fixamente-. Eu j estou acabando essa partida de domin, e o nico que posso fazer  vender o mais rpido que puder, antes de que isto me exploda nas mos. Sua oferta de me apoiar durante algum tempo mais, no faz nenhuma diferena. Faz uns meses necessitava de sua ajuda... mas agora no me importa.
-To mal vo as coisas, ento? -perguntou-lhe ele com tom suave.
-A ti o que te parece?
-No tinha idia de que as coisas tivessem evoludo com tanta rapidez -Brad sacudiu a cabea-. Falaste com o banco?
-O banco me anima sem cessar a que siga adiante com o leilo... e que no perca tempo.
-No pode vender determinadas parcelas da propriedade, sem ter que perder a casa? -perguntou-lhe-. Eu estaria interessado em adquirir uma parte de suas terras.
-Disso no tenho nenhuma dvida. Sabia que era isso o que estava procurando...
-Isso no  o que pretendo -interrompeu-a com tom seco.
-Me diga, em que parcela de terra tinha pensado? -inquiriu Peggy, como se ele no tivesse falado.
Brad se encolheu de ombros.
-O que te parece a que faz fronteira com a parte traseira de minhas terras?
-Refere-se a que contm a nica reserva de gua de minha propriedade? -a voz de Peggy tremia de fria-. Pela venda de minhas terras no tirarei muito benefcio, dado o estado em que se encontram, mas sem gua valero ainda menos.
-Pode moderniz-la, instalar um novo sistema de irrigao e...
-Tem alguma idia do dinheiro que isso custa? -perguntou-lhe furiosa.
- obvio -respondeu com frieza.
-Pois ento saber que nem sequer, embora te vendesse essa terra, depois de te devolver o emprstimo e de pagar todas as demais dvidas, ficaria dinheiro suficiente para fazer um investimento semelhante -passou-se uma mo pelo cabelo, angustiada-. No, terei que vender toda a propriedade, inclusive a casa. No tenho outra opo.
Voltou-se de repente e se dirigiu  cozinha, onde deixou o gelo, que j se estava derretendo, na pia. Por um instante apreciou o rstico encanto daquela habitao. A despensa, a mesa de madeira de pinheiro... seu lar. O corao lhe encolheu de emoo.
-Ento, aonde ir?
A voz de Brad na soleira a fez voltar-se para olh-lo. Peggy se encolheu de ombros.
-Ainda conservo alguns amigos da universidade. Recebi cartas de condolncia e uma oferta para compartilhar o apartamento de uma amizade enquanto procuro trabalho.
-Uma amizade masculina? -inquiriu Brad com tom custico.
Peggy franziu o cenho. A oferta procedia de uma amiga, mas no estava disposta a lhe esclarecer aquele ponto.
-Isso no  da sua conta -replicou, molesta-. O fato  que no tenho mais remdio a no ser partir daqui. Necessito de um emprego, de comear de novo.
-Sempre h outras opes.
-Como quais?
-Poderamos nos converter em scios -respondeu Brad com tom suave.
Peggy tinha ficado to surpreendida que por um momento no pde articular palavra.
-Quer dizer que saldaria minha dvida contigo e todas as demais que tenho se acrescentasse seu nome ao meu como proprietrio de meus vinhedos?
-No exatamente.
-Quer meus vinhedos, no?
-Estou mais necessitado de um scio, melhor dizendo, de uma scia, que de seus vinhedos.
Como Peggy continuava olhando-o perplexa, Brad sorriu.
-Necessito de uma esposa.
-Uma esposa? Sinto muito, Brad, no te compreendo.
-Estou-te pedindo que te case comigo.
Peggy o olhou fixamente. Aquilo devia ser uma espcie de brincadeira! Seus lbios se curvaram em um sorriso e sem dar-se conta ps-se a rir.
-No pode estar falando a srio!
-No me referia a um compromisso para toda a vida. Estou falando de um ano.
-Soa como uma sentena de priso.
Peggy se sentiu recompensada ao ver a momentnea expresso de aborrecimento que apareceu no rosto de Brad. Proporcionava-lhe certo prazer transtornar sua insensvel e fria aparncia. A que diabos estaria jogando, perguntou-se sombria. No albergava iluso alguma a respeito dos sentimentos de Brad para ela... No passado poderiam ter sido amigos, mas jamais lhe tinha dado indcio algum de que queria aprofundar aquela amizade, por muito que ela o tivesse desejado.
-Voc quer que seja sua esposa por um ano... o que ganho eu em troca? -inquiriu com tom zombador.
-Conservar tudo isto. Eu te ajudarei a levantar outra vez a propriedade e pagarei todas as suas dvidas -respondeu Brad, tenso.
- um preo muito alto -o corao lhe pulsava acelerado-. E estaria disposto a fazer tudo isso com o propsito de me ter como esposa por um ano? -sacudiu a cabea-. No entendo nada. Por que um ano?
-Quero uma esposa que seja consciente de seus deveres como tal -sorriu divertido-. Algum que me cuide e me mime.
De repente Peggy compreendeu tudo.
-Tudo isto tem que ver com sua candidatura a prefeito, verdade? Quer te fazer com uma imagem apropriada: um marido terno, um homem de famlia...
-Alto l -apressou-se a interromp-la Brad-. No pretendo fundar uma famlia contigo... as crianas no aparecem no trato. Mas sim,  evidente que terei mais possibilidades de ganhar se me apresento como um homem casado.
-E quando voltarmos a nos separar... como afetar isso a sua preciosa imagem?
Brad se ps a rir.
-Direi a todo mundo que te casou comigo por dinheiro... e isso no estar muito longe da verdade, no? Provavelmente votaro em mim outra vez por pura simpatia.
-Mas por que eu?
-E por que no? s atraente. E sabe como terminar tudo isto. Redigiremos um contrato e vamos nos ater a ele -encolheu-se de ombros-. Na realidade, no respondo ao tipo de homem casado. Eu gosto da liberdade. Entretanto, s-lo durante doze meses no me parece to m idia.
Mas era uma idia to absurda que Peggy seguia olhando-o fixamente, sem falar.
-Um casamento de convenincia... um trato de negcios -murmurou ao fim-. Voc consegue uma esposa para que esteja a seu lado nos atos pblicos... e eu consigo recuperar minha propriedade ao cabo de um ano?
-Sim. Seremos scios durante um ano. Depois eu me tirarei como scio de sua propriedade e tudo ficar para ti.
O brilho de humor que viu em seus olhos a fez fechar os punhos aos flancos.
-Ser um casamento puramente formal?
Brad no respondeu imediatamente, mas sim a olhou de forma apreciativa, detendo-se deliberadamente nas curvas de sua figura e em sua formosa juba escura.
-No, conheo minhas limitaes. Tem um corpo fabuloso e eu tenho um apetite muito so. Eu gostaria de me deitar contigo, Peggy.
Por um momento ela ficou to surpreendida que no pde falar.
-No  uma idia to repulsiva, verdade, Peggy? -inquiriu Brad-. Sei que  muito mais jovem que eu, mas faz uns momentos, quando te beijei, desfrutou muito. No pode neg-lo. Estou seguro de que era desejo o que saboreei em seus lbios... E isso me fez perguntar por que nunca antes te tinha beijado.
Peggy ardia de fria e de humilhao. Seu orgulho nunca admitiria o fato de que o achava atraente... jamais. Sacudiu a cabea.
-Isso s foi imaginao tua. Percebeu em mim surpresa, desconcerto... nada mais.
-Ests segura? -arqueou uma sobrancelha-. Houve um tempo em que me perguntei se estavas apaixonada por mim.
A arrogncia de seu comentrio a impressionou at mais.
-At quando pensa retroceder no tempo? No irs recordar-me a poca em que te propus que fosses comigo  festa de graduao do colgio, verdade? -sabia muito bem que essa tinha sido uma das poucas ocasies em que se atreveu a exteriorizar seus sentimentos ante Brad, a flertar com ele -. Cus! Se no recordo mal voc ps-se a rir; disse-me que as pessoas poderiam te acusar de pedofilia e que tudo aquilo era absurdo -e acrescentou com tom frvolo- Naquela poca devia gostar dos homens mais velhos.
-Eras muito jovem -comentou Brad, encolhendo-se de ombros.
-Separavam-nos os mesmos quinze anos de agora.
-No esqueci -por um instante adotou um tom muito srio. Depois, deslizou o olhar por sua figura com expresso apreciativa-. Mas agora tem vinte e dois e  diferente.
S por um segundo, Peggy teve a impresso de que estava tentando convencer-se a si mesmo mais que convencer a ela.
-Segundo voc, no haveria nada de mal em que me explorasse dessa maneira durante um ano, no? -espetou-lhe. Seus nervos j no podiam suportar por mais tempo a tenso-. Preferiria vender minha alma ao diabo -tremia-lhe a voz.
-Eu no o chamaria assim -Brad se ps a rir-. E acredito que estar de acordo com minha proposta... porque sem dvida ser a deciso mais proveitosa que tenha tomado em toda sua vida -voltou-se para dirigir-se para a porta-. Pensa nisso.




Captulo 2

-No posso acreditar que esteja pensando em vender este lugar -comentou Rosie com tom compassivo. 
-Desgraadamente, assim  -Peggy tentou ocultar sua emoo enquanto servia a sua amiga outra taa de caf.
Encontravam-se na cozinha da casa de Peggy. Era quase meio-dia e a jovem tinha um monto de coisas que fazer. Tinha interrompido seu trabalho quando Rosie havia chegado, contente e agradecida para falar e relaxar-se por um momento.
-Mas que  que far? Aonde ir?
-Poderia ir a Seattle. Uma de minhas amizades tem um apartamento l, e me ofereceu tambm seus contatos se por acaso quero comear a procurar trabalho.
-Seattle! -exclamou Rosie, alarmada-. Isso est muito longe... quem vive l? No vive l esse cara de que foste to amiga... Josh Summers?
-Johs era simplesmente um amigo mais, Rosie -sorriu Peggy-. Nunca houve nada especial entre ns.
-Bom, mas ele teria gostado que tivesse havido. Notei a maneira que te olhava quando veio aqui para passar aquele longo fim de semana...
-S era um companheiro de estudos. Foi muito amvel ao me chamar quando se inteirou sobre a morte de meu pai... mas, certamente, no estou fazendo planos para me mudar a sua casa.Posso te assegurar isso - apoiou-se no batente da janela e suspirou-.  estranho, mas Brad tirou exatamente a mesma concluso quando lhe disse que uma amizade tinha me oferecido para compartilhar seu apartamento comigo. Perguntou-me se tratava de uma amizade masculina.
-Ah, sim? -Rosie pareceu interessar-se sobremaneira por aquele ponto-. Quando viu Brad?
-Ontem  noite veio aqui.
-Perdoaste-lhe pelo dinheiro? -perguntou-lhe Rosie, percebendo a intensa palidez de sua amiga.
-Se for sincera, acredito que no posso culp-lo totalmente.
-Estou segura de que teria deixado passar o assunto da dvida de seu pai se tivesse podido -afirmou Rosie-.  um cara decente.
-Sim... -no mais profundo de seu ser, Peggy ansiava pensar o mesmo. Mas o fato era que Brad lhe tinha confessado abertamente que tinha podido esquecer-se da dvida, mas que no tinha querido faz-lo. Seu pai havia ficado destroado, pouco antes de morrer... aquela lembrana era muito dilaceradora.
-Me alegro que tenham se reconciliado -acrescentou Rosie com energia-. A propsito, Brad deve sentir-se muito abalado neste momento. Acredito que Carolyn e ele tm rompido.
-J me falou algo sobre isso -reps Peggy com tom indiferente.
-Ao que parece ela o deixou pelo Robert Hicks.
-Sim? -a voz de Peggy, naquele momento, refletia um intenso assombro. De maneira estranha, nem sequer por um momento tinha considerado a possibilidade de que Carolyn tivesse abandonado a Brad.
-Sabia que te surpreenderia -sorriu Rosie-. Voc sempre teve uma debilidade especial por Brad, no ?
-Isso pertence ao passado -Peggy tentou adotar um tom convencido e ignorar a dbil voz interior que parecia contradiz-la.
-Claro, tem razo ao te assombrar. Carolyn deve ter ficado louca para romper com Brad, um cara to maravilhoso. Se eu no estivesse casada, e adorasse como adoro o Mike, interessaria-me muito seriamente por ele...
-Como sabe que foi Carolyn quem rompeu com Brad? Foi ele mesmo quem lhe disse?
-No, claro que no. Ultimamente Mike v muito Brad, j que lhe est assessorando em sua campanha eleitoral para prefeito. Mas no acredito que falem dessas coisas... E se o fizessem, certamente meu marido no me contaria isso. No, recentemente me encontrei com Carolyn na cidade e ela mesma me disse isso -Rose enrugou o nariz-.  uma mulher muito segura de si mesma, j sabe, e devo dizer que tinha um aspecto fabuloso. Ao v-la me arrependi de ter deixado a dieta no ano passado.
-Voc no precisa fazer dieta, Rosie -apressou-se a lhe dizer Peggy, pensando que sua amiga era uma loira extremamente atraente que no tinha nenhuma necessidade de emagrecer.
Rosie se encolheu de ombros, como se no estivesse de acordo mas tampouco queria discutir isso.
-Ento, o que  que te disse Carolyn? -perguntou-lhe Peggy, tomando sua taa de caf.
-Te prepare -um brilho de humor apareceu nos olhos de Rosie-. Estas foram suas palavras: terminei com Brad, estava ficando aborrecido. Robert me pediu que me case com ele e aceitei.
-Casar-se com ele! -Peggy abriu muito os olhos-. Vai se casar com Robert Hicks!
-Para que voc veja como  que so as coisas -assentiu Rosie-. Todo mundo estava convencido de que Carolyn se casaria com Brad. Pareciam o casal perfeito, verdade? 
-Sim -conveio Peggy com tom suave. - obvio, Robert procede de uma famlia extremamente rica, que possui uma grande propriedade em So Francisco. Carolyn me disse que iriam viver ali depois do casamento.
Peggy se perguntou se, muito no fundo, Brad se sentiria realmente dodo por aquela ruptura.
-E agora a costa se limpou. Pelo que eu sei, Brad no est saindo com ningum.
-Estou segura de que essa situao no se prolongar durante muito tempo -Peggy tomou um sorvo de caf e foi ento quando detectou um brilho estranho no olhar de sua amiga-. No me olhe assim. Eu no estou interessada absolutamente -declarou com firmeza.
Mas apesar de suas palavras, apesar de tudo o que a tinha enfrentado com Brad, sabia muito bem que estava mais interessada nele do que deveria. Perguntou-se se o fato de que Carolyn tivesse rompido com ele teria sido a razo da proposta que ele tinha feito a ela. Possivelmente teria contado com que Carolyn seguiria a seu lado durante as eleies a prefeito, e uma vez que o amor de sua vida lhe tinha deixado por outro, tinha decidido resolver de uma vez e casar-se por uma pura questo prtica.
-Em qualquer caso, uma vez que venda tudo isto irei embora daqui. Assim  irrelevante que Brad esteja saindo com algum ou no -declarou com firmeza.
-No estar falando a srio em deixar o vale, verdade, Peggy? -Rosie franziu o cenho-. Estou certa que poderia encontrar um emprego aqui! Acaba de te graduar na universidade,  uma trabalhadora muito qualificada.
-Comearei de novo -afirmou com tranqila determinao-. No poderia suportar ficar aqui e ver outra pessoa levando os vinhedos. Me romperia o corao.
-Eu no quero que te parta, Peggy... -Rosie a olhou muito sria-. Sobre tudo agora.
-Me acredite, no quero ir... -interrompeu-se e olhou a seu amiga com o cenho franzido-. Por que sobre tudo agora?
-Ia te pedir que fosses a madrinha de nosso beb -sorriu Rosie, destilando felicidade em cada palavra.
-Rosie..! No me diga que...! -Peggy baixou a taa e gritou de alegria.
-Sim. Estou grvida de um ms.
Peggy a abraou emocionada.
-Parece que ao final tudo sair bem -pronunciou Rosie, com os olhos cheios de lgrimas.
- uma notcia to maravilhosa! Me alegro tanto pelos dois...
-Assim no pode ir... agora no -declarou Rosie, muito sria-. Quero que fique. Quero que fique aqui e seja to feliz como Mike e eu.
-No acredito que isso seja possvel -reps Peggy com um leve tremor na voz.
-Tudo  possvel.
O som de um carro que se aproximava interrompeu as palavras de Rosie. Peggy se aproximou da janela para dar uma olhada. Um luxuoso esportivo vermelho acabava de deter-se ao lado de seu jipe e do velho carro de sua amiga.
- Brad -murmurou Peggy, presa de uma sbita apreenso.
-H algum em casa? -sua voz, forte e de tom decidido, chegou a seus ouvidos procedente do vestbulo.
-Comporta-se como se esta casa j lhe pertencesse -comentou Peggy, desgostosa -. Entra aqui como quer e quando quer.
Rosie sorriu.
-Estamos na cozinha, Brad -chamou-o, alegre.
Segundos depois apareceu na soleira da cozinha, bronzeado e devastadoramente atraente com seu jeans e sua camisa plo de cor azul marinho.
-Parece que cheguei bem a tempo -sorriu, olhando a cafeteira que estava sobre a mesa.
-Certamente que sim -foi Rosie quem se levantou para tirar outra taa e lhe servir caf-. Me alegro em ver-te, Brad.
-Eu tambm me alegro... tem um aspecto maravilhoso -sorriu antes de beij-la nas bochechas-. Venho de sua casa. Mike me acaba de contar a boa notcia. Felicidades.
-Obrigado -reps Rosie, ruborizada.
Brad olhou a Peggy e por um momento seus olhos escuros se detiveram em seu rosto com expresso contemplativa. A jovem podia sentir o fogo que corria por suas veias ao recordar seu ltimo encontro, a forma em que a tinha beijado... e sua proposta.
Apressou-se a desviar o olhar, mas seguia sendo agudamente consciente de sua presena.
-Bom -disse Rosie, entregando a Brad sua taa de caf- eu j me dispunha a partir...
-No tem por que ir correndo por minha culpa -disse ele.
-No, no, j ia de todas formas -Rosie apurou seu caf-. Possivelmente possa fazer que Peggy recupere a razo. Sabe, esteve-me dizendo que quer partir para Seattle.
-Seattle? -Brad olhou a Peggy com o cenho franzido.
Seguiu um tenso momento de silncio antes de que Rosie dissesse com um brilho malicioso nos olhos.
-No o admitir, mas estou segura de que esse cara que ela conheceu na universidade est tentando convenc-la para que v at l. Esperando provavelmente que consinta em viver com ele.
-Rosie! -Peggy abriu muito os olhos, escandalizada.
-No  bom tomar uma deciso to radical quando ainda segue afetada pela morte de seu pai, Peggy... no pode pensar com claridade -acrescentou Rosie, completamente imperturbvel ante o olhar desaprovador de sua amiga, e se agachou para recolher sua bolsa-. Bom, deixo vocs sozinhos. Como antes te disse, possivelmente possa...
-No necessito que ningum me faa recuperar a razo -murmurou Peggy, incmoda- sou perfeitamente capaz de viver minha prpria vida e decidir por mim mesma.
-Telefonarei-te mais tarde, Peggy. Almoaremos juntas algum dia na semana que vem?
Peggy assentiu com a cabea e se disps a acompanhar a sua amiga at o carro, mas Rosie se negou.
-No, no se preocupe. Conheo o caminho.
O silncio que se abateu sobre a cozinha estava carregado de tenso, uma vez que Brad e Peggy ficaram sozinhos.
-Seattle? -pronunciou de novo Brad, sacudindo a cabea-. Sabia que jamais deixa de chover em Seattle?
-Ento presumo que ser uma agradvel mudana, no? -disse a jovem com energia. Terminou seu caf e deixou a taa sobre a mesa da cozinha.
-H algum homem te esperando l? -insistiu Brad.
-J lhe disse isso uma vez, isso no  teu assunto -replicou Peggy, inflexvel. Estava decidida a lhe deixar pensar que havia outro homem que a queria... e no pelos frios e impessoais motivos que Brad lhe tinha proposto.
-Sabe? Rosie tem razo em uma coisa: neste momento no deveria tomar uma deciso to radical. Ainda est sob os efeitos da morte de seu pai.
-Essa  sua maneira de me dizer que mudastes de idia a respeito de que nos casemos?
-No... minha oferta segue em p -sua voz era baixa, suave, sedutora.
Por um instante Peggy se sentiu incapaz de falar. No lhe teria surpreendido nada que Brad tivesse ido procurar-la para lhe dizer que seu projeto era um completo erro. Que no tinha falado a srio sobre aquela proposta. Sacudiu a cabea, tentando rechaar a absurda sensao de alvio que tinha sentido ao saber que no tinha mudado de idia.
-Como pode pensar que cometeria uma loucura ao me apressar a me mudar a Seattle, quando como Rosie e voc dizem, no posso pensar com claridade, enquanto que me casar contigo de repente no lhe parece isso absolutamente?
-Preferiria que cometesse um erro comigo antes que com qualquer outro homem.
Havia um brilho de humor em seu olhar, a leve sombra de um sorriso em seus lbios, que a comoveu profundamente. O estranho senso de humor de Brad sempre a tinha afetado de uma maneira especial. Adorava sua discreta ironia, a facilidade com que podia lhe arrancar um sorriso. E naquele instante teve que lutar contra o impulso de sorrir. Aquela conversa era muito sria para tomar como uma brincadeira.
-Ao menos admite sinceramente que seria um erro -afirmou com tom seco-. No posso acreditar que esteja falando a srio. De verdade pensa que minhas opes so ficar aqui para que te aproveites de mim, ou partir a Seattle para que outro homem o faa?
-Eu no vou me aproveitar de ti, Peggy -reps lentamente Brad, adotando uma expresso muito sria-. Mas no posso responder pelo outro tipo, verdade? A propsito, quem ? No  aquele que acompanhou para casa no ano passado, depois das frias de vero?
-No vou falar desses temas contigo.
- uma desmancha-prazeres -Brad se apoiou no balco da cozinha, pousando o olhar em seus lbios-. Suponho que voc mesma ter tido que te perguntar se realmente quer conservar sua casa familiar, ou se vale a pena que sacrifique tudo por esse tipo de Seattle.
-Oh, isto  ridculo! -Peggy sacudiu a cabea-. No quero escutar nada mais. No podemos nos casar.   simplesmente absurdo.
-Eu acredito que seria um bom trato para ambos.
-Um bom trato! -exclamou ofendida-. Como pode falar de um casamento nesses termos?
-Se falasse em outros termos... se falasse de amor... estaria mais interessada? -perguntou-lhe Brad com tom suave e um matiz de sarcasmo zombador na voz.
-No, no quero saber nada disso -replicou, com o corao lhe pulsando acelerado.
-Ento fugir para Seattle.
-No vou fugir a nenhuma parte -negou Peggy-. Comearei de novo.
-Pode comear de novo aqui. Sei o muito que significa este lugar para ti. No fim de um ano ter recuperado tudo e estar em uma tima situao.
Peggy se ruborizou, nervosa.
-Sentir-se muito melhor no fim desse tempo -insistiu ele..
-Ou muito pior.
- um risco calculado -declarou Brad-. Ao menos conservar sua casa e sua propriedade. No pode perder nada.
-Ao contrrio, acredito que poderia chegar a perder muito. Minha liberdade... e minha prudncia.
-No acredito que viver comigo seja to mau! -exclamou Brad com tom seco, arqueando uma sobrancelha.
-Isso  um problema de opinies.
-Bom, se for isso o que pensa, terei que pedir a outra pessoa.
-Sim, faa-o -replicou ela, escandalizada por sua ousadia-. Que tal com Carolyn? -queria ver sua reao, queria saber como se sentia depois de que Carolyn o tivesse abandonado.
-J lhe disse isso, Carolyn j no representa nenhum papel em minha vida.
Pronunciou essas palavras com firmeza. Em seus olhos escuros no havia a menor sombra de indeciso ou de nostalgia.
-No estar fazendo tudo isto por despeito, Brad?
Por um momento pareceu muito surpreso por sua pergunta. Depois se ps a rir.
-Claro que no, Carolyn desejava de mim mais do que eu podia lhe oferecer.
-Mas foi ela quem te deixou, no?
-Importa acaso quem deixou a quem? -inquiriu Brad por sua vez, e olhou seu relgio-. Escuta, no vim aqui para falar de minhas aventuras passadas. Estava-me perguntando se quereria comer comigo.... Acredito que seria maravilhoso que ns dois nos sentssemos tranqilamente a falar como dois seres civilizados.
-Sinceramente, no vejo a necessidade de falar de nada. J sabe o que penso de ti.
-Voc e eu sempre nos demos muito bem.
-At que descobri como eras realmente.
-Eu, em troca, sempre te tive em muito alta estima, Peggy. Eu gosto de seu carter dinmico, sua vivacidade... -deslizou o olhar por sua figura-. Entre outras coisas.
-No tente me adular, Brand -replicou ela, estremecida-. Asseguro-lhe que no vou aceitar esse trato que me prope. Sou uma romntica. Quando me casar, farei-o por amor, e no por negcio.
-Posso te enviar rosas.
-Necessitaria algo mais que rosas para me convencer -espetou-lhe com frieza-. Depois da maneira como que tratou a meu pai.
-No vou colocar-me nesse tema outra vez. Os problemas de seu pai foi ele mesmo quem os criou -declarou com tom desdenhoso.
-Estou segura de que voc adoraria que todos esquecssemos o que fez -disse-lhe com tom custico- mas no conte com isso. Eu nunca esquecerei nem te perdoarei que apunhalasse meu pai pelas costas. Morreu amargurado e arruinado, e voc contribuiu para essa situao... odeio-te por isso e...
-Pelo amor de Deus, Peggy, amadurea um pouco! -interrompeu-a bruscamente Brad-. Seu pai era um estpido, e se arruinou sozinho... -apoiou-se sobre a mesa, desafiando-a com o olhar-. Quer que te diga por que se encontrava em uma situao econmica to ruim? Quer saber a verdade?
-O que quer dizer? -inquiriu Peggy, franzindo o cenho-. Sei tudo o que tem para saber.
-Seu pai era um homem fraco, Peggy, e quanto antes te enfrente com a verdade, melhor para ti.
-Ele tampouco falava muito bem de ti -replicou ela-. Disse-me que foi duro e implacvel. E, a julgar por sua recente oferta, eu diria que no se equivocou.
-Se oferecer-se para saldar a dvida que ainda me deve, se oferecer-se para levantar de novo sua propriedade e investir mais dinheiro nela para depois lhe devolver isso no final de um ano , em sua opinio, uma amostra de dureza e implacabilidade, ento j no tem sentido que sigamos falando -declarou Brad, deixando sua taa de caf sobre a mesa.
-Me diga uma coisa, Brad -Peggy o deteve quando j se dirigia para a porta-. Como pode me propor saldar a dvida de meu pai agora, quando antes ele mesmo te suplicou que lhe prorrogasse o prazo de devoluo e te negou? Como se explica isso?
-Tinha muito boas razes para fazer o que fiz, Peggy. E te estou pedindo que acredite em mim.
Seu tom parecia sincero, e de repente Peggy se sentiu desconcertada. Brad viu a sombra de dor que nublava seus olhos, e se aproximou dela.
-No, Brad -apartou-se-. No me toque. No estava falando de brincadeira quando antes te disse que te odiava.
-No, no me odeias -sacudiu a cabea-. Assusta-te o futuro e sente falta desesperadamente de seu pai, mas no me odeia.
-No estou assustada de nada -declarou, teimosa.
Brad deslizou o olhar por sua plida ctis, pelo suave e delicado contorno de seus lbios.
-Conheo-te desde que tinhas treze anos, Peggy Jackson. Sei que est muito doda... e quero que saibas que desejo o melhor para ti -levantou-lhe o rosto, obrigando-a que o olhasse-. Quero beijar esses trementes lbios, quero te abraar e te dizer que jamais ter que voltar a preocupar-se por nada.
Peggy se mordeu o lbio. O estranho era que, apesar de tudo o que lhe tinha dito, ansiava que Brad a beijasse, que a abraasse. Sentia-se to confusa e emocionada que no sabia o que pensar.
-Peo-te perdo pelo que te disse antes a respeito de seu pai, a respeito de que era um homem fraco. No devia ter dito isso.
-No, no deveria t-lo dito -reps Peggy. Os olhos lhe doam por causa do esforo que estava fazendo para no chorar.
-Acredite em mim, eu sempre gostei de seu pai. E no fui eu quem o arruinou.
Peggy no respondeu nada. O corao lhe pulsava com tanta fora que estava segura de que ele podia ouvi-lo. Sua proximidade estava fazendo que todo tipo de estranhas emoes aflorassem  superfcie com uma intensidade que no podia controlar.
-No voltaremos a falar mais do passado, de acordo? -disse-lhe Brad baixando a voz, com um tom persuasivo, sedutor-. O futuro  o nico que importa. Vamos sair para comer e falar de tudo isto tranqilamente.
Peggy franziu o cenho. Qual era seu futuro? Deixar tudo e abandonar a todos os que tinha conhecido e amado, entre eles Brad Monroe, para comear de novo em uma cidade estranha? Mas se ficasse e se casasse com Brad, como se sentiria no final de um ano, quando terminasse seu casamento? Teria recuperado sua casa, mas seria realmente capaz de reconstruir sua vida feita pedaos, esquecer que tinha compartilhado um ano inteiro com Brad e comportar-se como se nada tivesse acontecido? No se acreditava capaz de fazer isso, mas lhe partir parecia uma soluo igualmente aterradora.
-Me diga que te casars comigo, Peggy, e eu cuidarei de ti.
-No necessito que ningum me cuide -reps com energia-. Posso cuidar de mim mesma.
-De acordo, diga sim e j solucionaremos mais tarde esses detalhes -sorrindo, inclinou-se para beij-la.
A doura de seus lbios contra os seus produziu a Peggy uma inegvel sensao de prazer. No fez nenhuma tentativa para apart-lo. Em vez disso, um instinto mais intenso e profundo se apoderou dela e se encontrou a si mesma abraando-o, apoiando as mos sobre seu peito quente. Podia sentir o calor de sua pele atravs de sua roupa, temperando a frieza que tinha se instalado em seu corao desde a morte de seu pai. Fechou os olhos e descobriu que ansiava por apoiar-se languidamente nele, deixar-se levar e lhe dizer: vamos tentar.
Quando Brad a apartou, Peggy levantou o olhar para ele, confusa e tonta.
-No ouve um tilintar? -murmurou.
-Acredito que  seu telefone -comentou ele com um sorriso.
-Oh! -exclamou a jovem, retrocedendo. Resultava humilhante o contraste entre a inalterabilidade de Brad e seu prprio sobressalto, sua prpria confuso. Recuperou-se com dificuldade e pegou o telefone.
-Peggy?  Rum Harrison, o agente imobilirio de Brad. Sinto te incomodar, mas... Brad est por a?
-Sim... sim est -Peggy lhe entregou o telefone -.  para ti.
-Sim? -inquiriu, enrgico, e depois olhou seu relgio-. De acordo. No, no importa. Voltarei para me encarregar disso agora mesmo -desligou o telefone e se voltou para olhar a jovem-. Sinto muito, Peggy, teremos que suspender o almoo. H problemas com os vinhedos.
-No importa -encolheu-se de ombros, de novo na defensiva-. De todas formas, no ia almoar contigo.
Brad sorriu como se no acreditasse em suas palavras, principalmente depois daquele momento de intimidade que tinham compartilhado.
-Pois ento jantaremos juntos -afirmou-. Recolherei-te amanh pela tarde, s sete e meia.
-No, Brad.
-No me atrasarei, assim te assegure de estar pronta a tempo -e partiu da casa.
Peggy o observou enquanto subia apressado em seu esportivo, to crdulo e seguro de si mesmo como sempre.
O corao lhe pulsava to rapidamente como se acabasse de correr uma maratona. Ainda seguia apaixonada por Brad Monroe. Aquele fato resultava indiscutvel, e se odiava por isso.
Aquele era o homem que tinha trado a seu pai, disse-se a si mesma. Mas atrs daqueles sentimentos de culpa e deslealdade para com a memria de seu pai, escondia-se um desejo to profundo e intenso que resultava impossvel de combater.




Captulo 3

O aroma das rosas recebeu Peggy quando ela abriu a porta dianteira. Em um vaso de vidro, sobre a mesa do vestbulo, os apertados botes que tinha posto nele nessa manh tinham florescido em todo seu esplendor. Inclinou-se para aspirar seu perfume, agradecida a Brad por aquele detalhe.
Tirou os sapatos e suspirou. Tinha passado uma tarde terrvel percorrendo sua propriedade com os agentes imobilirios, catalogando tudo, dos enormes tanques dos armazns at os equipamentos de equitao que havia nos estbulos vazios.
Tudo estava registrado, preparado para o catlogo, e j tinha sido fixada a data para o leilo. Escreveu a data na agenda que guardava na mesa do vestbulo, anotando-a ao lado das entrevistas para tomar o caf da manh que tinha marcado com Rosie para aquela semana, em uma tentativa de trivializar aquele acontecimento. Mas no o conseguiu. Seguia tendo a sensao de que estava escrevendo a data exata do fim do mundo.
A convico de que no precisava seguir adiante com os trmites da venda se via reforada pelas rosas que Brad lhe tinha enviado aquela manh. Elas vinham acompanhadas de um carto, em que lhe recordava que passaria para recolh-la para jantarem juntos nessa tarde. Como se tivesse podido esquec-lo! Durante todo o dia enganou a si mesma dizendo-se que no ia, que no mudaria de idia a respeito de sua proposta... da o fato de que tivesse marcado um encontro com os agentes imobilirios.
Desviou o olhar das rosas ao relgio de parede dos tempos de seu av. Eram seis horas em ponto. Se ia jantar com Brad, teria que subir a sua habitao para preparar-se e no perder mais tempo.
Pensou nisso s por um segundo e depois se dirigiu para as escadas. No lhe faria mal escutar o que Brad tivesse que lhe dizer, disse-se com energia. Tomou uma ducha e se penteou em um tempo recorde, mas depois passou sculos indecisa sobre o que deveria usar. Queria apresentar uma boa imagem, mas por outro lado no queria esmerar-se e preocupar-se muito.
Colocou um traje branco, com uma blusa de seda azul, e depois se examinou no espelho. Pensou que as cores faziam um bonito contraste com o tom escuro de seu cabelo, e o corte do traje destacava sua esbelta figura.
De repente se sobressaltou ao ouvir o carro de Brad. Pela janela do dormitrio, observou-o enquanto se dirigia para a porta principal. Tinha uma aparncia muito elegante com seu terno escuro, de corte clssico. Em seguida ouviu a campainha, mas esperou uns minutos. No se apressaria a deix-lo entrar... no queria parecer que estava ansiosa para v-lo.
Tomou seu tempo em abrir a porta, mas quando o fez e viu seu clido sorriso, todas suas intenes se evaporaram em um instante.
-Ests maravilhosa -disse Brad, olhando-a com expresso apreciativa.
-Obrigado. E obrigado tambm pelas rosas -acrescentou.
-Foi um prazer -olhou seu relgio-. Vamos? Reservei uma mesa no Henry's para as oito horas.
Peggy tentou dissimular sua impresso pelo fato de que fosse lev-la a um dos melhores restaurantes da regio.

Surpreendentemente, Peggy se sentiu muito relaxada durante o jantar. A comida e o servio eram excelentes, e Brad se mostrou muito atento e divertido. Nenhuma s vez a conversa derivou para o terreno pessoal.
-Voc gostaria de tomar sobremesa e caf? -perguntou-lhe enquanto voltava a lhe encher a taa de vinho.
-S caf, obrigado -Peggy deixou de observar o restaurante para descobrir que Brad a estava olhando com uma estranha fixidez. A intensidade de seu olhar acabou por perturb-la.
Me alegro de que mudasse de idia a respeito de jantar comigo esta noite lhe comentou ele com tom suave.
-Eu tambm -confessou-lhe Peggy-. Este  um de meus restaurantes favoritos, mas fazia anos que no pisava nele. As pessoas esto acostumadas vir a este lugar somente para celebrar ocasies muito especiais...
-Espero que esta seja tambm -reps Brad, pousando o olhar em seus lbios.
-Como conseguiste reservar uma mesa com to pouco tempo de antecipao? -inquiriu Peggy em um esforo por restringir sua conversa a um tema impessoal.
-Posso me mostrar muito persuasivo quando algo me importa o suficiente.
Quer dizer que os subornaste... tal e como tentou subornar a mim para que me casasse contigo?
-Nunca em toda minha vida subornei a ningum -replicou Brad, arqueando as sobrancelhas-. Diabos, Peggy, eu te sugeri que te casasse comigo porque pensava que isso resultaria em nosso mtuo benefcio. Realmente tem uma opinio to baixa de mim?
Seus olhares se encontraram e a Peggy acelerou o corao.
-J no sei o que pensar -admitiu, arrependendo-se de seu anterior ataque e recordando-se quo amvel Brad tinha sido com ela durante o jantar-. Sinto muito. Possivelmente a palavra suborno fosse um pouco forte.
Brad se apoiou de novo no respaldo de sua cadeira, voltando a relaxar-se.
-Sim... sobretudo para um futuro prefeito -comentou com tom zombador.
Peggy o olhou atentamente. Parecia forte e implacvel, mas a impresso de fora que suscitava parecia associar-se a um conceito de honra, de integridade moral. Se no tivesse sido pela forma em que tinha  se comportado com seu pai durante os ltimos meses de sua vida, jamais teria deixado de confiar nele.
-Deve ter muita vontade em te converter em prefeito se com o propsito de conseguir mais votos est disposto a te casar.
-Sim, isso chegou a ser bastante importante para mim -admitiu-. Acredito que posso mudar este lugar, melhorar a vida das pessoas.
-E depois o que? Washington? -perguntou Peggy com tom ligeiro.
-Me d uma oportunidade -Brad se ps a rir-. Ainda no me escolheram -inclinou-se para lhe servir mais vinho.
-s ambicioso. Se as coisas forem bem, no duvido que pensars em metas mais altas. Este lugar ficar muito pequeno.
-Esta cidade  meu lar. Como voc, cresci amando e respeitando esta terra, o legado de meus pais. No renunciarei a ela to facilmente.
Peggy pensou imediatamente em sua me.
-No... Elizabeth no o teria aprovado -por um momento lhe nublou a mirade de tristeza. Ainda sentia falta daquela mulher.
-Em troca, sim teria aprovado a proposta que te fiz -reps ele com um sorriso irnico.
-Isso no teria sido suficiente para que mudasses de idia? -inquiriu Peggy, sorrindo-. Sua me sempre dizia que eras muito independente, muito orgulhoso e teimoso.
- engraado, o mesmo estava acostumado a dizer de ti.
Olharam-se por um momento, comovidos por aquelas lembranas.
-Elizabeth era uma pessoa encantadora. Deve sentir terrivelmente sua falta.
-Sim, mas a vida tem que seguir -reps Brad-. Minha me me ensinou essa lio quando era muito jovem e meu pai acabava de morrer. Era forte, muito valente, e teve que trabalhar muito duro para conseguir xito atrs xito com os vinhedos.
-Sim, era uma mulher extraordinria.
-Ela estava acostumada dizer, Peggy, que o segredo da vida no se baseava em ter medo, a no ser em agarrar-se a ela com fora.
A jovem lhe alagaram os olhos de lgrimas, e Brad a pegou pela uma mo.
-Te case comigo, Peggy.... Necessito-te. Quero-te.
-Voc no necessita de ningum. Ganhar essas eleies tanto se te casar como se seguir solteiro.
-Obrigado por ter tanta f em mim -sorriu-. Mas acredito que terei mais oportunidades se voc estiver a meu lado. Como  aquele dito..? atrs de cada homem importante h uma mulher fundamental...
-Ou uma sogra surpreendida -ps-se a rir Peggy-.  o outro lado desse dito.
-Como nunca conheci sua me, no sei se haveria sentido surpreendida ou no. O que sim sei  que a minha se teria alegrado muitssimo...
-No est sendo justo, Brad. No precisa mesclar a Elizabeth nisto. Sabe muito bem que penso nela.
-Escuta -pediu-lhe Brad, esboando um meio sorriso- estou to desesperado que seria capaz de mandar  trazer um sacerdote agora mesmo com o propsito de que mudasse de idia.
- uma loucura -murmurou Peggy, divertida por suas palavras-. Um casamento de convenincia... -sacudiu a cabea.
-Eu, em troca, acredito que tem perfeito sentido.
-No  possvel...
-As pessoas sempre se casaram por convenincia, desde o comeo dos tempos. E muitssimos matrimnios desse tipo tiveram xito.
-Fala por ti mesmo. Eu no sei de nenhum caso.
-Somente comprometer um ano de sua vida
Peggy se encolheu de ombros. 
-Ao final desse prazo recuperar seus vinhedos... No precisa fugir daqui.
-No estou fugindo.
-Chama-o como quiser. Bom, o que me diz?
Peggy no respondeu imediatamente e ele tirou uma caixinha de um bolso do casaco. Abriu-a, lhe mostrando um anel maravilhoso, com um enorme e solitrio diamante.
-J compraste o anel? -olhou-o assombrada.
-Pensava que devia tomar essa confiana.
-Sinto muito, Brad, mas eu no posso dizer que a compartilhe.
Brad tirou o anel da caixa e o sustentou entre os dedos indicadores e polegar frente  vela da mesa. O diamante despedia uma mirade de brilhos multicoloridos.
-Olhe, faremos o seguinte: se o anel encaixar perfeitamente no anular de sua mo esquerda, consideraremo-lo um bom pressgio e nos casaremos. Se no, esqueceremo-nos de todo o assunto.
-No te parece uma prova muito singela para uma deciso to transcendental?
-Bom -sorriu Brad-, eu sou um grande crente no destino -tomou a mo e deslizou o anel em seu dedo. Encaixava perfeitamente-. Justamente como a Cinderela e o sapatinho de vidro -acrescentou com um brilho zombador no olhar.
-Brad, isto ...
Mas no lhe deixou continuar e a beijou nos lbios. Foi um beijo breve, mas quente e sedutor, que a fez esquecer-se completamente do que ia dizer-lhe. Peggy o olhava fixamente, sem falar.
-Peo champanha?
Peggy voltou para a realidade. Se algum lhe houvesse dito um ano atrs que Brad Monroe lhe pediria que se casasse com ele, no lhe teria acreditado absolutamente, mas teria levado uma imensa alegria. Agora no sabia o que fazer... nem sequer era capaz de decifrar seus prprios sentimentos. Brad no a amava, recordou-se com energia. Aquilo era um simples trato de negcios, nada mais. Um trato que lhe permitiria conservar seu lar, suas terras, mas... poderia suportar o aspecto emocional daquele compromisso? Poderia suportar uma relao que tinha um tempo limitado, um casamento que sabia que terminaria? A opo de abandonar Brad, de abandonar de repente seu lar lhe parecia uma possibilidade inclusive muito terrvel de contemplar.
-Um trato por um ano...? -balbuciou.
Brad assentiu, com um brilho no olhar, e levantou uma mo para chamar o garom.
Peggy o observava em silncio, sentindo-se transbordada pelo que estava acontecendo.

O anel de compromisso de Peggy brilhava como o fogo enquanto Peggy saa de seu jipe, atraindo irresistivelmente seu olhar. Tinham passado quatro dias desde que Brad o ps, e ainda no podia acredit-lo. Se fosse sincera consigo mesma, tinha medo do compromisso que tinha assumido com aquele gesto.
O casamento era um dos mais delicados passos que se podia dar na vida, e ela o tinha aceito como parte de um simples trato de negcios. Procurava recordar-se que dessa forma salvaria seu lar, que j no teria que partir, mas inclusive assim no podia evitar perguntar-se se no teria cometido uma loucura.
Muito elegante com seu traje de cor creme e sua longa juba recolhida em um delicado coque, dirigiu-se para o centro comercial. Tinha marcado um almoo com a Rosie e ainda tinha que contar a sua amiga a boa notcia. De alguma forma, no tinha sido capaz de mencionar-lhe quando pouco antes estiveram falando por telefone.
O restaurante se encontrava dentro do complexo comercial, e estava acostumado a ser muito freqentado por empregados de lojas e empregados de escritrio. Peggy abrangeu as mesas com um olhar e descobriu Rosie lhe fazendo gestos.
-Sinto muito, chego tarde? -perguntou enquanto se sentava frente a sua amiga.
-No, sou eu quem chegou cedo -Rosie lhe entregou o menu-. No me importa te confessar que morro de fome. Estava decidida a me controlar para no comear a comer por dois, mas a tentao est resultando simplesmente entristecedora.
-Bom, ao menos no tem nuseas -sorriu Peggy.
-Certamente, esse problema no tenho. Sinto-me fantstica.
-E assim parece -reps Peggy, sincera-. Como est Mike?
-To entusiasmado e contente como um pirralho.
Nesse momento apareceu o garom para anotar o pedido.
-Bom, e voc tudo bem? -perguntou-lhe Rosie quando voltaram a ficar sozinhas-. O agente imobilirio j fixou uma data para o leilo?
-Sim, e eu a cancelei. Em vez disso, decidi me casar -declarou Peggy com naturalidade.
-Te casar! -nesse momento Rosie ia colocar acar no caf, e o derramou sobre a mesa-. Ouvi bem?
-Sim. Brad me props casamento e aceitei.
Rosie olhou o anel que levava na mo esquerda, com os olhos como pratos.
-No... no posso acreditar -murmurou, completamente assombrada.
-Pois j somos duas -Peggy no pde evitar rir.
-Peggy,  um anel maravilhoso. Felicidades -de repente, lanou-lhe um olhar acusador-. E no me disse nem uma palavra! No outro dia, quando te estava contando sobre Brad e a Carolyn, comportou-te como se no soubesse nada...
-E no sabia nada, de verdade... -Peggy se encolheu de ombros-. Tudo isto aconteceu to rpido...
-Brad rompeu com Carolyn por tua causa?
Peggy negou com a cabea. No tinha inteno de entrar nos verdadeiros detalhes de seu compromisso.  Rosie ficaria horrorizada e, alm disso, ela mesma no queria admiti-los. Mas no podia mentir.
-No, acredito que as coisas foram tal e como Carolyn te contou -seguiu um comprido silncio-. Sei o que ests pensando -disse Peggy com tom irnico- Est-te perguntando se Brad no estar atuando por despeito. Eu lhe fiz essa mesma pergunta e ele me assegurou que no era assim.
-Possivelmente sempre tenha estado apaixonado por ti -disse Rosie com tom ligeiro-. Esteve muito tempo fora, na universidade.... possivelmente esteve te esperando.
- uma romntica incorrigvel -Peggy sorriu tristemente. No mais profundo de seu ser, teria lhe encantado que sua amiga tivesse razo-. No, no engano a mim mesma, mas a verdade  que lhe quero -admitiu sinceramente, inclusive enquanto falava se surpreendeu da intensidade de seus prprios sentimentos.
Tinha aceito aquele casamento porque dessa forma conseguiria salvar seu lar. Mas albergava esses sentimentos por Brad. No podia negar que existiam no mais profundo de seu corao, por muito que lhe dissesse justamente o contrrio. Suas prprias emoes a confundiam. Como podia sentir aquilo por um homem em quem no sabia se podia confiar?
-S estou seguindo uma espcie de instinto cego, Rosie, e para te ser sincera no tenho a mnima segurana de ter tomado a deciso adequada.
-E quem pode ter essa segurana? -sorriu Rosie-. Eu acredito que formam o casal perfeito. Brad  uma pessoa maravilhosa e voc merece o melhor.
-Obrigado -reps Peggy, comovida pela sinceridade de sua amiga.
-Como vai ser a cerimnia?
-No sei. Suponho que discreta, ntima. Ainda no falamos sobre isso.
-Depois de comer, vamos dar uma olhada nos vestidos de noiva -sugeriu-lhe Rosie, entusiasmada.
-No estou preparada para isso -reps Peggy, incmoda de s pensar nisso-. Ainda estou me acostumando  idia de que sou uma mulher comprometida.
-Voc decide: ou isso ou te aborrecer durante toda a tarde vendo roupa de bebs.
-No me aborrecerei -apressou-se a lhe assegurar-. Em qualquer caso, no tenho tempo para provar vestidos. Convidei Brad para jantar esta noite em casa, e tenho que fazer algumas compras.
-Eu te ajudarei -disse-lhe Rosie, olhando seu relgio-. Temos tempo mais que suficiente para ver vestidos... -e se ps a rir-. Diabos, Peggy, Brad deve estar muito apaixonado por ti se vai arriscar-se a provar a comida que voc cozinha...

Peggy retornou para casa carregada de pacotes e de um humor excelente. Possivelmente se tinha contagiado com o bom humor da Rosie, mas surpreendentemente tinha desfrutado vendo vestidos de noiva... e de fato, estava absolutamente entusiasmada com a perspectiva de converter-se na senhora Brad Monroe.
Depois de deixar os comestveis na cozinha, subiu a sua habitao com as outras compras. Uma saia nova para estrear naquela noite e uma camisola especialmente sedutora. Uma vez que tivesse guardado tudo, olhou-se no espelho. Fazia muito tempo que no se sentia to contente. Disse-se com energia que possivelmente aquele casamento funcionaria... Talvez no ano seguinte, por essa mesma data, Brad j teria se apaixonado por ela... e j no quisesse que terminasse seu casamento.
Quando se voltou para sair da habitao, seu olhar tropeou com a fotografia emoldurada de seu pai que descansava sobre a cmoda. Ao contempl-la, uma espcie de sentimento de vazio lhe apertou o estmago e voltou bruscamente para a realidade. Como podia enganar-se daquela forma? Brad tinha arruinado a seu pai. Como podia confiar em um homem semelhante, e inclusive am-lo?




Captulo 4

Eram quase oito horas e Peggy se sentia realmente aterrada quando soou a campainha da porta. Desviou o olhar do forno para pousar-lo no relgio de parede. Se fosse Brad, ento tinha aparecido meia hora antes de tempo, pensou com o corao acelerado. J estava se arrependendo de t-lo convidado para jantar em sua casa aquela noite.
Quando se apressou para abrir a porta, a primeira coisa que viu foi o enorme buqu de flores que Brad levava nas mos. Vestia-se de maneira informal, com uma jaqueta de cor bege, e oferecia um aspecto devastadoramente atraente.
-Mais flores! -exclamou Peggy, surpreendendo-se do tom de tranqilidade que era capaz de adotar quando por dentro se sentia como um vulco em erupo-. Obrigado, Brad -tomou o buqu, e se ruborizou ao ver que ele se inclinava para beij-la nos lbios. Como no ltimo momento inclinou a cabea, conseguiu desviar o beijo e receb-lo na bochecha.
-Algo cheira muito bem -comentou Brad, retirando-se de novo. Comportava-se como se no tivesse percebido seu rechao, apesar do bvio que tinha resultado.
-Cordeiro assado, mas ainda no est pronto. Chegaste antes do tempo -Peggy se sentiu obrigada a mencionar esse fato enquanto recordava o estado catico em que se encontrava a cozinha.
Brad no pareceu se afetar com esse comentrio. Sentia-se absolutamente cmodo naquela situao.
-Passaram quatro dias desde a ltima vez que nos vimos. No queria ter que esperar outra meia hora mais -replicou com um sorriso.
-Brad, j sei que confessei que eu era uma romntica, mas me dou perfeitamente conta de que nosso casamento s ser um trato de negcios. No precisa me dizer essas coisas -disps-se a abrir a porta da sala, mas ele a segurou pelo brao.
-Sim, fizemos um trato -concordou Brad, adotando um tom firme, implacvel-. E eu acreditei ter deixado claro que formava parte desse trato que os dois mantivramos uma boa relao. Quero que nosso casamento se assemelhe o mximo possvel a um casamento real, de verdade.
-Mas ns ainda no estamos casados, Brad -Peggy lhe sustentou o olhar com firmeza-, e no acredito que tenha nenhum sentido fingir uns sentimentos que realmente no temos -custou-lhe um grande esforo pronunciar aquelas palavras. Tinha estado meditando muito sobre isso enquanto preparava o jantar, recordando-se sem cessar que a proposta de casamento de Brad se devia simplesmente a motivos de negcios. Tambm havia posto especial empenho em recordar quo mau Brad tinha tratado a seu pai, dizendo-se que se no tirava de sua cabea essas absurdas idias romnticas, ao final de um ano de casamento s conseguiria destroar o corao.
-E eu acredito que deveramos comear o quanto antes.
Antes de que ela pudesse evit-lo, Brad se aproximou e a beijou firmemente nos lbios. Peggy se manteve rigidamente quieta contra seu corpo, mas quando ele aprofundou o beijo, surpreendeu-se a si mesma respondendo, cedendo a um desejo contra o qual era impossvel lutar. Aquilo a humilhava e irritava, mas no podia fazer nada para evit-lo.
-Assim est melhor -murmurou com um tom de satisfao quando a soltou, retrocedendo-. Isto sim que tem aspecto de realidade.
-Nosso trato durar um ano, Brad -exclamou Peggy, indignada-.  somente um casamento de convenincia. Nunca ser um casamento real.
Brad se encolheu de ombros, sorrindo.
-Mas a julgar pelo calor de seu beijo, acredito que vamos passar isso muito bem fingindo durante estes doze meses.
-No sei se minha atuao vai ser muito convincente -reps ela, tensa.
-Pois ento ser melhor que v praticando -arrebitou Brad-. Porque no ter sentido que continuemos com esta farsa se no pode representar-la de uma maneira convincente. Quando estiver do meu lado nos comcios, quando as pessoas nos verem juntos, quero que a linguagem de nossos corpos seja a adequado. Quero que todo mundo pense que estamos apaixonados.
-Inclusive Carolyn? -no pde evitar de lhe perguntar.
-Carolyn nada tem que ver com nosso acordo.
-Se voc o est dizendo... mas tenho a impresso de que h uma boa quantidade de orgulho masculino mesclada em tudo isto. Como voc no gostou que ela lhe deixassem, est enviando uma tcita mensagem a sua ex lhe indicando que aquilo no te importou nada.
-A nica mensagem que me interessa mandar  que votem em mim para prefeito -reps Brad-. E quero me assegurar de que voc represente bem seu papel. No quero que me evite quando for te beijar, como tem feito faz uns momentos atrs.
-Em outras palavras, quer viver uma mentira durante um ano.
-E voc quer recuperar seus vinhedos -replicou Brad, lhe sustentando o olhar com firmeza.
Peggy podia sentir como lhe acelerava o corao. Quase podia escutar seus batimentos do corao no denso silncio que se abateu sobre eles. Suspirou profundamente.
-Est bem -disse com tom suave, arrependida de ter iniciado aquela discusso.
Mal Brad tinha pisado na soleira de sua casa e j estavam discutindo. Essa no era a melhor maneira de entender-se com ele, pensou desgostada. Melhor seria que conservasse a calma. Expressar a menor quantidade de sentimentos possvel. Esse parecia ser o princpio pelo qual se regia Brad. Resultava difcil adivinhar o que estava pensando ou sentindo. Como naquele momento, mantinha uma expresso perfeitamente impassvel enquanto a olhava fixamente.
Peggy respirou aliviada quando ouviu a campainha do forno, lhe avisando que a comida estava pronta.
-Ser melhor que d uma olhada -separou-se dele, tentando desesperadamente adotar um tom frio e impessoal-. Se acomode na sala, se quiser.
Mas Brad a ignorou completamente e a seguiu at a cozinha. Apoiando-se no marco da porta, perguntou-lhe com naturalidade, como se a anterior conversa nunca tivesse acontecido.
-H algo no que possa te ajudar?
-Pode abrir o vinho -sugeriu-lhe ela, desesperada para tirar-lhe de cima.
Brad assentiu e se voltou para a prateleira dos vinhos para escolher o mais adequado para o jantar.
-Sua prpria marca, j vejo -comentou enquanto abria uma garrafa e servia as taas-. E muito boa -acrescentou, aproximando a taa ao nariz antes de saborear delicadamente o caldo-. Um vinho muito saboroso, com muito corpo -nesse momento olhou a Peggy de maneira apreciativa-. Como sua proprietria.
-Colheita do ano passado -explicou ela, tentando ignorar seu comentrio-. Aps tive alguns problemas com os vinhos.
-Necessita de ajuda.... e de um bom investimento em sua propriedade -Brad se encolheu de ombros-. No se preocupe. Eu o solucionarei quando nos casarmos.
Nesse instante Peggy se atreveu a lhe lanar um furtivo olhar.
-Porque nosso trato segue em p, verdade? -inquiriu ele com tom preguioso-. Ou decidiste que esta farsa  muito para ti?
-Ainda uso o anel que voc me deu, no? -Peggy tentou adotar um tom frvolo-. S ia dizer que ao menos eu gostaria de dar minha opinio sobre o que vais fazer com meus vinhedos.
-Sabia que o faria -sorriu, irnico.
-Durante geraes pertenceram a minha famlia -comentou Peggy, encolhendo-se de ombros-. So muito importantes para mim.
-Evidentemente -havia uma nota de zombadora ironia em seu tom-. Acredito que j deixamos claro o muito importantes que so para ti. Mas no se preocupe, informarei-te de todas as melhorias que se realizarem.
-No somente quero que me informe sobre o que faa -declarou ela com firmeza-. Tambm desejo participar das decises.
-De acordo -Brad se encolheu de ombros-. Depois que cumpra com sua parte do trato -deslizou o olhar por sua figura-. A propsito, esta noite est preciosa.
-Obrigado. S espero que encontre minha cozinha to satisfatria como minha aparncia -voltou-se rapidamente quando a gua de uma caarola comeou a ferver-. Embora no tenho muitas possibilidades de consegui-lo -acrescentou com um sorriso-. Rosie diz que se te arriscar a provar minha comida, ento  que est muito apaixonado por mim... -logo que tivesse pronunciado aquelas palavras, ruborizou-se de vergonha. Brad no estava apaixonado por ela, e jamais tinha fingido est-lo -. Bom, j sabe o que quero dizer -apressou-se a acrescentar, esperando que ele atribura seu rubor ao calor que fazia na cozinha.
-Sei o que quer dizer -comentou ele com tom desenvolto-. E no se preocupe, no estou to interessado por suas habilidades na cozinha... em minha opinio, esta  a segunda habitao da casa em ordem de importncia...
Naquele momento Peggy no podia estar mais ruborizada. Olhou-o, dando-se conta de que se estava burlando dela.
-Isso no tem nenhuma graa -murmurou.
-No pretendia me fazer de gracioso -reps ele com tom ligeiro, sorrindo.
Peggy jamais antes tinha sido to agudamente consciente da presena de um homem. Podia sentir seus olhos fixos nela, quase como se a estivesse tocando. De algum jeito se arrumou para concentrar-se em servir os pratos.
A sala de jantar somente estava iluminada pelo resplendor do fogo da lareira. Peggy acendeu um abajur lateral enquanto Brad levava os pratos  mesa.
-Por seu anterior comentrio, deduzo que j ter informado Rosie sobre nossos planos de casamento -declarou Brad enquanto aproximava a cadeira para ela, antes de ele tomar assento.
-Sim, hoje durante o almoo -confirmou-lhe Peggy.
-O que lhe disse?
Peggy o olhou fixamente, sem tocar os talheres.
-No lhe disse que o nosso s era um trato de negcios, se isso for o que quer saber.
-Sei que as duas so muito amigas, mas me alegro de que no lhe tenha contado nada... quantas menos pessoas saibam, melhor.
-A verdade no faria nenhum bem a sua imagem, verdade? -murmurou Peggy.
-Nossa vida privada  nosso assunto -Brad se encolheu de ombros-. O jantar est delicioso, Peggy -comentou, trocando de tema-. Eu pensava que havia dito que no cozinhava bem.
- algo puramente acidental, me acredite.
-Bom, no precisar cozinhar se no quiser uma vez que se mude a minha casa -informou-lhe Brad-. A senhora O'Brien vem todos os dias. Ela se encarrega de cozinhar e de limpar a casa.
-Falas como se j tivesse planejado tudo -olhou-o arqueando as sobrancelhas-. Ento, viveremos em sua casa?
-Me faria a vida mais fcil. Ali disponho de um grande escritrio de onde controlo minha campanha eleitoral, e estarei localizvel para meu administrador se por acaso surgirem problemas com os vinhedos-. Mas se voc prefere ficar aqui, ento serei eu quem vai se mudar. Sua felicidade  o nico que me importa.
Quando Brad dizia coisas como aquela, Peggy acreditava derreter-se por dentro. Era como se todas as recomendaes que dava a si mesma se evaporassem de repente. Ao olh-lo aos olhos, recordou de repente a forma em que a tinha beijado. No podia acreditar que aquele homem fosse converter-se em seu marido.
-No, ser mais fcil que eu mude para sua casa -conveio ela, contente porque Brad lhe tinha dado a opo de escolher.
-Acredito que a encontrar muito cmoda.
-Com certeza que sim.
-Ento ficamos de acordo nisso?
Peggy assentiu.
-Bem -sorriu Brad-. Agora... vamos com o assunto das datas. Reservei de maneira provisria dois bilhetes para Las Vegas para o sbado.
Peggy deixou a taa de vinho sobre a mesa e o olhou fixamente.
-Para que?
-Para que ns dois nos casemos, naturalmente -explicou rindo.
-No te parece um pouco rpido? -murmurou.
-O tempo  ouro. E as eleies esto em cima.
-Mas Las Vegas...?
-Dadas as circunstncias, eu acreditava que os dois nos ausentaramos discretamente para organizar uma cerimnia em privado -disse Brad com tom suave-. Acredito que seria o mais prudente.
Peggy franziu o cenho, recordando a expedio de compras a que pouco antes a tinha arrastado Rosie, e a animado bate-papo de sua amiga a respeito de que o casamento se celebraria na cidade... Toda aquela conversa tinha sido um absurdo, tendo em conta as presente circunstncias, mas apesar de tudo ainda seguia gostando daquela idia...
-Podemos nos casar em uma capela do Strip, passar alguns dias ali, admirando a paisagem... para ir nos  conhecendo melhor.
-Acredito que j nos conhecemos o suficiente -reps Peggy com tom suave.
-No da maneira que eu me refiro.
Peggy sentiu por um momento que lhe detinha o corao, ao dar-se conta de que ele estava falando de fazer amor.
-Refiro-me  maneira em que um casal pode chegar a conhecer-se em sua lua-de-mel -acrescentou ele.
-Sim, muito bem, Brad -tentou no ruborizar-se-. Realmente no quero falar disso.
-Por que no? -inquiriu com um tom absolutamente tranqilo.
-Teria pensado que resultava evidente, inclusive para o mais insensvel dos homens.
Peggy percebeu que ele tinha terminado de jantar, assim se levantou para comear a recolher a mesa em um esforo desesperado por afastar-se e recuperar a compostura.
-Vou levar isto  cozinha -balbuciou sem olh-lo antes de abandonar a sala mas, para seu desgosto, descobriu que ele tambm havia se levantado para segui-la-. Tenho morangos com creme -informou-lhe com tom ligeiro enquanto comeava a encher a lava-loua-. Ou prefere tomar somente caf? -estava fazendo um esforo supremo para aparentar normalidade, como se todas suas ansiedades se dispararam de repente, com indesejvel velocidade, pelo caminho que conduzia ao leito de sua lua-de-mel.
Mas Brad a fez voltar-se e a obrigou delicadamente a olh-lo.
-O que acontece? -inquiriu Peggy fingindo ignorar a tenso que pulsava entre eles, a aguda conscincia sexual que Brad lhe tinha despertado lhe mencionando simplesmente o assunto da lua-de-mel.
-Tens medo de me entregar seu corpo? -perguntou-lhe ele com tom suave.
-No tenho medo a nada -respondeu, perdendo-se nas profundidades de seus olhos escuros. Aquilo foi um erro. Tinha a sensao de que Brad estava olhando sua alma, olhando-a daquela maneira. Sempre lhe tinha acontecido isso quando o olhava aos olhos.
-Eu te cuidarei, Peggy -murmurou com voz rouca.
Brad inclinou a cabea e a beijou. Lhe devolveu o beijo, um tanto vacilante ao princpio, mas depois com nsia, arrastada por uma espiral de sensualidade. Apoiou-se nele, e seus seios fizeram contato com seu peito. Atravs do fino material de sua camisa podia sentir o calor de seu corpo, excitando a de maneira incontrolvel.
Brad lhe acariciou o rosto com ternura.
-Quero me deitar contigo e, deixando de lado o trato que temos, desejo que ambos desfrutemos a fundo dessa deliciosa experincia -murmurou enquanto semeava um caminho de beijos por sua bochecha at chegar a sensvel pele de seu pescoo.
Peggy se apartou de repente. A meno de seu trato tinha esfriado a deliciosa onda de calor que a tinha assaltado. Por um instante tinha reagido muito facilmente ante Brad, tinha baixado a guarda. Resultava verdadeiramente alarmante a maneira que tinha de perder o controle ante ele. Brad era seu inimigo, o homem que tinha tratado abominavelmente a seu pai. No devia perder de vista esse fato. Devia comportar-se com prudncia para salvar seu prprio orgulho, sua dignidade.
-Farei todo o possvel, mas no acredito que chegue a ser to boa atriz reps Peggy com voz ligeiramente tremula.
-Pois eu acredito que se arrumar muito bem.
Seu tom tranqilo no fez mais que irrit-la.
-Me alegro de que tenha tanta f em mim -replicou resolutamente, apartando-se dele-. Eu gostaria de poder dizer o mesmo de ti.
-No se preocupe, Peggy. Acredito que sou o suficientemente homem para te satisfazer -comentou com um sorriso irnico-. Necessitaremos alguma estimulao ertica prvia, uma antecipao do que vir a seguir?
A jovem se apressou em apartar-se dele, indignada.
-Me acredite, no poderia me preocupar menos esse tipo de coisas -assegurou-lhe. Mas por debaixo de sua confuso ardia uma paixo e um nseio que a confundiam. E que a desgostavam muito mais que seus comentrios.
-Acaso insinuei eu que se preocupasse? -inquiriu zombador.
-O nico que me preocupa  se poderei confiar em que cumpra sua parte do trato. E isso no tem nada que ver com... as questes de quarto, isso eu lhe asseguro.
-Ento com o que tem que ver?
Peggy estava farta daquela conversa. Estava furiosa com Brad porque lhe tinha recordado que esperava que dormisse com ele como parte de seu acordo. Como algum podia falar de algo to ntimo como fazer  amor em um tom to frio e impessoal?
-Preocupa-me mais o que possa acontecer no final do prazo de nosso trato. Cumprir sua palavra e me devolver meus vinhedos com todas as dvidas saldadas, depois de ter realizado os investimentos necessrios?
-s uma mulher cheia de surpresas, Peggy Jackson -olhou-a franzindo o cenho-. Para algum que diz ser uma romntica, tem um ponto de vista muito materialista das coisas.
-No sou tola, Brad -reps com frieza.
-Nem por um momento me ocorreu pensar o contrrio -assegurou-lhe.
-Ento no pode me culpar por perguntar se posso confiar ou no em ti, sobretudo depois da forma em que tratou a meu pai.
-Acreditei que tnhamos concordado em deixar de lado esse tema e nos esquecer dele -a voz de Brad adquiriu um tom sombrio.
-Eu no concordei nada disso contigo -apressou-se a esclarecer Peggy-. J sei que voc adoraria que me esquecesse da maneira em que afundou a meu pai e...
-Eu no afundei Matt.
-Exigiu-lhe a restituio do emprstimo no pior momento possvel. Isso foi o mesmo que afund-lo.
- No deixar esse tema em paz de uma vez? -inquiriu, amaldioando entre dentes.
-Eu no vou esquecer-lo. No posso -obrigou-se a lhe sustentar o olhar-. Dadas as circunstncias, acredito que deveramos assinar um contrato pr-nupcial -acrescentou quase sem pensar, e percebeu que Brad a olhava com especial dureza-. Sentiria-me melhor se consignssemos por escrito nosso trato.
-Porque no confia em mim -pronunciou ele.
-E me culpa por isso, depois do que fez a meu pai?
-Para sua informao, j tinha decidido elaborar esse contrato. Meu advogado est redigindo-o.
-Oh! -Peggy no sabia o que pensar. Ela mesma lhe tinha sugerido a idia, como uma forma de atac-lo e ao mesmo tempo de lhe deixar saber que no estava disposta a deixar-se pisotear. Mas o fato era que Brad j tinha pensado nisso com sua caracterstica frieza.
-E se voltar a me dizer uma s isso vez de depois do que fez a meu pai, temo que poderia dizer algo do que me arrependeria depois.
-Algo como o que? -espetou-lhe ela-. Pediria-me desculpas? Que outra coisa poderia me dizer?
-No tenho nada do que me desculpar -a voz de Brad tinha um tom sombrio-.  a ltima vez que lhe digo isso. No quero que volte a me lanar essa acusao.
-Estou segura de que voc no...
-Falo a srio, Peggy -havia algo realmente ameaador em seu tom de voz, como se estivesse a ponto de explodir.
-Sinto muito, Brad, mas no posso te prometer isso. O fato  que di muito para que possa evit-lo.
-No, Peggy, o fato  que seu pai foi dono de seu prprio destino. E a razo pela qual lhe pedi que me restitura o dinheiro...  porque jogava constantemente. Eu me esforava para que recuperasse a prudncia, para que tomasse conscincia de suas responsabilidades. E a isso no pode chamar de afund-lo, ou contribuir a sua runa, como voc sustenta.
-De que diabos ests falando? -exigiu saber Peggy, olhando-o fixamente-. Meu pai jamais jogava.
-Sim jogava, e muito.
-Est mentindo! -um gelado terror se apoderou dela em questo de segundos. Aquilo no podia ser certo-. Est inventando tudo isto, Brad, para te colocar em uma melhor posio!  uma jogada realmente diablica de sua parte!
-Peggy, no estou inventando isso -ao ver quo alterada estava, Brad adotou um tom muito suave e se aproximou dela-. No era minha inteno lhe dizer isso. No queria estragar a lembrana que tinha de seu pai, e ele mesmo me pediu que no te dissesse nada. Temia que isso pudesse acabar com o respeito que lhe tinha. Mas para te ser sincero, Peggy, voc me deixou muito poucas opes. Precisava sab-lo. No podamos seguir adiante carregando todas essas recriminaes. Se quisermos que o nosso casamento funcione, temos que aprender a confiar um no outro.
-No acredito em ti -tremia-lhe a voz-. Como pudeste inventar algo to retorcido? Odeio-te, Brad...
-Alto a, Peggy. Sabe muito bem que jamais te mentiria em uma coisa assim.  muito importante para ti... para ns -sua voz era firme, e contrastava com a delicadeza com que lhe tinha levantado o queixo-. Sinto muito. Teria dado qualquer coisa para no precisar te dizer isso mas, sinceramente, no podamos seguir assim.
Peggy o olhava fixamente, emocionada. A deciso de seu tom a tinha convencido. De repente tomou conscincia de que ele lhe estava dizendo a verdade. Tragou saliva, tentando conter as lgrimas.
-No pense to mal dele, Peggy. Sim, seu pai tinha problemas. Mas isso no significa que no te quisesse. 
-Como pude no me dar conta disso? -sussurrou Peggy com voz rasgada-. Comeo a suspeitar que nunca cheguei a conhecer totalmente a meu prprio pai.
As lgrimas comearam a escorregar por seu rosto e Brad a estreitou contra seu peito.
-Tudo isso pertence ao passado, Peggy -acariciou-lhe o cabelo com ternura.
Apoiou a cabea em seu ombro, relaxada. De repente todas as peas pareciam encaixar em seu lugar. As razes que se escondiam atrs das aes de Brad comeavam a cobrar sentido. J no precisava fingir que o odiava. Fechou os olhos e suspirou profundamente, permitindo-se recordar todas as coisas maravilhosas sobre Brad Monroe que com tanto empenho tinha tentado esquecer.
-Sinto muito -disse com voz rouca-. Sinto a forma em que compliquei tudo e...
-Esquece-o. Quem me dera que no tivesse tido que te dizer sobre Matt -suspirou-. Mas no tive mais remdio que faz-lo. Agora temos que deixar para trs o passado e olhar para o futuro. Estou convencido de que nosso acordo de um ano poder funcionar. Depois de tudo, beneficiar aos dois.
Peggy no disse nada. Separou-se dele e o olhou aos olhos. Amava-o, e se dava perfeita conta de que no queria comprometer-se em um casamento de um ano de durao. Queria casar-se com Brad para sempre.
-Apresentarei-te o contrato logo que meu advogado tenha terminado de redigi-lo, para que possa assin-lo.
-Sim -respondeu Peggy 
Que outra coisa podia dizer? Brad queria um acordo de negcios e se suspeitasse que ela aspirava a algo mais que isso, existia o perigo de que mudasse de idia e anulasse seu projeto de casamento.




Captulo 5



Nunca em toda sua vida Peggy havia se sentido to nervosa como quando se dirigia a Las Vegas de avio. s cinco e meia da tarde daquele mesmo dia ia casar-se com Brad, e no tinha a certeza de estar fazendo o mais adequado.
Em toda a noite no tinha podido dormir, dando voltas sem cessar na cama, pensando em seu acordo, perguntando-se como poderia representar o papel de senhora Brad Monroe durante os seguintes doze meses. E em seguida dizendo-se que, para ser justa com Brad, no deveria seguir adiante com tudo aquilo, porque sabia muito bem que no poderia manter-se to fria e serena como teria gostado quando se consumasse sua separao.
Peggy contemplava pela janela do avio as terras avermelhadas do deserto de Nevada enquanto se dizia que tinha que ser razovel. A vida real nunca encaixaria com seus infantis sonhos romnticos. Amava a Brad,  margem de que se casasse com ele para salvar seu lar. Brad no a amava, mas ao menos no era o homem desumano e implacvel que tinha acreditado. No tinha sido o inimigo de seu pai. Tragou saliva e tentou no pensar muito em seu pai. Sabia que com isso s conseguiria entristecer-se mais.
-No demoraremos para chegar -murmurou Brad-. E ento nos converteremos em marido e mulher.
Aquelas palavras e sua proximidade produziram a Peggy um tremor de apreenso.
-Tudo assinado e selado -disse ela com tom suave-. E respaldado por um contrato.
-Seu advogado te assegurou que o contrato estava em ordem? -perguntou-lhe Brad, franzindo o cenho.
-Sim, claro -Peggy se obrigou a adotar um tom ligeiro. Na realidade no tinha revisado o contrato com seu assessor jurdico. De fato quase nem o tinha lido, antes de guard-lo no fundo de uma gaveta. Mas no ia dizer isso a Brad-. Faz uns dias Carolyn se casou com Robert Hicks -comentou-lhe de repente, seguindo um impulso-. A fotografia do casamento apareceu nos jornais.
-Sim, eu vi.
Desde que viu aquela fotografia, Peggy se tinha estado fazendo cada vez mais pergunta sobre os sentimentos que Brad albergaria por Carolyn. E se tinha ficado assombrada ante a espetacular beleza daquela mulher.
-O que  que pensou ao v-la? -perguntou-lhe ela com tom suave.
-Bom -arqueou uma sobrancelha- pensei que parecia muito feliz. Desejo-lhes o melhor. Que outra coisa posso pensar de algum que aparece em uma fotografia de casamento?
-Mas no era uma fotografia de casamento como qualquer outra -comentou Peggy com firmeza-. Era a de sua ex-namorada.... Eu me entristeceria se o homem ao qual amasse se casasse com outra mulher...
-Em quem est pensando? -perguntou-lhe Brad com tom seco-. Em seu amigo estudante?
-No estava pensando em ningum em concreto.
-Duvido muito -acrescentou ele, sarcstico-. Bom, no estou preocupado pela Carolyn. Ela diz que j tem o que quer.
-Quando te disse isso? -perguntou-lhe Peggy com curiosidade.
-Vi-a faz uns dias.
-Antes do casamento? -inquiriu Peggy, com o corao acelerado.
-Sim, o dia anterior ao casamento, se realmente tiver interesse em sab-lo -Brad sacudiu a cabea, impaciente-. s muito curiosa.
-S era um tema de conversa. No pode me importar menos que a veja ou no -reps Peggy com tom terminante, mas depois vacilou. Disse-se que deveria mudar de tema, mas seguia fervendo de curiosidade por dentro e tinha uma enorme vontade de lhe perguntar: que mais coisas te disse?.
-Carolyn nos felicitou por nosso casamento -explicou Brad, lacnico, e olhou seu relgio-. Logo aterrissaremos.
-Disse-lhe que entre ns no havia nada mais que um acordo de negcios? -Peggy no podia abandonar aquele tema de conversa. Nunca em toda sua vida tinha sentido cimes, at aquele instante. Estavam-na devorando por dentro.
-No, Peggy, no lhe disse isso. Isso  um assunto privado, estritamente nosso.
Ao fim aterrissaram brandamente na pista. 
-Pronta? -perguntou-lhe Brad.
No!, gritou a Peggy uma voz interior, mas se limitou a assentir com a cabea.
Quando saram do aeroporto lhes aoitou um onda de calor, como se tivessem entrado em um forno. Subiram a uma limusine que lhes levou diretamente ao hotel.
-Tem algumas horas para te preparar -disse Brad com tom indiferente-. Eu irei ao bar a tomar uma taa, e assim poder desfrutar de um pouco de intimidade.
Peggy se encolheu de ombros em um esforo por comportar-se como se tudo aquilo no lhe importasse. 
-No demorarei muito... Usarei um traje simples, nada especial.
De fato, havia-lhe custado muitssimo escolher o que usaria. Os preciosos vestidos brancos que tinha estado olhando com Rosie tinham ficado descartados, j que no pareciam encaixar absolutamente com a realidade de seu casamento. Ao final tinha optado pelo traje, era elegante mas discreto, sem nenhum toque sentimental.
-Eu acredito que deveria pr algo especial -Brad a olhou com o cenho franzido.
-Algo como o que usava Carolyn na foto? -perguntou-lhe Peggy, recordando doda seu precioso vestido de noiva-. No acredito que isso seja necessrio, Brad. No vamos publicar nossa fotografia nos jornais locais.
-Por que no? As pessoas poderiam estarem interessadas. Depois de tudo, apresento-me como candidato a prefeito. Poderia ser uma boa publicidade.
-Uma jogada muito inteligente -comentou Peggy, ressentida.
Brad se inclinou para frente para dizer algo ao condutor. Durante um bom momento o trajeto transcorreu em meio de um denso silncio, at que a limusine se deteve.
-J chegamos? -Peggy espiou pela janela. Tinha estado to ensimesmada em seus pensamentos, que no se deu conta de onde estavam.
-Venha -Brad a puxou pela mo e voltaram a sair ao calor do dia-. Vamos fazer algumas compra.
-Brad, no quero comprar nada -desolada, voltou-se para olhar como se afastava a limusine-. Minha bagagem estava no carro...
-No se preocupe. O condutor a deixar no hotel e voltar para nos recolher. Agora... -levou-a para a entrada de um centro comercial-. Vamos conseguir-te esse vestido de noiva -uma vez dentro, entrou em uma luxuosa loja especializada-. Escolhe exatamente o que quiser -instruiu-a com um sorriso-. No s o vestido, tambm os complementos que gostar... e no se esquea de algo sensual para o dormitrio.
Peggy ficou vermelha escutar aquelas palavras, e Brad ainda teve o atrevimento de lhe dar um beijo nos lbios.
-Voltarei dentro de meia hora para pagar a fatura. Ento, espero ver-te carregada de pacotes.
E partiu antes de que ela pudesse protestar.      
Peggy percorreu a loja com a inteno de ignorar as instrues de Brad e no comprar nada. Por um momento pensou na sada que tinha feito com Rosie, e no entusiasmada que sua amiga havia se mostrado enquanto admiravam os vestidos de noiva. Tinha telefonado para ela, mas no tinha conseguido localiz-la nem a noite anterior nem aquela mesma manh. Pensou que possivelmente assim fosse melhor. J tinha bastante com a ansiedade prpria do casamento para alm disso ter que suportar a expresso decepcionada de Rosie.
Uma atendente lhe perguntou se podia ajud-la em algo, e a levou a uma sala especial cheia dos mais maravilhosos vestidos de noiva que tinha visto em sua vida. 
-Somente queria algo simples -murmurou Peggy enquanto acariciava com olhar sonhador um delicioso modelo de renda antigo. Disse-se que no usaria nem um vestido longo nem de estilo romntico. No daria a Brad a oportunidade de compar-la com Carolyn.
A atendente sorriu enquanto lhe mostrava um precioso modelo irlands, de seda cor creme.
-Que bonito -murmurou Peggy-. Poderia provar-lo.- Dito e feito. Uma vez que o ps, Peggy no teve mais remdio a no ser decidir-se por ele.
Brad voltou quando a atendente j o estava empacotando.
-E o resto das coisas? -perguntou, olhando a nica bolsa.
-Nem sequer necessitava disto -reps Peggy, e se turvou muitssimo quando Brad pediu a fatura  vendedora-. Vou comprar-lo eu -murmurou-, mas obrigado de todas formas pela inteno.
-Querida Peggy -ps-se a rir-, vais ter que te acostumar a que eu pague as tuas contas... ao menos enquanto for seu marido.
Saram da loja e passearam pela avenida do centro comercial. Fazia muito calor, e os vaporizadores de gua estavam em funcionamento para reduzir a temperatura ambiente. Peggy pensou no estranha que lhe resultava aquela sensao, como se caminhassem atravs de uma fina nuvem de gua sem empapar-se. Era como desfrutar de um dia chuvoso em pleno deserto.
Detiveram-se no lugar onde a limusine os recolheria, e Peggy elevou o rosto contra as finssimas gotas de gua e fechou os olhos. Aquela neblina mida lhe refrescava a pele com o suave murmrio de uma carcia, e se evaporava instantaneamente ao contato do ar quente, desrtico. Pensou no cimes que antes tinha sentido de Carolyn. Tinha sido uma estupidez. Carolyn se tinha casado com outro homem, e agora ela tinha que pensar em seu prprio futuro.
-Peggy -a voz de Brad a fez abrir os olhos. Estava muito perto dela, observando-a com uma expresso de ternura enquanto admirava cada um de seus traos: o vvido azul de seus olhos, seus espessos e escuros clios, o suave e delicado contorno de seus lbios...-. Me alegro de que aceitasse te casar comigo -murmurou.
A profundidade de seu tom de voz, a ternura com que lhe acariciou a bochecha antes de beij-la levemente nos lbios a deixaram sem flego. Naquele instante Peggy quase pde descobrir o amor nos olhos de Brad, senti-lo em seu beijo. Mas, como a sensao de chuva a seu redor, no mais profundo de seu ser sabia que s se tratava de uma iluso.
De repente a limusine apareceu a seu lado e, muito a contragosto, Peggy teve que apartar-se de Brad.

O hotel era espetacularmente luxuoso. Um osis de palmeiras com cascatas, e por toda parte mquinas e mesas de jogo. Brad e Peggy se dirigiram diretamente a sua habitao, uma enorme sute no ltimo andar do edifcio.
Em uma das mesas de vidro havia um vaso com exticas orqudeas. Um carto estava preso entre elas, e ao lado um estojo alargado, de veludo.
- um pequeno presente de noivado -explicou-lhe Brad, aproximando-se dela, e o abriu.
Dentro havia um maravilhoso colar de prolas e esmeraldas.
- precioso -murmurou Peggy, impressionada.
-Pertencia a minha me. Sei que ela teria querido que o usasse.
-Obrigado -reps entristecida. S Deus sabia o que Elizabeth teria pensado daquele estranho contrato de casamento que tinha assinado com seu filho.
-Bom, deixarei-te em paz para que te arrume tranqilamente -disse-lhe Brad antes de retirar-se.
Depois que ele tivesse partido, ainda Peggy permaneceu durante um bom momento olhando o colar. O nico som que se ouvia na habitao era o dbil rumor que produzia o ar condicionado. Ao outro lado da sute podia ver a grande cama de dossel e o corao comeou a lhe pulsar acelerado. Seria capaz de seguir adiante com tudo aquilo?
J no podia voltar atrs. O contrato j estava assinado. Todas suas posses pessoais se encontravam na residncia de Brad. Alm disso, se no se casasse com ele, perderia tudo. Mas acima de tudo amava a Brad, e um ano vivendo a seu lado sempre seria melhor que nada.
Em um impulso, desprendeu o telefone e perguntou se poderia dispor dos servios de uma esteticista, para que lhe arrumasse o cabelo e a maquiasse. Se queria seguir adiante com aquele casamento, o melhor seria que ficasse nas mos de uma boa profissional.
Acabava de colocar o vestido quando Brad voltou para a habitao. A esteticista j se dispunha a retirar-se, e de seu dormitrio Peggy conseguiu ouvir o murmrio de suas vozes.
Olhou-se pela ltima vez no espelho antes de reunir-se com ele. O vestido era de linhas singelas, mas muito elegante. Adaptava-se perfeitamente a sua esbelta figura, de uma forma muito sensual, destacando suas pernas longas e bem torneadas. A esteticista tinha feito um trabalho fabuloso com seu penteado e sua maquiagem. A cor de seus olhos tinha sido convenientemente ressaltada, sem que parecesse muito escura, e tinha os lbios pintados de um tom pssego, com um pouco de brilho.
Peggy aspirou profundamente e passou  outra habitao. A expresso de admirao que viu nos olhos de Brad quando a olhou, indicou-lhe que havia valido a pena o esforo.
-Ests maravilhosa.
A jovem sorriu com acanhamento. Ela teria gostado de lhe responder: voc tambm, mas no se atreveu a faz-lo. Brad tambm apresentava um aspecto incrvel. Seu terno escuro complementava perfeitamente com seu bronzeado e com a cor de seu cabelo. Estava to devastadoramente atraente que Peggy inclusive chegou a sentir um n de apreenso no estmago... quase no podia acreditar que o homem que tinha diante de si fosse converter-se em seu marido.
-Quer me ajudar a pr o colar? -perguntou-lhe.
Apartou-se o cabelo do pescoo para que Brad lhe fechasse o colar de esmeraldas, e o leve contato de seus dedos em sua pele lhe provocou um estremecimento de ansiedade.
-Nervosa? -perguntou-lhe ele quando Peggy se voltou para olh-lo.
-Sim, estou nervosa -admitiu com tom suave.
-Te tranqilize. Tudo sair bem -e a pegou pela mo.
Quando a tocava, quando a olhava daquela forma, Peggy no tinha nenhuma dvida de que tinha razo.

A cerimnia somente durou dez minutos. Tinham dois desconhecidos por testemunhas, mas de algum jeito isso no parecia importar absolutamente. Durante todo o tempo Peggy teve a estranha sensao de que nada do que estava acontecendo era real. Depois de pousar para a sesso de fotos, voltaram diretamente para hotel.
No foi at que chegaram ao luxuoso vestbulo quando Peggy tomou conscincia da enormidade do que tinham feito.
Nunca esqueceria aquela sensao. O som das mquinas de jogo, o rumor das vozes excitadas enquanto apostavam suas fortunas...
-Reservei uma mesa no Osis Room. Quer que vamos diretamente? -perguntou-lhe Brad.
Peggy assentiu, sobre tudo para atrasar o momento de entrar com Brad na sute. Certamente, tinha perdido completamente o apetite.
Atravessaram a sala de jogos enquanto se dirigiam ao restaurante. As pessoas alimentavam as mquinas de moedas ou se amontoavam em torno das mesas com a esperana de ganhar milhes, de comprar novos carros, novas casas. Havia uma atmosfera de excitao, de ansiedade... Por um momento Peggy pensou em seu pai e essa lembrana a encheu de uma imensa tristeza. Brad a olhou, franzindo o cenho.
-Encontra-te bem?
-Sim, claro -obrigou-se a sorrir.
Brad tomou assento frente a ela em uma sala privada do restaurante. Pediu champanha, mas Peggy quase no chegou a prov-lo.
-Por voc, senhora Monroe -brindou, levantando sua taa.
-Por ns -sussurrou ela, quase no molhando os lbios.
Durante o jantar conversaram amigavelmente, sem concentrar-se em nenhum tema em particular.
-Subimos agora? -perguntou-lhe Brad quando terminaram.
-Se quiser... -respondeu Peggy com o corao acelerado.
Enquanto o elevador os levava silenciosamente at o ltimo andar, Peggy quase no podia dominar seus nervos. Nunca em toda sua vida se havia sentido to vulnervel.
Brad introduziu seu carto de segurana na porta, e entraram na sute. Tomando-a pela mo, levou-a at o dormitrio.
-Eu... nunca dormi com ningum antes -sussurrou Peggy enquanto ele comeava a lhe desabotoar os botes do vestido.
Por um momento Brad ficou paralisado.
-Nem sequer com aquele tipo com o qual saa na universidade?
Peggy negou com a cabea.
-s to jovem... -pronunciou enquanto lhe acariciava meigamente uma bochecha.
-Tenho vinte e dois anos, Brad. No sou to jovem!
-No, mas suponho que a diferena de idade me segue preocupando. Sentiria-me melhor com respeito a isso se fosse mais... mundana, mais experimentada.
Indubitavelmente, pensou furiosa Peggy, Brad gostaria que ela fosse to sofisticada como Carolyn.
-Te ouvindo falar assim qualquer um diria que sou uma menina ingnua. Tive muitos namorados -apressou-se a lhe explicar-. O que passa  que no cheguei a me deitar com nenhum. Isso no significa que no seja uma mulher experiente. Posso te perturbar muito, Brad Monroe.
-Provavelmente tens razo -sorriu-. E no estou me queixando de que sejas virgem... muito pelo contrrio, me acredite -acrescentou com tom baixo e sedutor enquanto lhe deslizava brandamente o vestido at deix-lo cair ao cho.
A jovem ficou ante ele vestida unicamente com uma camiseta interior de seda branca e as calcinhas de renda. Aproximou-se de Brad procurando o refgio de seu corpo, tmida mas desejando suas carcias.
-E me sinto muito mais tranqilo sabendo que no tem a ningum com quem me comparar -sorriu zombador.
Peggy no pde menos que rir e ele a beijou de novo. Podia sentir suas mos deslizando-se por sua pele nua enquanto a despojava da camiseta de seda. Em seguida Brad a levantou nos braos para lev-la  cama de dossel.
Deitada de costas sobre os lenis de cetim, observou como ele se desabotoava a camisa e comeava a despir-se. Tinha um corpo fabuloso. Forte, gil, de largos ombros que contrastavam com seus estreitos quadris.
Brad se reuniu com ela na cama e a abraou. Peggy se estremeceu de desejo quando lhe acariciou os seios, antes de inclinar a cabea para beij-la com ternura.
Ela correspondeu a seus beijos com todo seu corao, ansiando lhe expressar o muito que o amava. Foi ento quando, de repente, Brad se apartou bruscamente.
-Antes de irmos mais longe, Peggy... tomaste precaues para evitar uma gravidez? -aquela pergunta a deixou paralisada, congelou-lhe nos lbios as palavras de amor que tanto desejava pronunciar-. No queremos cometer nenhum erro, verdade? Temos que ser responsveis, sobretudo tendo em conta a durao de nosso contrato -disse Brad, olhando-a intensamente-. Se voc no tomou nada, eu...
-No, est bem -sacudiu a cabea-. Fui ver meu mdico antes de partir.
Brad a beijou de novo.
Peggy estava indignada de que ele tivesse escolhido um momento to ntimo e delicado para lhe recordar que s estariam juntos durante um ano. Mas,  obvio, Brad era acima de tudo um homem de negcios. Embora pudesse desej-la, no queria seu amor. Queria um simples contrato sem nenhuma complicao emocional.
-Peggy? -levantou a cabea para olh-la ao perceber seu distanciamento-. O que te acontece?
-Nada -sacudiu a cabea. Mas claro que lhe acontecia algo: sempre tinha considerado o ato amoroso como algo especial, muito especial. Nunca tinha cedido  tentao do desejo com os meninos com quem antes tinha sado, porque sempre tinha esperado um amor real, verdadeiro. E agora ali estava, entregando-se a um homem que no a amava, que nem sequer fingia que a queria.

-Suponho que uma coisa  prever em teoria entregar seu corpo a algum como parte de um trato, e outra muito diferente lev-lo a cabo na realidade -admitiu, sincera. Depois de tudo, Brad se tinha mostrado muito brusco quando lhe falou de utilizar mtodos anticoncepcionais. Por que no haveria ela de lhe falar com a mesma clareza?
-Eu pensava que estvamos de acordo... -murmurou Brad, apartando-se de novo.
-Sim, sim. Inclusive o consignamos em letra pequena no contrato -interrompeu-o ela-. Desgraadamente, estou bastante emocionada, excessivamente sensvel. Sei que provavelmente isto no est permitido. No pusemos algo assim no contrato? -inquiriu com tom ligeiro-. No posso recordar agora se o deixei especificado ou no, mas preciso poder me emocionar de vez em quando.
-Eu lhe especificarei isso na letra grande do contrato quando quiser -murmurou Brad no mesmo tom, e se inclinou para beij-la.
-Isto no vai funcionar, Brad -disse Peggy com voz tremente, apartando-se de novo dele.
-Claro que sim -seu tom era suave e levemente zombador-. Posso te assegurar que, pelo que a mim diz  respeito, funciono perfeitamente e me encontro em um estado muito saudvel.
-J sabe o que quero dizer.
-Simplesmente so os nervos da primeira noite -comentou, olhando-a com expresso amvel e pormenorizada-. Dizem que aos atores acontece todo o tempo lhe acariciou o rosto com ternura. Inclusive dizem que, graas a esses nervos, conseguem melhorar suas atuaes.
Peggy sabia que se estava burlando dela, fazendo-a sorrir para que se relaxasse, e em circunstncias normais provavelmente essa tcnica teria tido xito. Mas no conseguia tranqilizar-se, e aquela situao era muito especial. Procurou nervosa seu robe, que se encontrava sobre a cadeira ao lado da cama, e se envolveu nele.
-Acredito que vamos ter que suspender a atuao desta noite -estremeceu-se, agarrando convulsivamente o robe -. Sinto muito, sei que aceitei passar por... tudo -murmurou-. Possivelmente no seja to mundana e decidida como eu gosto de pensar que sou.
Levantou o olhar para Brad, com os olhos brilhantes pelas lgrimas. Estava aterrada de entregar-se a ele, aterrada de que pudesse adivinhar o muito que o amava e de que uma vez que se convertesse verdadeiramente na senhora Brad Monroe, j nunca queria abandon-lo. Doze meses lhe pareciam um prazo de tempo muito curto.
-No a obrigarei a nada, Peggy -disse-lhe com tom suave. No havia fria nem recriminao alguma em sua voz, talvez, certo tom de arrependimento-. No me olhe assim.
-Assim como?
-Como se fosse o pior tipo de monstro que tivesse conhecido.
-Eu no acredito que voc seja um monstro -reps ela, esboando um trmulo sorriso.
-Bem -aproximou-se dela e a embalou delicadamente em seus braos-. Porque eu te quero, Peggy.
-Sim? -inquiriu, tragando saliva.
-Conhecemo-nos a muito tempo tempo. Diabos, no poderia no te querer. Sobretudo depois da maneira em que minha me estava acostumada falar contigo.
Mas Peggy se disse que Brad no a queria da mesma forma que ela a ele. Ou da forma que queria a Carolyn. Brad a considerava uma amiga, a vizinha de toda a vida, disponvel para seus propsitos de conseguir um par que permanecesse a seu lado durante as eleies.
Aquele acordo convinha aos interesses de Brad. E tambm deveria convir aos seus. Ao menos no ia perder sua casa... S a nica pessoa a amaste de corao, recordou-lhe uma pequena voz interior.
-Sente-se melhor? -perguntou-lhe Brad-. Odeio ver-te triste.
-Porei-me bem -levantou-se da cama, terminando de colocar o robe -. S me d uns minutos.
Peggy contemplou sua imagem no espelho do banheiro. Brilhavam-lhe os olhos, que destacavam contra a palidez de seu rosto, e tinha os lbios ligeiramente inchados. Suspirou e se dedicou a tirar os restos de maquiagem. A gua fria a aliviou muitssimo. Ia ter que esquecer-se do que aconteceria ao final de um ano, e viver simplesmente o dia a dia.
Quando saiu do banheiro j havia se recuperado, e se sentia um pouco envergonhada de sua crise anterior. Brad se tinha mostrado to amvel, to maravilhoso... e ela o tinha estragado tudo.
Brad j havia se deitado. Os lenis lhe cobriam at a cintura, de maneira que Peggy podia admirar seu peito musculoso, coberto por um fino plo, a dbil luz do abajur da mesinha.
Brad contemplou admirado sua maravilhosa e sensual cabeleira, a doura que brilhava em seus olhos azuis, e deslizou em seguida o olhar pelas formas de seu corpo mal dissimuladas sob a fina seda do robe. Peggy descobriu um brilho de desejo em seus olhos e sentiu que seu prprio corpo respondia a aquele olhar, tenso de excitao.
Por um instante, vacilou quando se encontrava ao lado da cama.
-Possivelmente deveria dormir no sof -sorriu Brad-. S por esta noite, se no te importar. No acredito que possa me dominar o suficiente.
-No, fizemos um trato, e eu cumprirei com minha parte.
Peggy se soltou o cinto do robe, que depois foi parar no cho.
Brad a olhou intensamente, estudando-a em profundidade. Estendeu as mos e as apoiou em sua estreita cintura, abrangendo-a com facilidade. Depois lhe acariciou a suave curva dos quadris, e a aproximou para si at que ficou deitada sobre ele. Somente o fino tecido do lenol separava seus corpos nus.
Peggy podia sentir os duros msculos de seu corpo,  e esse contato despertou nela uma sbita e irrefrevel necessidade. Olhou-o fixamente e  Brad levantou uma mo e enterrou os dedos em seu cabelo, acariciando-o com deleite.
Estavam to perto, to juntos... Peggy sentia crescer em seu interior um desejo cada vez mais profundo.
-Me diga que me deseja -murmurou ele com voz rouca-. Diga-me isso.
Peggy no disse nada por um instante. O corao lhe pulsava to rpido que tinha a sensao de que ia escapar do peito de um momento a outro.
Brad rodou para o lado e apartou os lenis. De repente, Peggy sentiu o contato de sua pele nua contra a sua. Era uma sensao to maravilhosamente sensual que no pde menos que emitir um afogado grito de assombro.
-No te farei verdadeiramente minha at que voc me pea isso -inclinou a cabea e lhe beijou um seio, deslizando a lngua por seu delicado mamilo, despertando em seu interior uma dolorosa necessidade.
Depois Peggy sentiu a carcia de seus dedos na suave pele de seu estmago e de seu ventre, descendendo at o quente, ardente corao de sua feminilidade.
-Desejo-te, Brad -murmurou sem flego.
Ele no parecia hav-la ouvido porque continuou acariciando-a de uma maneira atormentadoramente terna e sedutora, jogando o perigoso jogo de excit-la at um ponto insuportvel para depois deter-se, lhe beijando rm seguida os seios, o pescoo, os olhos, os lbios...
Peggy comeou a esquecer-se de tudo exceto do gozo de achar-se entre seus braos. Dava-se conta de que Brad somente se estava concentrando em seu prazer, sem prestar ateno ao seu prprio.
-Por favor, Brad, quero que entre em mim -sussurrou-lhe ao ouvido enquanto lhe acariciava os largos e poderosos msculos das costas.
Ao princpio Brad entrou brandamente nela. Depois, ao ver que no se queixava de dor, comeou a mover-se ritmicamente, cada vez mais rpido, mais forte.
Gritaram juntos em um frenesi de prazer. Quando finalmente Brad se relaxou contra ela, Peggy se sentia esgotada e consumida pelo fogo daquela paixo, mas muito, muito satisfeita.
Apoiou a cabea sobre seu peito e fechou os olhos. Estava muito cansada. A intensa paixo, a tenso daquele dia havia se acumulado at o ponto de que lhe estava resultando muito difcil manter-se acordada. Ansiava que Brad lhe sussurrasse ao menos uma s palavra de amor, embora no a sentisse de verdade.
Tentou no dormir em caso de que lhe dissesse algo, mas aquela era uma batalha perdida e lhe comearam a fechar os olhos enquanto seu corpo se afundava no sono.

Despertou na metade da noite com um sobressalto. A habitao estava s escuras, Brad a abraava firmemente e ela seguia descansando no refgio protetor de seus braos. Podia ouvir o murmrio de sua respirao profunda, relaxada.
Recordou com quanta nsia tinha esperado que Brad lhe dissesse que a amava, e por um momento se sentiu como uma estpida. Pelo que se referia a Brad, acabavam de consumar seu trato de negcios. Quanto a ela, acabava de entregar-se de corpo e alma com a esperana de que se apaixonasse por ela.
Tinha doze meses pela frente e tinha comeado a conta atrs.




Captulo 6

Embora j fosse uma hora avanada da tarde seguia fazendo muito calor. Uma sufocante neblina se estendia sobre os vinhedos, brilhando no horizonte.
Vestida com umas calas curtas e uma camiseta de manga curta, Peggy estava percorrendo as filas de mesas de cavalete que se alinhavam na parte traseira do jardim, contando o nmero de copos.
Nessa noite aconteceria uma grande festa beneficiente. Quase duzentas pessoas tinham sido convidadas e, apesar de que Brad tinha contratado a vrios trabalhadores alm de utilizar a seu prprio pessoal, Peggy tinha estado trabalhando muito duro durante todo o dia, assegurando-se de revisar at o mnimo detalhe.
Situada perto da piscina, a banda tinha comeado a afinar seus instrumentos, e os acordes de uma melodia inacabada flutuavam no denso ar de vero. 
-Peggy.
A voz de Brad a fez voltar-se. Como sempre, em seguida lhe acelerou o corao ao v-lo. Alto e bonito, vestido com uns jeans e uma camiseta azul, dirigia-se a bom passo para ela. 
-Ainda trabalhando?
-S estava revisando alguns detalhes de ltima hora -respondeu Peggy.
-Disse-me o mesmo s nove e meia desta manh.
-Esta noite vir muita gente, Brad... tenho que me assegurar de que tudo saia  perfeio -voltou-se para revisar as mesas de toalhas brancas, decoradas com flores. Havia globos coloridos atados a todas as cadeiras-. Tudo tem um aspecto fantstico, no te parece?
-Certamente, mas no to fantstico como voc -se aproximou por trs e a abraou pela cintura, beijando-a delicadamente no pescoo.
Peggy permitiu apoiar-se contra seu peito por um momento, desfrutando daquela clida e sensual sensao. Uma suave brisa agitou as folhas das rvores, a suas costas, pulverizando aromas de lavanda e a grama recm cortada. Resultava deliciosamente refrescante e Peggy levantou o rosto para sabore-la antes de que voltasse a apertar o calor.
-A propsito, onde estiveste?
-Na cidade, resolvendo um assunto.
-Suponho que no ter sido nada oficial, tendo em conta como est vestido -sorriu.
s vezes lhe resultava difcil acreditar que seu marido fosse prefeito. Tinha sido eleito um ms e meio depois de que se casassem, mas se sentia to cmodo com seu jeans, trabalhando nos campos, que s vezes lhe resultava estranho v-lo vestido de terno em seu escritrio da cidade.
-No, por uma vez no se tratava de um assunto oficial -reps Brad, sorrindo.
Relutante, Peggy se separou dele para recolher uns guardanapos que tinham cado de uma das mesas.
-Por que no deixa tudo isso agora? O servio se encarregar disso -murmurou Brad.
-Farei-o. S quero me assegurar de que ho posto suficiente vinho para esfriar.
-Peggy -Brad se ps a rir-, vivemos nos vinhedos... o vinho nunca significar nenhum problema.
-Ser um problema se no o servirmos  temperatura adequada -voltou-se para captar um brilho zombador em seus olhos e sorriu-. irei dar uma olhada s reservas s para ficar tranqila.
-s uma perfeccionista.
-No -sacudiu a cabea-, o que acontece  que estou nervosa. Nunca tnhamos organizado nada parecido em casa. Quero que tudo saia bem.
-Tudo sair bem -sorriu Brad, lhe rodeando os ombros com um brao-. Mas, s para que se sinta melhor, acompanharei-te s adegas e revisaremos juntos os estoque de vinho.
Caminharam de mo dadas ao lado da piscina e saram pela porta que se comunicava com os vinhedos.
-As vinhas tem bom aspecto -comentou Peggy, feliz-. Ontem pela tarde fui dar uma olhada na minha propriedade e quase no pude acreditar na mudana que tinham operado.
-Sim, Ron me comentou que tinha estado ali.
-Eu gosto de me preocupar com essas coisas -explicou Peggy, encolhendo-se de ombros-. Sei que Ron est a cargo dos vinhedos de sua parte, mas no acredito que lhe importe que os visite de quando em quando, para me manter por dentro.
-Certamente que no.
Por um momento ela acreditou detectar em sua voz um tom estranho, e franziu o cenho.
-No te importa, verdade?
-Era isso o que acordamos, no? -olhou-a-. Sei o importante que  essa terra para ti, Peggy... est contente com as melhoras que se tem feito?
-Seria impossvel que no o estivesse -respondeu com um suspiro. No gostava que lhe recordasse seu acordo. Sempre que o fazia, um estremecimento de apreenso se apoderava dela, turvando a felicidade que tinha vindo desfrutando desde seu casamento-. Tudo tem um aspecto to bom agora...
-Bastante diferente de que tinha faz oito meses -comentou Brad.
Oito meses, refletiu Peggy. Resultava-lhe difcil acreditar que tivessem transcorrido j oito meses desde que tinham se casaram. Aquele tinha sido o tempo mais feliz de sua vida. A essas alturas no podia imaginar-se a si mesmo vivendo sem Brad. Teve que pr freio a esses pensamentos porque de repente o final do prazo de seu casamento lhe parecia j muito perto... muito perto.
-Seu pai se teria sentido encantado se tivesse podido ver suas terras agora.
-Sim, com certeza que sim.
-E logo tudo voltar a ser teu -murmurou Brad.
Aquela era a primeira vez que Brad mencionava o contrato desde seu casamento. At ento ambos tinham procurado evitar o tema, em uma espcie de tcito acordo.
A cada momento Peggy se sentia mais tensa. Queria lhe dizer que no se importava em recuperar suas terras, que o amor que sentia por ele era a nica coisa importante... mas seu orgulho no lhe permitia pronunciar aquelas palavras. Em vez disso comentou com tom suave.
-Quatro meses  muito tempo.
-Isso no  verdade, Peggy.
Chegaram a um edifcio de planta baixa e alargada que se estendia no permetro exterior das terras, e Brad lhe abriu a porta. Fazia frio dentro, e aquela frieza parecia refletir a que Peggy tinha sentido em seu interior ao escutar aquelas palavras. S restavam quatro meses... e depois o que aconteceria? perguntava-se nervosa.
Seus passos ressonavam no cho de pedra enquanto atravessavam a escura sala em que, desde o cho at o teto, alinhavam-se as enormes cubas. Durante um bom momento ningum disse nada, sumidos como estavam em um silncio singularmente tenso.
-Suponho que precisamos falar do que acontecer ao final de nosso ano juntos -disse Brad com tom seco.
-Ainda no, Brad. No quero falar disso at que se aproxime mais esse momento -no desejava absolutamente enfrentar-se  realidade. Dava-se conta de que provavelmente aquilo era um erro, mas no queria projetar sombra alguma sobre o tempo que restava de estar juntos.
-Se isso for o que quer... -disse ele em voz baixa.
-Acredito que dessa forma ser mais fcil.
-Eu estou comeando a pensar que no existe nenhuma forma fcil de enfrentar-se a esse tema -sorriu Brad com tristeza enquanto abria a porta da adega e passavam a outra sala, acondicionada a uma temperatura muito mais baixa.
Peggy se estremeceu violentamente e se esfregou os braos nus, rgida.
-Tens frio? -perguntou-lhe Brad, preocupado-. Por que no me espera l fora? Eu revisarei as reservas.
-Sim, acredito que isso  o que farei, obrigado.
Foi um verdadeiro alvio voltar a sair ao calor do dia. De certo modo, aquele calor a ajudava a esquecer do frio temor que tinha experiementado ao escutar as palavras de Brad.
Era uma covarde, disse-se sombria. Comportou-se como uma menina, fugindo de um assunto que a aterrava. Mas sabia que no poderia seguir evitando-o por muito tempo. Ao final de somente quatro meses seu acordo chegaria a seu fim, ambos j teriam comprido com suas obrigaes. Ento o que? Aquela pergunta seguia torturando-a, e se somava ao doloroso fato de que nenhuma s vez em oito meses, Brad lhe havia dito que a amava. Mostrava-se terno, considerado e inclusive apaixonado com ela, mas jamais tinha pronunciado esse par de palavras que ela tanto ansiava escutar.
Afastou-se do edifcio para os cultivos, deixando vagar o olhar pelas verdes vinhas que contrastavam com a terra avermelhada. Deixaria de pensar no futuro, disse-se com deciso.
Percebeu que algum tinha deixado esquecidas umas tesouras de podar entre os vinhedos, e se aproximou para as recolher.
-Eu no me deteria muito tempo a, se fosse voc -aconselhou-lhe Brad quando saa do edifcio.
-Temos tempo mais que suficiente -disps-se a atar a corda de uma vinha que havia se soltado, inclinando-se sobre a planta.
Quase imediatamente o sistema automtico de irrigao disparou um bom jorro de gua contra a vinha, empapando ao mesmo tempo Peggy.
-Disse-lhe isso -riu Brad.
-Miservel! -exclamou ela enquanto se colocava de um lado, rindo-. Podia me haver recordado que se aproximava a hora da rega.
-E perder o espetculo de minha esposa com uma camiseta molhada? Nem sonhando -respondeu enquanto a abraava.
-Malvado...! -murmurou, mas sua voz j se debilitou pelo desejo que seu contato instantaneamente tinha despertado em seu interior.
-Voc  preciosa -inclinou a cabea e a beijou.
Durante um bom momento s se ouviu o sussurro dos dispersores de gua e o rumor da terra absorvendo ansiosa a umidade. Peggy no pde evitar comparar aquela imagem com a forma em que ela mesma se derretia nos braos de Brad.
Tudo ia sair bem, disse-se com expresso sonhadora, mas isso era o que sempre se dizia quando ele a abraava dessa maneira... Relutante, retrocedeu um passo quando a soltou.
-Acredito que deveramos retornar  casa.
-Sim, tem razo -conveio Brad.
-Que tal est o vinho? -perguntou-lhe ela, tentando recuperar-se.
-Sob controle.
Nesse momento apareceu a seu lado o carro do agente de Brad.
-Sinto interromper, Brad, mas... poderia falar um momento contigo?
-Claro, Ron. Estarei contigo dentro de um minuto.
-Eu irei  casa para terminar de pr tudo em ordem -disse-lhe Peggy com um sorriso-. No demore muito. Recorda que esta noite viro perto de duzentas pessoas para jantar.
-Como que ia esquecer-lo se no fosse por ti! -sorriu Brad e lhe deu um beijo na bochecha.
Peggy caminhou lentamente de retorno para a casa. Seguia fazendo muito calor e fazia muito tempo que no chovia. Se no tivesse sido pela rega automtica, esse ano teriam perdido muitas vinhas. E se no tivesse sido por Brad Monroe, ela teria perdido tudo. Deveria lhe dizer isso mesmo, mas de algum jeito aquelas palavras sempre lhe entupiam na garganta como resultado de seu maldito orgulho.... porque Brad ainda no lhe havia dito que a amava.
Subiu os degraus que levavam a porta dianteira da casa. A branca varanda lhe oferecia sua sombra acolhedora, com seu aroma a madressilva. As venezianas pintadas de verde e o mobilirio de vime lhe davam um aspecto sereno, relaxante. Um gato preto dormitava em uma das cadeiras de balano e Pip, o co lavrador de Brad, se espreguiada debaixo da mesa. O animal levantou o olhar ao ouvir Peggy e sacudiu alegremente o rabo antes de voltar a dormir.
Peggy sorriu. Se Brad tivesse estado com ela, o co teria saltado de alegria a seu redor. Havia frescor  dentro da casa. As luzes das velas tremiam devido ao ar condicionado, e podia ouvir o distante som da msica procedente da cozinha.
Peggy espiou ao interior para ver como ia tudo. Os empregados do catering tinham chegado, e j tinha recebido a carne para o churrasco da noite. Tranqilizou-se, contente de que a senhora O'Brien tivesse tudo sob controle.
Subiu ao andar de cima, ao dormitrio. Era uma habitao enorme, com umas vistas espetaculares dos vinhedos e as longnquas montanhas. A grande cama de casamento estava coberta com uma preciosa colcha de desenho oriental, que combinava com os tapetes persas e os suaves tons pastis das paredes e do mobilirio chins.
Peggy entrou no banheiro disposta a meter-se sob a ducha. Perguntou-se que tipo de problema poderia ter tido Brad. Esperava que no demorasse muito em solucion-lo.
Minutos depois se achava sentada diante de sua mesa de penteadeira dando os ltimos toques a seu cabelo, quando entrou Brad. Imediatamente seu olhar se viu atrado por sua fantstica juba escura, sedosa e brilhante.
-Tudo bem? -perguntou-lhe Peggy deixando de um lado a escova e voltando-se para olh-lo.
-Sim, tudo est bem -respondeu com tom ligeiro, percebendo a leve abertura de seu robe, que deixava ao descoberto suas bronzeadas pernas-. A que hora disse que chegariam os convidados?
-Por volta das sete horas -voltou-se de novo para o espelho-. Esta manh te recolhi o traje azul da tinturaria. Est no armrio.
-Obrigado -em lugar de entrar no banheiro para tomar banho, Brad se sentou na cama, atrs dela.
Observava-a. Estava acostumado a faz-lo quando ela se maquiava. Peggy j tinha se acostumado a levantar o olhar e surpreender Brad olhando-a pelo espelho. Algumas vezes o via sorrir, divertido. Mas outras, como naquele momento, parecia ensimesmado, como ausente.
-Seguro que tudo vai bem?
-Simplesmente me estava perguntando se poderamos dispor de algum tempo... para ns, antes de que cheguem os convidados.
Pelo espelho Peggy viu um brilho de desejo em seus olhos, e o corao comeou a lhe pulsar acelerado.
-Brad, todas essas pessoas esto a ponto de vir... no podemos nos atrasar.
Assim que se afastou da penteadeira, Brad a atraiu para si e a fez sentar-se na cama, a seu lado.
-No, se no formos nos atrasar -sorriu enquanto deslizava um dedo pelo cinto de seu robe-. Desejo-te, Peggy... desejo-te de verdade.
Peggy sentia a mesma necessidade. Brad colocou de um lado uma dobra do robe e acariciou a suavidade de sua pele nua.
-Brad, no deveramos...
Seus lbios interromperam o resto da frase e, de maneira involuntria, Peggy se surpreendeu a si mesma correspondendo a seu beijo.
Sempre era o mesmo. Depois que Brad a tocava, depois que a beijava, sentia-se perdida... arrastada a outro mundo.
-Tem um corpo precioso -sussurrou-lhe ele ao ouvido, com voz sedutora.
Peggy jogou os braos ao pescoo enquanto se deixava deitar sobre a cama. Seu robe estava aberta,  estava nua e tremente sob as delicadas, ternas carcias de seus dedos. Brad deslizava o olhar por todo seu corpo, detendo-se em cada detalhe. Inclinou a cabea para lhe acariciar com os lbios o rosado mamilo de um seio. Aquilo foi suficiente para transtorn-la por completo.
-Ento, o que me diz? -perguntou-lhe, sorrindo-. Dispomos de tempo?
-Possivelmente... -reps com voz trmula.
Brad se despojou da camisa enquanto seguia beijando-a, e teve que apartar um momento dela para tirar os jeans.
Peggy o observava deitada de costas sobre a cama, bebendo com os olhos seu poderoso fsico. Tinha um corpo perfeito. Era um perito em lhe proporcionar-lhe prazer, conhecia todas as tcnicas que mais a excitavam, e se servia delas com assombrosa facilidade. Desejava-o tanto.... Desejava-o, necessitava-o e... amava-o.
Brad a beijou no pescoo e nos ombros, e Peggy teve que morder-se dolorosamente o lbio quando a necessidade de lhe confessar o que sentia por ele resultou muito entristecedora.
Depois Brad lhe beijou os seios, lhe sugando os rosados mamilos at enlouquecer-la de prazer.
-Querida... Peggy -sussurrou seu nome no momento em que entrou nela.
Peggy emitiu um grito de gozo, arqueando-se contra ele, tremendo presa de um delicioso xtase. Brad a beijava nos lbios e lhe devolvia cada beijo, entregando-se grosseiramente a ele, sem poder conter-se. Em seguida, juntos, afundaram-se em um redemoinho de prazer que os privou de todo sentido da realidade.
Durante um bom momento permaneceram abraados. Foi ento quando Peggy chegou a sentir que Brad lhe pertencia, que realmente era dele. Acariciou-lhe meigamente o cabelo e suspirou, apertando-se contra seu corpo poderoso.
-Estiveste maravilhosa -sussurrou ele com voz rouca.
Mas essas no eram as palavras que ela queria escutar. Nunca seriam. Ela tambm podia as pronunciar, certamente, e aquele seria um bom momento. Brad, amo-te; podia escutar aquelas palavras dentro de sua cabea.
-Agora me encontro muito mais relaxado -murmurou Brad com um suspiro-. Mas suponho que deveramos nos pr em movimento. Como voc mesma disse, no queremos nos atrasar para receber a nossos convidados.
-Sim -foi tudo o que pde dizer. Naquele instante pensava que era a mulher mais estpida do mundo, por amar a algum que realmente no sentia nada por ela exceto desejo. Voltou a colocar o robe, estremecida. Era incapaz de olhar a Brad, e temia que ele pudesse adivinhar sua debilidade.
Brad se incorporou e entrou no banheiro. Um segundo mais tarde Peggy ouviu correr a gua da ducha.
Por que persistia naquelas romnticas iluses de que um dia Brad acabaria apaixonando-se por ela?, perguntou-se, irnica. Por que seguia esperando escutar aquelas palavras? Depois de oito meses aquele sonho deveria ter desaparecido. Brad a apreciava, respeitava-a, mas provavelmente jamais chegaria a am-la.
-Peggy, querida, ser melhor que te d pressa -disse-lhe quando saiu do banheiro com uma toalha ao redor da cintura.
Peggy sentiu um n no estmago ao v-lo. Nunca renunciaria a seu sonho, pensou decidida. No enquanto ainda dispunha de tempo.
-A propsito, tinha-me esquecido de dizer -lhe murmurou Brad com tom indiferente enquanto abria o armrio-. Esta manh me encontrei na cidade com Carolyn Hicks.
Aquelas palavras provocaram em Peggy um estremecimento de apreenso.
-Eu acreditava que Carolyn vivia em So Francisco desde se que se casou com Robert...
-Sim, assim . Mas veio aqui para visitar seus amigos.
-J vejo.
-Disse-lhe que seria bem-vinda se desejava vir aqui esta noite. No te importa, verdade?
-Por que teria que me importar? -Peggy tentou adotar um tom indiferente-. Vir seu marido com  ela?
-No acredito.
-Para ti ser um pouco como voltar para os velhos tempos, verdade? -comentou com tom frvolo-. Se o tivesse sabido, teria convidado a um de meus antigos namorados, para compensar a situao.
Brad se voltou para olh-la com os olhos entrecerrados. -Se te incomodar que Carolyn venha, ento ligarei para ela para anular o convite -disse-lhe bruscamente.
-Na realidade no me importa. S estava brincando -replicou Peggy, levantando-se para dirigir-se ao  banheiro.
Uma vez dentro, apoiou as costas contra a porta fechada, furiosa consigo mesma. No deveria ter montado aquela cena. Carolyn era uma mulher casada, e ela deveria comportar-se como uma adulta dadas as circunstncias.
Olhou-se no espelho do banheiro. Brad se tinha oferecido telefonar a Carolyn... Isso significava que j tinha seu novo nmero de telefone durante sua estadia na cidade...




Captulo 7

O dbil murmrio das conversas enchia o sufocante ar da noite. A beira da piscina, frente  pista de dana, a banda estava tocando uma romntica balada. Peggy usava um longo vestido branco de musselina que parecia flutuar com ela enquanto se movia graciosamente entre a multido de convidados, atenta a qualquer problema que pudesse surgir. O leve aroma de lenha da churrasqueira se mesclava com o do vinho das adegas, no outro lado do jardim.
-Peggy, esta noite tem feito um maravilhoso trabalho de organizao lhe comentou o secretrio de imprensa de Brad, um jovem de vinte e poucos anos, alto e loiro.
-Obrigado, Paul -sorriu-lhe-. Viu a meu marido em alguma parte?
-Felizmente no -deslizou-lhe uma mo pela cintura, sorrindo-. Porque penso te seqestrar uns minutos para danar contigo.
-Acredito que Brad no se importar -assegurou-lhe ela, rindo-. Temo que meu marido no gosta muito de danar.
-De verdade? E eu que acreditava t-lo visto danando com outra mulher esta noite -comentou Paul.
Peggy teve que dominar o impulso de lhe perguntar quem era aquela mulher. Na pista de dana, as luzes arrancavam reflexos irisados ao colar que usava, e enquanto danava, toda ela parecia brilhar com seu magnfico vestido branco. Paul a aproximou at mais para si.
-Agora isto sim que  o que eu chamo uma festa -murmurou-lhe ao ouvido.
Peggy sorriu mas se apartou levemente, para tirar intimidade daquela situao.
-Paul, s um paquerador inveterado -disse-lhe sincera e ele ps-se a rir.
-J me conheces. Nunca posso resistir a uma mulher bonita.
Peggy passeava o olhar pela pista de dana, procurando inconscientemente Brad. Quase no o tinha visto durante toda a noite. No estava entre os casais que estavam danando. Concentrou-se ento em umas figuras meio ocultas pelas sombras que se achavam em um extremo da pista.
Viu Rosie e Mike conversando... mas Brad no estava. Peggy tampouco tinha visto Carolyn Hicks, mas se negava a refletir muito sobre a casualidade de que os dois no aparecessem em nenhuma parte. Havia muita gente no jardim para estar segura de quem estava ali e quem no.
-J sabe que sempre senti uma especial debilidade por ti, Peggy -estava-lhe dizendo Paul naquele momento, deslizando uma mo por suas costas nuas.
-Espero que no seja muito especial -a profunda voz de Brad tomou Peggy de surpresa. E tambm fez ruborizar-se a Paul momentaneamente-. Possivelmente seja este um bom momento para que possa danar uma msica com minha mulher.
Paul retrocedeu e se encolheu de ombros, de bom humor.
-Por que todas as mulheres que eu adoro esto casadas?
-Acredito que voc gosta de viver perigosamente, Paul -Brad se ps a rir enquanto tomava Peggy em seus braos-. No posso te deixar s nem um momento -comentou com sua esposa com um sorriso irnico.
-Paul  um paquerador nato -explicou-lhe-. Mas sou perfeitamente capaz de control-lo.
-Enquanto ele no possa controlar a ti, eu estou tranqilo.
Havia um estranho brilho no olhar de Brad enquanto falava. Peggy sabia que estava brincando. No podia estar ciumento. Os dois no mantinham esse tipo de relao. Depois de tudo, seu casamento no era real e s restavam quatro meses de prazo. Mas apesar de tudo isso, Peggy tinha acreditado detectar certo tom de possesividade em sua voz.
-Eu acreditava que voc no gostava de danar -comentou-lhe ela.
-No sei de onde tiraste essa idia -sorriu-lhe-. Eu adoro danar agarrado -e a atraiu mais para si.
Ao contrrio que na dana anterior com Paul, Peggy o abraou a sua vez e apoiou a cabea em seu ombro. Aspirando seu aroma familiar, fechou os olhos.
-Esta noite tudo saiu muito bem, verdade?
-Sim, mas me agradou sobretudo a primeira parte -comentou Brad com um sorriso.
-Tens uns instintos muito bsicos, Brad Monroe -reps ela, sabendo que se referia ao episdio amoroso que tinha acontecido no dormitrio.
-Como voc.... essa  uma das razes pelas quais nos damos to bem -murmurou em voz baixa e profunda, perto de seu ouvido.
Embora Peggy estivesse sorrindo e sabia que se estava burlando dela, tambm reconhecia que havia uma grande dose de verdade em suas palavras. Sexualmente se complementavam muito bem, mas havia uma ligeira diferena em seus pontos de vista sobre aquele fato. Para Peggy aquilo era uma expresso de seu amor por ele, para Brad era simplesmente sexo. Ele era um homem apaixonado, com um grande apetite sexual, e s o fato de pensar nisso a fazia excitar-se.
-Suponho que deveramos voltar com nossos convidados -disse-lhe Brad quando terminou o tema musical e deu comeo a outro, mais animado.
Ela assentiu e j se dispunha a segui-lo pela pista de dana quando algum a puxou pelo brao.
-Dana comigo, Peggy.
Ao voltar-se, encontrou-se frente a frente com Eric Porter, o secretrio pessoal de Brad. Era um ano mais jovem que ela, e Peggy no pde menos que rir ante a exuberante e espetacular forma que tinha de danar a msica de discoteca. Aceitou seu oferecimento e esteve danando aquele tema com ele, divertida.
Quando ao fim abandonou a pista para reunir-se com Brad, comentou-lhe que desde seus dias de estudante na universidade nunca tinha se divertido tanto. Era um comentrio brincalho, mas Brad no lhe devolveu o sorriso quando ela o olhou nos olhos.
Por um instante chegou a pensar que aquela ocorrncia o tinha incomodado profundamente. Mas quando descobriu que a mulher que se encontrava a seu lado era Carolyn Hicks, compreendeu o verdadeiro motivo de seu desgosto. Evidentemente acabava de interromper uma conversa particular entre os dois.
-Ol, Carolyn... fazia tempo que no te via -saudou-a Peggy, sem saber o que lhe dizer.
-Encantada em ver-te, Peggy -Carolyn a beijou nas bochechas-. No sei se te sente ou no como uma estudante de universidade... o que sim posso afirmar  que o pareces -murmurou com um tom secamente divertido-. Brad, querido, acredito que alguns no duvidariam em te acusar de corrupo de menores.
Peggy no gostou daquele comentrio. No lhe importava que Brad brincasse de vez em quando sobre sua diferena de idade, mas detestava escutar algo parecido de lbios de Carolyn. E sobretudo com aquele tom de condescendncia.
-Ao contrrio, formamos um casal muito equilibrado -apressou-se a dizer.
-Ento no acha aborrecida a vida como mulher de um poltico? Eu teria pensado que voc gostava de sair a cada noite para as discotecas.
-Tenho outras coisas com as quais ocupar minhas noites, Carolyn -replicou Peggy pondo uma sedutora nfase em cada palavra.
A mulher se ruborizou intensamente, mas no demorou para recuperar-se.
-No fim das contas, Brad no te tira para danar. Eu no o suportaria, Peggy. s muito jovem.
-Eu no me oporia que Peggy sasse para as discotecas quando quisesse -comentou Brad com naturalidade.
-Claro -ps-se a rir Carolyn-. Conheo-te muito bem, Brad.
Nesse momento Rosie e Mike se reuniram com eles. Peggy nunca se havia sentido to aliviada de ver sua amiga. Com um pouco de sorte, mudariam por completo de tema da conversa.
De repente Peggy se perguntou se ainda seguiria tendo cimes de Carolyn. No gostava de reconhec-lo, mas sabia que era muito provvel.
-Se uma pessoa mais me perguntar por que ainda no tive o beb, temo que irei s nuvens -comentou Rosie, rindo, enquanto se aproximava de Peggy. E acrescentou, dando uns tapinhas em seu volumoso ventre-. Antes de ficar grvida no estava precisamente muito magra, mas agora...
-Ainda est assim, Rosie? -disse algum passando a seu lado-. No tinha que ter dado a luz j?
-Nossa anfitri me assegurou que tem toalhas preparadas e gua quente -comentou Rosie, irnica, e depois elevou os olhos ao cu com gesto teatral-. Vem o que quero dizer?
-J resta pouco -sorriu Brad. 
-Sim... o mdico me disse que se no acontecer nenhum imprevisto, na quarta-feira me internar e provocar o parto -por um instante Rosie pareceu profundamente preocupada.
-Tudo sair bem.  o procedimento normal quando se sai das contas -comentou Mike com tom suave, tomando-a pelo brao.
-Leu um nico livro e j se acha um perito -murmurou Rosie, divertida-. Ele lhes falou que estava lendo um livro sobre maternidade? Est me deixando absolutamente louca.
-Acredito que a estas alturas j sei tudo o que tem que se saber sobre bebs -explicou Mike-. Poderia ser capaz at de ter um, se fosse possvel.
- um linguarudo -reps Rosie. Nesse momento percebeu a presena de Carolyn, e no pde menos que surpreender-se ao v-la ali-. Oh, Carolyn... fazia tempo que no nos vamos.
-Sim,  certo. S estou de passagem por aqui -sorriu a mulher-, e no acredito que fique muito tempo. Eu gosto de muito viver em So Francisco.  uma cidade to cosmopolita...
-Tambm eu gosto -conveio Rosie, mas seu tom era ligeiramente sarcstico-. Para ns, simples provincianos, sempre significa uma mudana agradvel visitar So Francisco.
Carolyn teve a delicadeza de fingir-se levemente desconcertada por seu comentrio.
-Ento, vieste com Robert? -inquiriu Rosie.
-No. Estou com uns amigos.
-Dentro de uns meses celebraro seu primeiro aniversrio de casamento, verdade? -continuou Rosie-. Recordo-o porque se casaram pouco antes de Brad e Peggy.
-Em efeito -Carolyn levantou o olhar para Brad e por um instante uma sombria expresso se desenhou em seus olhos.
Brad lhe ps uma mo no brao, e em seguida a tirou. Foi um gesto amvel, nada ntimo, e ningum pareceu perceber-lo... ningum exceto Peggy.
-Quando saiu das contas, Rosie? -apressou-se a lhe perguntar Carolyn.
-Na semana passada. Nega-se a vir...
-Deve ser terrvel -murmurou, sorrindo-. Sei o que se sentes. Acontece-me quando ganho alguns quilos.... -e se levou uma mo a seu ventre plano, sem um grama de gordura.
-Duvido que tenha engordado alguns quilos em toda sua vida -comentou Brad com um estranho tom de diverso.
-Obrigado, querido -riu Carolyn-. Mas posso lhe assegurar isso. Recorda aquela vez que me levou a Monterrey e jantamos em...?
-Faz muito calor aqui fora, no? -comentou Rosie em voz alta, interrompendo Carolyn.
Mike se voltou para olh-la, assustado.
-Sente-se bem? No ter comeado com as contraes?
-No, Mike, fique tranqilo -Rosie se ps a rir e lanou um significativo olhar a Peggy-. Simplesmente tenho um pouco de calor.
-De acordo, se voc diz -murmurou seu marido.
Na realidade fazia calor, mas Peggy sabia perfeitamente que Rosie tinha interrompido deliberadamente  Carolyn antes de que comeasse a evocar os velhos tempos com Brad. Sorriu-lhe, olhando-a com uma expresso de agradecimento.
-Eu tambm tenho calor.
Nesse instante se uniu outro grupo de pessoas e, felizmente para Peggy, a conversa derivou para outros temas.
-Encontra-te bem? -perguntou-lhe Rosie pouco depois.
-Sim, claro. Sou eu quem deveria te perguntar isso -reps com tom alegre.
-Ests plida. No deixe que Carolyn te incomode. Esse comportamento provocador  habitual nela.
-Oh, sei -Peggy tentava sobrepor-se a seus temores, mas lhe acelerava o corao ao ver seu marido em companhia daquela mulher. Formavam um casal muito atraente. Carolyn, loira e esbelta, e Brad to moreno...- Alm disso, ela agora est casada.
No sabia a quem tentava convencer, se a Rosie ou a ela mesma. No mais profundo de seu ser a torturava a convico de que ao final de quatro meses Brad voltaria a ser um homem solteiro. Ento poderia ver quem quisesse... Nesse preciso momento, Mike as interrompeu.
-Venha, Rosie, vamos. Ests cansada.
-Sinceramente, Peggy -Rosie esboou uma careta-, se fosse por meu marido me deitaria todas as noites s oito horas depois de tomar um chocolate quente. Ultimamente est insuportvel.
-No te zangue, Mike est fazendo um grande trabalho -animou-lhe Peggy-. Conheo bem Rosie, seria capaz de seguir a festa at o amanhecer -acrescentou, brincando.
A noite lhe resultou bastante aborrecida uma vez que Rosie e Mike partiram, e nem Brad nem Carolyn apareceram em nenhuma parte. Dirigiu-se ao bar para tomar um suco de laranja. Sentia-se cansada e um pouco enjoada, provavelmente devido ao calor...
Tomou sua bebida e retornou ao jardim. Muitos convidados j se retiraram, e a banda estava tocando lentas baladas. Peggy observou aos msicos durante um momento, e depois decidiu voltar para a casa com a esperana de que o ar condicionado a aliviasse um pouco.
Escolheu o caminho que levava s portas laterais, pensando que dessa forma ningum a veria e poderia descansar tranqilamente na sala. De repente escutou a voz de Brad, antes de v-lo, e ficou paralisada.
O caminho estava  sombra das rvores, de maneira que as luzes da festa se filtravam por entre os ramos. Podia ver a silhueta de Brad, mas no conseguia distinguir com quem estava falando.
-Provavelmente no seja to mau como voc pensa -estava dizendo Brad com um tom baixo e suave.
-Claro que .  algo terrvel.
Peggy reconheceu imediatamente aquela voz triste e chorosa como a de Carolyn. O corao lhe acelerou ao observar a maneira em que se refugiava nos braos de Brad.
-Sinto tanto a sua falta, Brad... Sinto tantas saudades.
Peggy se voltou de repente e saiu correndo em sentido contrrio, muito afetada para seguir vendo ou escutando algo mais.




Captulo 8

Peggy contemplou sua imagem no espelho do banheiro. Estava plida e tinha os olhos inchados e chorosos.
-A festa foi um tremendo xito -disse-lhe Brad do dormitrio-. Acredito que recolhemos uma boa quantidade para a obra beneficente. Fez um trabalho magnfico, Peggy -interrompeu-se quando ela entrou na habitao-. Ests bem? -perguntou-lhe, preocupado.
-Claro que sim. Por que no teria que estar?
No podia suportar olh-lo. Sentia-se furiosa e doda... mas o pior era que sabia que no tinha nenhum direito a sentir nada disso. Brad nunca tinha sido realmente seu. Apartou os lenis e se deitou em seguida.
Brad estava se despindo. Ela o observava s escondidas, fingindo dormitar quando de fato no podia estar mais acordada. No sabia como tinha podido suportar a ltima hora transcorrida. Depois de ver  Brad e Carolyn juntos, era como se tudo tivesse se tornado impreciso.
Recordava s pessoas lhe falando quando retornou  festa. E depois Brad se reuniu com ela, j sem  Carolyn. Quando lhe perguntou se Carolyn j tinha partido, ele tinha se limitado a assentir com a cabea.
Nesse momento Brad se tirou as calas e pendurou o traje no armrio antes de despojar-se da camisa.
-Rosie tinha bom aspecto -comentou com naturalidade, lhe lanando um rpido olhar.
-Voc acha?
-O que pensa que tero...? Um menino ou uma menina?
A cama se afundou sob seu peso quando se deitou a seu lado. No usava pijama. Nunca o colocava, j que preferia o contato dos lenis... ou, segundo uma vez lhe havia dito, a sensao de seu corpo contra sua pele nua. Peggy teve que pr freio bruscamente a aqueles pensamentos.
-Peggy? -rodou a um lado para olh-la-. Ests dormindo?
-Estava pensando -respondeu ao final de um momento de silncio.
-Ento, o que achas que ser? Menino ou menina? -inquiriu Brad de novo.
-No acredito que isso importe muito. O nico importante  que os dois se amam.
Seguiu outro momento de silncio.
-Sim, suponho que sim -o tom de Brad continha uma nota de tristeza que lhe rasgou o corao.
Acaso estaria pensando em Carolyn? Peggy fechou os olhos com fora, em um esforo por afugentar as imagens que assaltavam seu crebro. Deveria lhe perguntar pelo que estava acontecendo, mas no se atrevia.
-Ignorava que danava to bem at que esta noite te vi com Eric -comentou-lhe de repente Brad-. No me surpreende que Carolyn te lanasse aquela indireta... quando te disse que poderia ser muito mais feliz com homens de sua idade... saindo par as discotecas.
A s meno do nome de Carolyn acabou com a pacincia de Peggy.
- essa a desculpa que vamos usar quando rompermos ao final dos quatro meses que restam? Que eu sou mais feliz saindo todas as noites a locais noturnos? Que nunca estive preparada para me converter na esposa de um prefeito?
-Eu, em troca, acredito que representaste muito bem seu papel de esposa de prefeito -reps ele com tom suave-. E, para ser sincero, no me ocorreu pensar nas desculpas que inventaremos daqui a quatro meses.
-De verdade? -inquiriu com voz quebrada de emoo-. Pois eu acreditava que esta noite j te estavas preparando para esse momento, me dando carta branca para sair as discotecas a cada dia da semana... quando estvamos falando diante de Carolyn.
-Disse-te que no poria nenhuma objeo a que sassemos -explicou Brad com tom tranqilo.
-No, disse que no te oporia que eu sasse -voltou-se para olh-lo-. Foi uma elucidao desnecessria, porque nem por um momento cheguei a pensar que voc poderia te opor a isso. Depois de tudo, nosso casamento  uma farsa, no? -como ele no respondeu, continuou, furiosa- Somos livres para fazer o que quisermos, e muito em breve toda esta pantomima chegar a seu fim.
-Obrigado por me recordar com tanta claridade os termos de nosso casamento -reps Brad depois de um comprido silncio-. Mas no havia nenhuma necessidade. Recordo muito bem o trato que fizemos.
 obvio que o recordava bem, pensou Peggy enquanto sua anterior fria era substituda rapidamente por um profundo sentimento de tristeza. Deveria tentar lhe fazer esquecer seu contrato, e no recordar-lhe precisamente.
-No devia ter dito isso -murmurou.
- a verdade. Isso  o que sentes -pronunciou Brad com um tom sombrio-. Mas acredito que interpretou mal o que te disse esta noite. No te estava dando permisso para que sasse quando quisesse. Nunca fui to prepotente. Sei muito bem que s perfeitamente livre para fazer o que quiser.
-Sim -Peggy fechou os olhos. Deveria lhe dizer que o que realmente lhe tinha dodo era ter visto Carolyn em seus braos. Mas no queria que lhe confessasse que ainda amava a aquela mulher. Queria acreditar que possivelmente tivesse sido um simples acidente, que Carolyn no demoraria para voltar com seu marido. Ainda se aferrava  esperana de que podia seguir lutando por seu casamento. Franziu o cenho, perguntando-se como podia seguir querendo a algum que, evidentemente, no a amava.
De repente Brad lhe acariciou o rosto com ternura.
-Eu s quero o melhor para ti, Peggy.
Ela abriu os olhos e o olhou. Nesse instante compreendeu por que ainda seguia querendo-o, por que seguia amando-o e necessitando-o.
-Sei -reps com voz rouca.
Brad lhe deslizou delicadamente os dedos pela bochecha e a atraiu para si para beij-la. Peggy sentiu o contato de seus lbios, um contato terno e ao mesmo tempo inseguro. Tinha os olhos alagados de lgrimas enquanto se perguntava quanta paixo teria havido naqueles mesmos lbios quando beijou Carolyn nessa mesma noite. Fechou os olhos com fora e depois, como Brad tinha comeado a aprofundar seu beijo, apartou-se bruscamente.
-Importaria-te se dormssemos? -murmurou, vacilante-. Estou muito cansada.
-Claro que no -seu tom era amvel, mas a Peggy no tinha passado desapercebido certo tom de surpresa.
Pela primeira vez dormiram separados na cama, sem tocar-se. Provavelmente s teriam sido alguns centmetros de separao, mas Peggy teve a sensao de que eram quilmetros. Quase tinha amanhecido quando por fim conseguiu dormir, e inclusive seus sonhos estiveram cheios de vises de Carolyn e Brad, abraados.
Despertou com um sobressalto. O sol da primeira hora da manh se filtrava atravs das cortinas, iluminando a habitao com uma luz dourada que a ajudava a combater a fria lembrana de seus pesadelos.
Mas apesar de tudo no terminava de sentir-se bem. A habitao parecia dar voltas a seu redor. Se no fosse o fato de que no tinha provado lcool na noite anterior, teria pensado que sofria de ressaca. Supunha que seria estresse e falta de sono. Suspirou e Brad estendeu uma mo para toc-la brandamente.
-Ests acordada?
-Sim.
-Ests tremendo -observou Brad quando a aproximou para si-. Encontra-te bem?
-Sim, acredito que tive pesadelos -reconheceu. Possivelmente tudo o que tinha ocorrido na noite anterior tinha sido um pesadelo, pensou desesperada.
-Sobre o que? -perguntou-lhe ele com tom suave.
-No posso recordar -mentiu, insegura.
-Pobrezinha... -beijou-a de um lado do pescoo.
Algo dentro dela comeou a derreter-se. Naquele momento seu amor por Brad era mais forte que seu orgulho. Voltou-se para ele procurando proteo no calor de seu corpo, aspirando o limpo e masculino aroma de sua pele.
Brad estava lhe acariciando o cabelo. Era uma sensao maravilhosamente doce e relaxante. Peggy fechou os olhos saboreando aquele momento. Possivelmente Carolyn voltasse para So Francisco e retornasse com seu marido, disse-se em v tentativa por sobrepor-se a seus temores. Depois de tudo, Carolyn estava casada...
-Sente-se melhor? -perguntou-lhe Brad com voz rouca.
Peggy assentiu.
-Devo me levantar. Hoje tenho um dia muito ocupado -comentou Brad, resistente.
-O que  o que tens na agenda? -tentou apagar todo rastro de emoo de sua voz.
-Em primeiro lugar, uma reunio. Levar-me vrias horas -beijou-a na testa e se levantou da cama.
Peggy se incorporou. Ia levantar-se tambm, mas quando colocou de um lado os lenis voltou a sentir-se enjoada.
-No te levante ainda.  muito cedo -declarou Brad, colocando o robe-. Vou tomar um caf. Hoje tomarei o caf da manh mais tarde -voltou-se para ela, franzindo o cenho-. Est segura de que te encontra bem? Est muito plida -olhou-a preocupado.
-Sim, estou bem -mentiu Peggy-. S um pouco cansada, suponho.
Brad se sentou na cama, a seu lado, e lhe ps uma mo sobre a testa.
-Est um pouco quente, mas no tem febre. Provavelmente est te pondo doente.
Peggy sentia vontades de lhe dizer que se estava pondo doente de amor. Subia-lhe a temperatura cada vez que ele a tocava. Era incrvel. Sentia-se mal, rasgada pelo medo e a fria devido ao que Brad sentia por Carolyn, e mesmo assim o simples contato de sua mo na testa fazia que lhe acelerasse o corao de desejo.
-Ser melhor que hoje te dedique a descansar -aconselhou-lhe Brad com tom suave.
-Estarei bem -insistiu.
-Promete-me que no sair para trabalhar nos vinhedos?
-Prometo-lhe isso -sorriu Peggy-. Me acredite, isso  o ltimo que gostaria de fazer.
Brad a olhou com certa expresso de incredulidade.
-Sei o muito que significam para ti esses teus vinhedos -acariciou-lhe a bochecha-. Mas descansa hoje, de acordo? -levantou-se da cama.
-Esses nossos vinhedos... -corrigiu-o ela-. Ainda somos scios... recorda?
-No vou esquecer-lo, Peggy -por um instante uma sombra cruzou por sua expresso.
Acaso se sentia preso a ela?, perguntou-se de repente Peggy. Acaso lhe pesava a perspectiva de ter que passar ainda quatro meses mais em sua companhia?
Observou-o enquanto se vestia, e seus olhares se encontraram no instante em que se arrumava a gravata. Naquele instante seu marido acabava de transformar-se em um sofisticado homem de negcios. Rico, mundano, eficiente, incrivelmente atraente.
-Chegar tarde esta noite?
-Acredito que no -recolheu sua maleta-. Quer que te traga uma taa de caf?
Peggy negou com a cabea. S o fato de pensar no caf a punha doente.
-De acordo -inclinou-se para lhe dar um ltimo beijo-. Chamarei-te mais tarde para ver como ests.
A doura daquele beijo lhe acelerou o corao. Sentia-se to confundida... Amava-o tanto... que odiava a si mesma por ser to dbil. Quando Brad partiu, reclinou-se contra os travesseiros.
Ao final de uns minutos fez uma nova tentativa para levantar-se, mas a assaltou uma violenta nusea e entrou apressada no banheiro. Minutos depois se sentia muito dbil... dbil e chorosa.
Abriu a torneira da ducha e permaneceu sob o jorro de gua, com a esperana de recuperar-se. Depois colocou umas calas curtas e uma camiseta amarela e desceu as escadas.
-Bom dia, senhora Monroe -saudou-a a governanta-. Gostaria de tomar o caf da manh? Preparei umas bolachas caseiras que...
-No... no, obrigado, de verdade, esta manh seria incapaz de comer algo.
A mulher a olhou com curiosidade, e depois franziu o cenho.
-Encontra-se bem? Ests muito plida.
-Sinto-me um pouco dbil -admitiu Peggy-. Provavelmente no seja nada. Ficarei bem.
A mulher assentiu, pormenorizada. Quando j se dispunha a retornar  cozinha, voltou-se para lhe dizer.
-A propsito, a maleta do senhor Monroe estava na sal de jantar. A levei ao escritrio.
-Oh, obrigado. Esta manh partiu muito cedo. Com a pressa, deve ter esquecido.
Peggy franziu o cenho. Brad no estava acostumado a deixar esquecidas as coisas, e menos ainda algo to importante como sua maleta. Esperava que fosse capaz de arrumar-se sem ela. Foi a seu escritrio e tomou o telefone para cham-lo no escritrio.
Em seguida Eric lhe respondeu, seu secretrio pessoal.
-Ol, Peggy -saudou-a com alegria-. Ontem  noite me diverti muito, de verdade.
-Me alegro -respondeu com um sorriso enquanto se sentava na poltrona frente a mesa escritrio de seu marido-.Olhe, Brad esqueceu a maleta e possivelmente a necessite para a reunio desta manh. Pode dizer-lhe isso.
-Sinto muito, mas tenho estritas instrues de no incomod-lo. A reunio de hoje est fixada para a uma e meia e tem a manh livre.
-Deve estar equivocado, Eric -reps Peggy, franzindo o cenho-. Partiu muito cedo de casa, no tinha a manh livre.
-Quo nico sei  que me disse que no o incomodasse esta manh. Por isso desconectou o celular e est incomunicvel. Pelo visto, tem algo importante a fazer.
-Obrigado de todas formas, Eric -murmurou.
Permaneceu olhando o telefone durante um bom momento depois de desligar. Se a reunio de Brad estava prevista para a uma e meia, por que tinha partido to cedo e com tanta pressa?
Nesse momento soou o telefone e levantou o auricular rapidamente, esperando ferventemente que fosse Brad. Mas no era ele.Era Rosie.
-Ol. Como te encontras hoje? -perguntou-lhe Peggy tentando esquecer-se de Brad e no pensar em onde poderia estar essa manh.
-Bem gorda e padecendo de ardor de estmago. Mas alm disso, estava-me perguntando se gostarias de vir para casa a me levantar o nimo.
-Eu adoraria -duvidou Peggy-. O problema  que acredito que estou ficando doente. Preferiria no me arriscar a ver-te se por acaso for contagioso o que tenho. Isso poderia ser quo ltimo necessitaria.
-Tens febre?
-No. So nuseas o que tenho.
Rosie se ps a rir.
-Hei, no estar no mesmo navio que eu, verdade?
Peggy franziu o cenho.
-No estar grvida? -insistiu Rosie ao ver que sua amiga no respondia.
- impossvel que eu tenha ficado grvida -murmurou Peggy, com o corao acelerado-. Utilizamos anticoncepcionais.
-J sabe que no h nada que seja cem por cento seguro -reps Rosie-. Anda, venha para minha casa, assim compararemos os sintomas.
-Rosie, est-me pondo nervosa.  No estou grvida -enquanto falava, tirou sua agenda da gaveta superior da mesa de Brad e a abriu-. No me esqueci que... -interrompeu-se ao comprovar as datas-. Bom, atrasei-me um pouco.
-Quanto  um pouco? -inquiriu Rosie.
-Trs semanas -Peggy suspirou, preocupada-. Oh, Rosie! No sei o que diria Brad se descobrisse que estou grvida. Estou segura de que no gostaria de nada absolutamente.
-Claro que gostaria! -de repente sua amiga ficou muito sria-. Tudo est bem entre vocs, no?
-Sim, sim.... -por muito que o tentasse, Peggy no podia manter um tom de voz firme e seguro. Os planos de Brad com ela certamente no tinham includo ter um beb!
-Oh, diabos, Peggy... qual  o problema ento?
-No... no sei -realmente no queria lhe contar que na noite anterior tinha visto Carolyn nos braos de seu marido, nem tampouco sobre o seu acordo matrimonial. Resultava-lhe muito doloroso. Mas sentia a necessidade de falar com algum-. Suponho que foi a presena de Carolyn na festa de ontem  noite -admitiu-. Temo que segue interessada em Brad.
-Possivelmente... mas Brad j no est interessado nela -declarou Rosie com um tom muito convencido.
-No? No posso evitar pensar que nunca se teria casado comigo se tivesse podido conservar Carolyn.
-Tem que te tirar essas idias da cabea -apressou-se a lhe aconselhar Rosie-. Brad se casou contigo porque te quer. Olhe o rpido que te levou a Las Vegas. No podia esperar para te pr o anel de casamento no dedo.
-Sim -Peggy no podia lhe dizer que seu casamento tinha sido um acordo, uma pura falsidade-. Estou me comportando como uma estpida.
-Sabe o que te passa? Ests grvida. Por isso est to suscetvel.
-No pode ser. Quero que se esquea de tudo isto -pediu-lhe Peggy-. Pelo amor de Deus, no o diga a ningum.
- uma desmancha-prazeres... Oh!
-Rosie, encontra-te bem?
-Sim... eu... -seguiu um completo silncio no outro lado da linha.
-Rosie?
-Sim... sigo aqui. Acredito que est comeando... -disse sem flego-. Oh, Meu Deus, acredito que j est a...
-Est comeando com o parto? -inquiriu Peggy, levantando-se da cadeira.
-Sim.... acredito que sim -respondeu Rosie, meio gritando, meio chorando-. Ser melhor que v procurar  Mike na cozinha.
-Necessita de algo? Posso fazer algo?
-No, j tem feito suficiente. Acredito que foi sua boa nova que me tem feito reagir assim -brincou.
-Oh, pelo amor de Deus! -Peggy estava rindo, apesar de que tinha os olhos cheios de lgrimas-. Escuta, vou desligar. Me chame para me dar a boa notcia.
-Farei-o. Mas voc v a ver um mdico. Adeus.
Cortou-se a comunicao. Peggy estava tremendo de nervos. Esperava de todo corao que tudo sasse bem.
Sorriu. Depois pousou o olhar na agenda aberta frente a ela, com a data anotada. No podia estar grvida, disse-se com energia. De fato j se sentia melhor, e lhe tinham desaparecido as nuseas.
Mas deveria ir ver um mdico para assegurar-se. Ou isso ou esperar o que pudesse acontecer, e Peggy no se acreditava capaz de suportar tanta incerteza. Tentando atuar com eficiente tranqilidade, localizou o nmero de telefone do mdico e marcou uma consulta para esse mesmo dia.

Peggy j estava deitada quando Brad voltou para casa. Mas no estava dormindo. Tinha estado esperando-o, tentando no pensar aonde poderia estar. Mas quando na esfera iluminada do relgio despertador tinha visto que os ponteiros de relgio se aproximavam das dez horas, sua imaginao tinha comeado a funcionar. Possivelmente Brad se reuniu com Carolyn naquela mesma manh, quando lhe disse que tinha uma reunio. Possivelmente ento tinham marcado outro encontro para a noite, quando terminasse de trabalhar.
No sabia se sentia-se furiosa ou aliviada quando por fim ouviu seu carro no caminho.
Pouco depois se abria a porta do dormitrio. Brad atravessou sigilosamente a habitao e acendeu o abajur de seu lado da cama.
Foi ento quando Peggy se voltou para olh-lo.
-Sinto muito, despertei-te? -perguntou-lhe ele enquanto se desamarrava a gravata.
-No, j estava acordada -respondeu Peggy. Percebeu que parecia cansado-. Chega muito tarde.
-Tive um dia muito pesado -tirou-se o casaco do terno -. Como se sentes? Tem melhor aspecto.
-Sinto-me melhor. Obrigado por seu interesse -reps com tom sarcstico.
Brad franziu o cenho e se sentou na cama para olh-la mais de perto.
-Estava muito preocupado contigo.
-To preocupado que voltaste as dez e meia. Poderia ter morrido aqui e no te teria informado.
-Estou segura de que a senhora O'Brien me teria informado de uma mudana to drstica em suas condies fsicas -sorriu-. E esta manh no parecia ter to mau aspecto...
Furiosa, Peggy estava com vontades de lhe apagar do rosto essa expresso divertida. Se lhe dizia que essa tarde tinha ido ver o mdico, e que se submeteu a vrias exames para saber se estava ou no grvida, por certo que levaria uma boa surpresa. Isso transtornaria por completo os planos que pudesse estar tramando com Carolyn. Tinha as palavras necessrias na ponta da lngua, e s com um supremo esforo evitou as pronunciar. No podia soltar-las no meio de uma discusso e, alm disso, ainda no tinha certeza se estava grvida.
-Isso se a senhora O'Brien tivesse podido te localizar. Esta manh chamei a seu escritrio e Eric no sabia onde diabos estavas. Comentou-me que te tinha tomado a manh livre, e que tinha a reunio pela tarde.
-Sim, Eric j me disse que tinhas ligado -Brad parecia completamente despreocupado.
-Ento onde esteve?
-Ora, Peggy, ests falando como uma esposa sinceramente preocupada com seu marido -refletiu em tom tranqilo-.  a mesma mulher que ontem  noite me dizia que, em nosso casamento, cada um era livre para fazer o que quisesse?
-Pode ser que tenhamos feito um trato, Brad, mas nesse trato no figura que tenha que me pr em ridculo -replicou Peggy com frieza.
-Por que me diz isso?
-Mentiu-me a respeito do que tinha que fazer esta manh. E me senti ridcula chamando Eric e me inteirando por ele de que te tinha tomado a manh livre.
-Vamos ver, Peggy -de repente Brad adotou um tom muito srio-. Te preocupa onde estive esta manh? Ou o que te preocupa  o que possa pensar as pessoas e sua prpria imagem como esposa de um prefeito?
-Eu... -no sabia como responder a essa pergunta sem exteriorizar suas verdadeiras emoes-. Eu no gosto que mintam para mim -disse ao fim.
-Porque no quer parecer uma estpida -declarou Brad, antes de tirar os sapatos-. Bom, pois pode estar tranqila. Peggy. Sua imagem est a salvo. Sim, esta manh cheguei tarde ao escritrio, mas disse a todo mundo que tinha tido que ir a So Francisco para falar com os arquitetos a respeito de um novo projeto que se vai realizar na cidade.
-E lhes mentiu, ou lhes disse a verdade?
Brad se voltou para olh-la com uma expresso muito tranqila.
-Recordo que antes de que nos casssemos estava acostumado a me dizer que no eras muito boa atuando, Peggy. Mas acredito que ento fostes muito modesta, porque s vezes tenho a sensao de que tudo isto no te importa absolutamente nada...
Nesse momento soou o telefone. Foi Peggy quem desprendeu o auricular. Tremia-lhe a mo.
- um menino, trs quilos e meio -a voz de Mike ressonou no outro lado da linha-. Vamos chamar-lo de William.
-Mike,  maravilhoso! Felicidades. Como se encontra a Rosie?
-Eufrica... quer que venha amanh pela manh para v-la.
-Com certeza que sim - Peggy riu, e desligou o telefone. Depois se voltou para Brad para lhe informar- Rosie teve um menino. Vo chamar-lo de  William. No  fantstico?
-Sim .
Por um momento toda a tenso anterior desapareceu. Seus olhares se encontraram.
-A propsito, estive em reunies durante todo o dia -explicou Brad.
Peggy suspirou, aliviada.
-Me perdoe por ter insistido tanto ao te perguntar onde tinhas estado -pediu-lhe com tom suave-. O que passa  que esquecestes a maleta e tentei te localizar para lhe dizer isso. No pretendia te controlar.
-No, isso j sei -Brad sacudiu a cabea, esboando um sorriso triste-. Tinha transferido os documentos que necessitava a outra maleta.
-Jantaste? -perguntou-lhe ela, observando-o enquanto se despia.
-Sim, comi algo a caminho de casa.
-Sozinho?
-Com Eric -olhou-a, sorrindo-. Durante todo o tempo esteve falando de ti e de quo afortunado era ao te ter como esposa. Acredito que est um pouco deslumbrado por ti.
Peggy no estava interessada em Eric, mas sim muito aliviada de que Brad no tivesse jantado em companhia de Carolyn. Felizmente, no a tinha visto em todo o dia.
-Meu apetite no  precisamente de comida, mas sim de outras coisas -acrescentou em um murmrio antes de meter-se na cama e abraar Peggy com ternura-. Acredito que manh tomarei todo o dia livre. Iremos ver a Rosie e ao beb, e depois sairemos para comer por a.
-Ter tempo? -perguntou-lhe ela, encantada com a perspectiva.
-Se no o tiver, arrumarei para consegui-lo.
Peggy se amassou contra ele, sentindo-se muito mais tranqila. Possivelmente Carolyn j teria voltado para So Francisco com seu marido. Se esse era o caso, ainda dispunha de uma oportunidade para conservar seu casamento.
-Precisamos falar, Peggy -a voz de Brad se tornou repentinamente sria e deixou de beij-la para olh-la aos olhos.
-Falar do que?
-Do futuro, entre outras coisas.
-Agora? -inquiriu, temerosa.
-No, agora no -beijou-a de novo-. H um tempo e um lugar para tudo.



Captulo 9

Quando despertou na manh seguinte, Peggy descobriu que estava sozinha na grande cama de casal. O lado de Brad estava frio. Incorporou-se e olhou o relgio despertador. Eram quase nove horas, e tinha ficado dormindo.
A noite anterior tinha adormecido muito tarde. Depois de fazer amor, tinha estado pensando at altas horas da madrugada, perguntando-se do que Brad quereria lhe falar, e preocupando-se tambm pelos resultados dos exames de gravidez.
Decidiu tomar banho antes de telefonar ao mdico, e se levantou da cama. Sentia-se um pouco fraca naquela manh, mas felizmente no tinha nuseas. Olhou-se no espelho do banheiro. Estava muito plida, sua tez carecia virtualmente de cor e seus olhos tinham um estranho tom escuro.
Esteve sob o jorro de gua da ducha durante um bom momento, com a esperana de recuperar-se. Depois colocou um vestido de vero, azul, e voltou para dormitrio. Sentou-se na beira da cama e levantou o telefone, temerosa. E se realmente estivesse grvida? Como reagiria Brad? Teve a impresso de que demoravam anos a responder a sua chamada.
-Sim, senhora Monroe -disse a enfermeira com tom alegre-. J temos seus resultados. Felicidades, o exame deu positivo.
-Positivo? -repetiu Peggy, confusa-. Quer dizer que estou grvida?
-Sim. O doutor Riley deseja que voc marque outra consulta o quanto antes.
Peggy passou uma mo tremente pelo cabelo. quase no podia pensar com clareza.
-Pode ser esta manh?
-No, marcarei para amanh pela manh -disse lentamente Peggy. Necessitava de tempo para acostumar-se  idia-. s nove e meia, muito bem -desligou o telefone e imediatamente a assaltou uma violenta nusea.
Brad entrou na habitao justo quando estava lavando o rosto.
-Pensei que poderamos ir primeiro  cidade, comprar presentes para Rosie e para o beb e depois nos dirigir ao hospital -disse-lhe atravs da porta do banheiro, que estava entreaberta.
-Maravilhoso -Peggy se obrigou a adotar um tom ligeiro e animado-. Saio em um minuto.
Olhou-se no espelho. Tinha um aspecto ainda pior do que quando havia se levantado. Rapidamente se maquiou um pouco para dissimular sua palidez. Tremia-lhe a mo.
-Peggy, se j estiver preparada, eu gostaria que sassemos o quanto antes possvel.
Disse-se que tinha que dizer a Brad. Fechou os olhos, aterrorizada de s pens-lo. Ainda no podia enfrentar-se a isso.
-J estou pronta -entrou no dormitrio, fugindo do olhar de Brad-. Vou pegar minha bolsa.
Brad a olhou com curiosidade quando se dispunham a subir ao carro.
-Dormiste bem esta noite?
Peggy assentiu, e durante o trajeto se concentrou em olhar pela janela. O cu estava muito azul, sem uma s nuvem. O que ia fazer agora?, perguntava-se sem cessar.
-Achas que Carolyn ficar muito tempo na cidade? -inquiriu de repente.
-Talvez sim -respondeu Brad-. Que fique entre ns, Peggy. Carolyn e seu marido se separaram -como ela no fez nenhum comentrio, lanou-lhe um rpido olhar-. Ultimamente no se davam bem...
A compaixo que pulsava em seu tom rasgou o corao de Peggy.

-Felicidades -Peggy se inclinou para beijar a sua amiga nas bochechas-. Como se sente?
-Como a pessoa mais feliz do mundo -respondeu Rosie, sincera.
Estava sentada na cama, vestida com uma camisola rosa, e sua expresso transbordava de alegria. Mike tinha se levantado da cadeira quando Brad e Peggy entraram na habitao, e naquele momento se encontrava ao lado da cama, olhando enternecido a sua esposa.
-Foi muito valente -comentou com tom suave.
-Foi muito doloroso? -inquiriu Peggy-. Esteve muito tempo na sala de partos.
-Certamente, houve muitos gritos -interveio Mike.
-No lhe d ouvidos, Peggy; no foi to mau -declarou por fim Rosie.
Brad se inclinou tambm para beijar Rosie e estreitou a mo de Mike enquanto Peggy se aproximava do bero.
-Ol, William -pronunciou com tom doce.
O beb tinha uns enormes olhos azuis que pareciam olhar a Peggy como se a reconhecesse. Esboou um torpe sorriso e ficou a gorjear, contente.
- maravilhoso, Rosie. s to afortunada...
-Sei -inclinou-se para contemplar a seu filho-. Valeu a pena. Peggy, me acredite -disse com expresso sonhadora.
Peggy sorriu.
-Venha, toma-o nos braos -urgiu-a sua amiga.
Peggy hesitou por um momento, e por fim se decidiu. Embalado em seus braos, o beb a olhava com tal expresso de confiana e inocncia que a jovem ficou profundamente comovida. Sentou-se na cadeira que Mike tinha ocupado e o balanou com doura, admirando suas mos diminutas, a rosada pele e o surpreendente comprimento de seus clios.
- uma sensao fantstica, verdade? -perguntou-lhe Rosie com um sorriso.
-Certamente que sim.
Peggy sentia que se transbordava de emoo. A ternura que despertava aquela criatura a fazia ser consciente do muito que desejava ter um filho de Brad. Mas tinha que ser realista. Como se arrumaria para seguir adiante s com seu beb? E o pior de tudo, no queria que Brad se sentisse obrigado a ficar com ela se realmente no o desejasse. Por fim, poderia chegar inclusive a odi-la. Recordava muito bem o que Brad lhe havia dito a respeito de que as crianas no faziam parte de seu acordo...
Nesse momento levantou o olhar para surpreender a seu marido contemplando-a com expresso pensativa e um estranho brilho nos olhos.
-Foste muito amvel em vir a nos ver, Brad -estava-lhe dizendo Mike-. Apostaria a que nem todos os dias um beb recebe a visita do prefeito da cidade.
-Oh, no acredite. De vez em quando dou uma volta pelo hospital -sorriu, aproximando-se do beb.
-Quer tom-lo nos braos? -perguntou-lhe Rosie.
Peggy ficou um pouco surpreendida ao ver a disposio com que Brad estendia os braos para receber o beb. Comeou a balan-lo com delicioso cuidado. Parecia sentir-se muito cmodo com ele.
-Todo um paizo -sorriu Rosie-. Logo tocar a ti, Brad.
Peggy sentiu um n no estmago quando levantou o olhar e se encontrou com os olhos de Brad. Resultava-lhe difcil interpretar sua reao ante esse comentrio. Seus olhos escuros tinham uma expresso indecifrvel.
-O que voc diz, Peggy? -Rosie dirigiu-se a ela.
-No sei -respondeu-. Acredito que a paternidade no convm absolutamente a Brad. Tem planos muito mais urgentes.
Um tenso silncio seguiu a suas palavras. Peggy pde detectar uma quase imperceptvel tenso nos traos de Brad antes de que desviasse o olhar.
No demoraram para retomar a conversa, e Peggy se arrependeu de seu comentrio enquanto contemplava a deliciosa doura com que Brad embalava William enquanto falava. Tinha sido algo completamente desconjurado, refletiu. Provavelmente Brad seria um pai maravilhoso... sempre e quando encontrasse a mulher adequada. Havia uma sombra de tristeza em seus olhos quando se voltou para olhar  Rosie.
-Ento no h nenhuma notcia nova? -perguntou-lhe sua amiga com tom suave.
Peggy sabia muito bem que lhe estava perguntando se estava grvida.
-S a perspectiva de um jantar de negcios amanh de noite -respondeu, incmoda.
-Acredito que deveramos ir -disse nesse momento Brad, devolvendo o beb a sua me.
-Tem muito trabalho hoje? -inquiriu Rosie, sorrindo.
-Absolutamente. Dediquei o dia a minha esposa -sorriu a Peggy-. Reservei uma mesa no Henry'S.
Peggy tinha estado to concentrada pensando em sua gravidez que havia se esquecido do convite para almoar com Brad.
-Foi ali onde nos comprometemos -declarou-. Lembra-te?
- obvio que me lembro -sorriu Brad.
-Que romntico -exclamou Rosie.
Peggy lanou um rpido olhar a seu marido. Teria dado qualquer coisa para que Brad se voltasse nesse mesmo instante para ela e lhe dissesse que a amava.... que no queria que sua relao terminasse jamais.

-Ento, o que voc gostaria de comer? -inquiriu Brad enquanto a garonete se aproximava para anotar o pedido.
-Vou querer uma salada e a sobremesa especial da casa, por favor -respondeu Peggy com tom decidido depois de dar uma olhada ao menu.
Brad j se dispunha a pedir o vinho, quando ela o interrompeu.
-Para mim gua mineral, Brad. 
-Est segura de que no quer comer nada mais? -perguntou-lhe ele quando a garonete partiu-. Ainda no te sentes bem?
-No, j me encontro melhor... de verdade -respondeu Peggy, e olhou a seu redor.
Em um extremo do salo um casal estava comendo com seus dois filhos. Por alguma razo, sentiu vontade de chorar ao ver aquela cena to familiar. Voltou a concentrar sua ateno na mesa para descobrir que Brad a estava olhando com estranha intensidade. Alegrava-se de haver-se arrumado bem. Seu penteado era perfeito e a maquiagem tinha conseguido dissimular sua palidez. Como nica jia, usava o anel de casamento de ouro.
Brad pousou o olhar por um momento naquele anel. 
-Resulta difcil acreditar que j estamos oito meses casados.
-Sim -Peggy desviou o olhar e, de maneira inconsciente, comeou a dar voltas a seu anel no dedo.
-J sabe que teremos que tomar decises a respeito do que vamos fazer quando se cumprir nosso primeiro aniversrio.
-Sim, sei -aspirou profundamente. Ia ter que enfrentar-se a aquele fato mais cedo ou mais tarde, mas no sabia se nesse dia teria a coragem suficiente para faz-lo-.  por isso pelo que sugeriu este almoo?
-No de tudo. Simplesmente pensei que esta poderia ser uma boa oportunidade para falar... -sorriu de repente-. Conversar sobre a cama pode chegar a ser um pouco... difcil. E nos convm sair juntos, longe do telefone e das constantes interrupes -justo enquanto estava falando, soou seu telefone mvel-. Diabos, acreditei que o tinha desligado -sorriu arrependido enquanto tirava o aparelho de um bolso do casaco-. Sim... no, agora no posso falar. Chamarei-te mais tarde -desconectou o telefone-. Me perdoe, Peggy.
-No se preocupe -no pde evitar perguntar-se se teria sido Carolyn quem o tinha chamado. Tinha empalidecido e a cor azul de seus olhos se obscureceu levemente-. Quem era?
-Uma chamada do escritrio -respondeu Brad enquanto pousava o olhar no delicado contorno de seus lbios-. Como te estava dizendo, acredito que precisamos tomar um tempo para ns sozinhos.... um tempo para nos sentar tranqilamente e decidir o que queremos fazer.
-Sim -o corao lhe pulsava rapidamente e se sentia um pouco enjoada.
-Encontra-te bem? -olhou-a franzindo o cenho.  
-Eu... a verdade  que este tema me pe um pouco nervosa -admitiu Peggy-, mas tem razo. Temos que comear a decidir o que vamos fazer durante os prximos quatro meses -encolheu-se de ombros, como desculpando-se.
-Ultimamente estiveste muito ocupada... -Brad a olhou com ternura-... me ajudando, colaborando comigo nessa festa beneficente que demos... -suspirou-. Estou seguro de que houve momentos em que te perguntaste... at que ponto te excedeste em suas obrigaes para comigo...
-No sou uma menina irresponsvel, Brad, que simplesmente fica sentada esperando que a entretenham, e voc sabe... interrompeu-o, incomoda-. Encantou-me trabalhar a seu lado.
-Diabos, Peggy, isso sei perfeitamente e nem por um momento estava me queixando de seu comportamento desde que nos casamos. Aprecio-o, de verdade que o aprecio em sua justa importncia. Suponho que queria te dizer que... de algum jeito me sinto um pouco culpado por te haver... forado a esta situao. Voc diz que sabia o que estava fazendo quando aceitou minha proposta de casamento... mas a verdade  que te encontrava em uma situao muito difcil e delicada. Estava muito afetada pela morte de seu pai...
-Se assim era como me sentia, surpreende-me que considerasse sequer a idia de me pedir que me casasse contigo... -murmurou Peggy.
-Acredite ou no, a tarde que fui ver-te para saber como estavas, no tinha planejado pedir que te casasse comigo -explicou-lhe Brad enquanto lhe cobria uma mo com a sua sobre a toalha da mesa-. Simplesmente olhei aos olhos e ento surgiu -esboou um meio sorriso-. Suponho que poderia dizer que foi um momento de debilidade da minha parte. Disse-me mesmo que no me convinha... que eras muito jovem. Mas depois pensei de repente: O que importa isso? Tenta-o.
Peggy no disse nada. Sabia muito bem que, por parte de Brad, somente se tinha tratado de um momento de debilidade. Tinha reagido assim por despeito, depois de ter sido rechaado pela Carolyn. E agora Carolyn tinha retornado e voltava a estar disponvel.
-Para que me est contando tudo isto? Vais dizer-me agora que temos que nos separar? -espetou-lhe Peggy.
-Claro que no. Contei-te tudo isto porque se aproxima nosso primeiro aniversrio e precisamos falar razoavelmente de uma srie de coisas.
-Assim aqui estamos, no Henry'S....revivendo a cena de nosso compromisso... desculpe, o momento histrico de nosso trato de negcios. Dessa forma poderemos dizer: Hei, j quase fechamos o crculo, vamos comear a falar agora da ruptura...
-No acredito que haja nenhuma necessidade de falar nesse tom... e tampouco de tomar decises to drsticas -reps Brad-. Sei que assinamos um acordo por um ano, Peggy, mas no tinha inteno de me separar bruscamente de ti ao final desse prazo e te dizer: muito bem, pois adeus, adeus.
Com o corao acelerado, Peggy se disse que Brad era sincero. Era muito cavalheiresco para fazer um algo parecido. Tinha sido muito amvel e carinhoso com ela durante o tempo que tinham passado juntos, tinha-lhe feito amor com deliciosa ternura e delicadeza. E nunca quereria lhe fazer dano. Para Brad ela ainda seguia sendo a menina que sua me tinha adorado. No a abandonaria sem mais.
-Peggy? Suponho que o que quero te dizer  que nem tudo tem por que terminar daqui ao final de quatro meses. De fato, acredito que deveramos seguir juntos durante um tempo...
-Sim, de acordo, Brad, j o captei -apressou-se a interromp-lo-. Pensarei sobre isso -por um instante percebeu que parecia muito tenso-. Deixemos de falar do futuro. Para ser sincera, j tenho bastante confrontando o presente.
-No s feliz? -olhou-a franzindo o cenho-. Eu tinha a impresso de que as coisas iam muito bem entre ns.
-Iam muito bem... vo muito bem -Peggy sacudiu a cabea-. Aprecio tudo o que tem feito por mim, Brad. Os investimentos que realizaste nos vinhedos, o tempo e o esforo que gastaste em restaurar minha casa, minhas terras...
-Pelo amor de Deus, Peggy, eu no quero sua gratido -interrompeu-a, furioso-. Tinha-me comprometido a fazer tudo isso.
-Sim, sei, tnhamos assinado um acordo -assentiu-. Mas no tinha por que fazer tudo isso por mim... gastar tanto dinheiro em me ajudar -sustentou-lhe o olhar com firmeza-. Dou-me conta de que isso formava parte do trato, mas inclusive assim te mostraste muito generoso comigo.
Brad abriu a boca para replicar algo, mas ela se apressou a continuar.
-S queria te agradecer.
-No me precisa agradecer - reps Brad.
-Eu acredito que sim. s vezes me sinto mal quando penso nas acusaes que te lancei... quando te culpava dos problemas econmicos de meu pai.
-Quisera no me ter sido obrigado a te dizer a verdade.
Nesse momento a garonete apareceu com seus pratos e seguiu um momento de silncio.
Peggy sabia que Brad era um homem decente e honesto. Como tambm sabia que ele acreditava que simplesmente lhe interessava o lado materialista de sua relao. Teria ficado apavorado se tivesse descoberto o medo que ela tinha de perd-lo. E se teria sentido culpado de ter sabido que estava esperando um filho dele.
Brad a queria como a uma amiga, nada mais. Quando lhe props que se casasse com ela, ele j tinha perdido  nica mulher que tinha amado. Peggy supunha que naquele tempo tinha considerado que tinha muito pouco a perder e muito a ganhar com aquele casamento, em plena campanha eleitoral para a prefeitura. Para Brad, o balano de seu acordo devia resultar muito satisfatrio. Os dois tinham conseguido o que queriam. Podiam separar-se amigavelmente, de um forma civilizada, sem recriminaes. Brad poderia inclusive retomar sua relao com Carolyn onde a tinha deixado, sem sentir a menor pontada de culpa.
A notcia de sua gravidez lhe sentaria como uma bomba. Peggy no podia lhe fazer isso.
-Passou quase um ano do falecimento de seu pai, no? -disse Brad de repente-. Achas que  por isso que agora se sente um pouco tensa... ou triste?
-Provavelmente -respondeu Peggy, agarrando-se a aquela desculpa para deixar de falar do final prximo de seu acordo-. Falemos de coisas alegres, certo? E deixemos o mais delicado para os meses que restam.
-Como quiser, Peggy -respondeu Brad depois de um momento de vacilao-. Faremos o que quiser.




Captulo 10

Peggy se sentou na varanda de sua antiga casa, com o olhar fixo na paisagem enquanto bebia a sorvos uma limonada fria. Os vinhedos brilhavam a luz do sol e uma suave brisa fazia sussurrar as folhas. vou ter um beb, disse-se enquanto se acariciava o ventre plano. Grvida de dez semanas... e Brad seguia sem sab-lo. O havia dito a Rosie, mas no a seu prprio marido. Sentia um pontada de culpa, mesclada com uma boa quantidade de ansiedade.
Teria que dizer a Brad, mas... quando? A data de seu aniversrio estava se aproximando. J s restavam nove semanas. O corao lhe acelerou ao pens-lo. Ouviu o distante som de um motor e descobriu o esportivo vermelho de Brad no caminho.
-Ron me disse que te encontraria aqui -disse-lhe assim que desceu do carro.
Vestia jeans e camisa cor azul clara. Pip, seu co lavrador, saltava alegremente a seu lado.
-Vi Ron recentemente -reps Peggy, e olhou seu relgio-. Hoje terminaste cedo de trabalhar. Acreditei que estaria no escritrio pelo menos at as seis horas.
-s quatro me cansei -sorriu-lhe enquanto se sentava a seu lado, no degrau da varanda.
Pip se acomodou a seu lado e apoiou a cabea em seu joelho, olhando a Peggy com seus grandes olhos tristes. Ela estendeu uma mo para acarici-lo.
-Ento, o que ests fazendo aqui? -perguntou-lhe Brad com tom animado.
-S estava relaxando... pensando -encolheu-se de ombros.
-Pensando na carta que recebeu esta manh? 
-Que carta? -ficou momentaneamente surpreendida por aquela pergunta.
-A de seu ex-noivo. Como se chama...?
-Josh -Peggy tinha se esquecido de que tinha recebido sua carta aquela manh-. Como sabia que era dele?
-Li seu nome e endereo no envelope quando o levei ao escritrio -sorriu-. Poderia chegar a ser um grande detetive, no te parece? -brincou.
-Provavelmente -Peggy lhe devolveu o sorriso.
-O que queria?
-S me dizia que seria bem-vinda se me decidisse a ir ver-lo. Que tem um bom emprego, que sua irm vai se casar... -encolheu-se de ombros-. Era uma carta como todas, nada especial.
-E vai?
Aquela pergunta a surpreendeu. Nem sequer se tinha detido a pensar no convite de Josh. Quereria Brad que fosse?, perguntou-se de repente. Estaria pensando que o fato de que estivesse com outro homem faria mais fcil sua ruptura? Que isso facilitaria a ele sua reconciliao com Carolyn sem que tivesse necessidade de preocupar-se com ela?
-Eu... acredito que no -teve que fazer um grande esforo para dominar o tremor de sua voz. Durante as ltimas semanas tinha conseguido deixar de pensar em Carolyn para concentrar-se somente no beb, em seu futuro. No queria comear a torturar-se de novo pensando em Carolyn e em Brad.
Detectou nos olhos entrecerrados de Brad um estranho brilho, e mudou bruscamente de conversa.
-Faz muito calor aqui fora para o Pip.
-Pobre Pip -exclamou Brad, e ao ouvir a voz de seu dono, o co levantou as orelhas-, venha, vou te dar um pouco de gua -levantou-se e o animal o seguiu obediente at a casa.
Quando retornou, Peggy j tinha conseguido recuperar-se um pouco. Brad voltou a sentar-se no degrau e Pip se aconchegou atrs deles,  sombra.
-No sei o que vou usar na festa desta noite -murmurou ela.
-Levarei-te a cidade e te comprarei um vestido novo, se quiser -ofereceu-lhe Brad, e olhou seu relgio-. Temos tempo.
-Obrigado -sorriu-lhe-, mas tenho suficientes j. Verei o que posso encontrar.
-Estar preciosa com qualquer coisa que usar. Simplesmente me tinha ocorrido essa idia para tentar te levantar um pouco o nimo.
Peggy o olhou arqueando uma sobrancelha, e Brad acrescentou a modo de explicao.
-Dei-me conta de que faz um momento parecia um tanto abatida, quando te falei de Josh.
No estava abatida. Eram imaginaes tuas -apressou-se a replicar.
-Uma vez Josh te pediu que fosses viver com ele, que compartilhasse seu apartamento, verdade?
-Eu jamais disse algo parecido -sorriu Peggy.
-Pois eu acreditava que sim -reps Brad-. Parece-me recordar algo sobre isso... em qualquer caso, acredito que fez o mais adequado ao ficar aqui.
-Por que diz isso? -voltou-se para olh-lo.
-Porque eu sou um partido muito melhor,  obvio -havia um brilho de humor em seus olhos.
-Certamente, pouco modesto -riu Peggy.
-Admite-o.Poderia ter cado em piores mos.
-Admito-o. Poderia ter cado em piores mos -repetiu Peggy com voz rouca.
Seguiu um momento de tenso silncio.
-Estava sentada aqui mesmo na primeira vez que te vi. Lembra-te? -perguntou-lhe Brad.
Aquela sbita mudana de conversa a surpreendeu.
-Sim, claro que me lembro -riu ao pensar nisso-. Era uma menina horrvel, verdade?
-Tinha um sorriso fantstico -olhou-a pensativo-. Ainda o tem.
A Peggy lhe acelerou o corao. Amava-o tanto.... de repente Brad desviou o olhar para contemplar a paisagem.
-Que idade tinhas? Treze anos?
-Sim -assentiu ela-. Vi-te no primeiro dia que papai e eu nos mudamos para c. Recordo-o com toda clareza. Era a primeira vez que via meu av -explicou com a vista fixa nos vinhedos- Papai e o vov haviam brigado anos atrs. Ignoro por que. Possivelmente meu pai j jogava naquela poca. S quando minha me morreu reconciliaram-se -olhou a Brad-. Note.Se meu pai e meu av no tivessem tido essa discusso... ou o que fosse... eu podia ter nascido aqui. A primeira vez que me viu eu poderia ter sido um beb, e teria me embalado em seus joelhos.
-Bom, muito obrigado, Peggy Monroe -grunhiu Brad fingindo-se incomodado-. Eu acreditava que j tinha bastante com que Carolyn me tivesse chamado corruptor de menores durante aquela festa beneficente.
-Quinze anos no  tanta diferena -apressou-se a dizer Peggy, um pouco desgostada por aquela meno a Carolyn-. Sobretudo quando eu j sou mais velha.
-Diz-o como se fosse uma espcie de Matusalm -riu Brad-. Tem vinte e trs anos, pelo amor de Deus.
-Sim. Com treze anos s era uma menina... mas agora sou uma mulher.
-Sim... toda uma mulher -olhou-a e sorriu-. O dia que te vi pela primeira vez, jamais me ocorreu pensar que terminaria me casando contigo.
-O que pensava de mim? -Peggy no pde evitar lhe fazer essa pergunta.
-Pensava que eras uma colegial desengonada -riu ao ver sua expresso contrariada-. Com um bonito, precioso sorriso -apressou-se a acrescentar-. J sabe que naquela poca eu tinha uma namorada muito bonita.
-Me lembro dela... uma morena. Usava umas calas curtas realmente diminutas e estava acostumado a te ajudar com os vinhedos. Olhava-te batendo os clios e te chamava pastelzinho de mel.
-De verdade? -inquiriu Brad, horrorizado-. No consigo recordar isso -sacudiu a cabea e a olhou-. Lembra-te de muitas coisas....
-Naquele tempo j pensava que eras um homem muito bonito -admitiu Peggy, e no pde resistir a acrescentar, brincalhona - E muito velho -ps-se a rir ao ver o olhar de rancor que lhe lanou.
-Retira isso agora mesmo.
-No -riu entre dentes e imediatamente Brad a agarrou pelos ombros.
-Retira-o. Pensava que eu era um cara fantstico e estava louca por mim. Diga-o -insistiu enquanto ela se debatia em seus braos.
-No, no pensava isso -murmurou Peggy, rindo sem flego.
-Retira-o -exigiu Brad com um brilho zombador nos olhos, aproximando-a para si e lhe segurando as duas mos com uma mo-. Ou o sentir.
-Pra, pra -gritou Peggy.
-Pois ento retira o que disse -insistiu Brad, erguendo-se.
De repente foi como se a atmosfera entre eles mudasse radicalmente. Brad deslizou o olhar por sua esbelta figura, por sua tez acetinada. Seu cabelo, escuro e despenteado, contrastava com seu vestido branco. Peggy se umedeceu os lbios com a lngua e esse gesto no lhe passou inadvertido.
-Sabe? Faz tempo que no fazemos amor -Brad sussurrou aquelas palavras contra seus lbios enquanto se inclinava para beij-la.
Peggy aspirou profundamente enquanto ele aprofundava seu beijo. Depois jogou os braos no seu pescoo, enterrando os dedos em seu cabelo, perdendo-se em suas carcias, em seu calor...
De repente Brad se apartou. Olhando-a com uma pergunta em seus olhos escuros. O silncio entre eles reverberava de sentimentos no expressos, de palavras sem pronunciar.
-Ainda me deseja... verdade?
Antes de que Peggy pudesse responder, Pip saltou a suas costas e comeou a ladrar.
Brad levantou o olhar e esboou uma careta de desgosto ao ver o carro de seu agente estacionando frente a eles.
-J vejo que a encontraste -disse Ron com um sorriso enquanto descia do veculo.
-Sim... encontrei-a -Brad deixou de abraar a Peggy.
-S queria te recordar que te tinhas comprometido a assinar as folhas de pagamento antes das cinco e meia. Os trabalhadores...
-Oh, diabos -Brad se passou uma mo pelo cabelo-. Sinto muito. Vou agora mesmo.
Levantou-se enquanto Peggy se alisava o vestido e se retocava o cabelo, envergonhada.
-Peggy, quer voltar comigo em meu carro?
-No, tenho o meu aqui. Retornarei dentro de um momento.
Enquanto Brad se afastava, Peggy pensou no beijo que lhe tinha dado. Possivelmente nem tudo estivesse perdido. Aspirou o ar levemente perfumado da tarde. Tinha que lhe dizer sobre o beb, mas esperaria o momento mais adequado. E decidiu de repente que o diria nessa mesma noite, quando voltassem da festa.

Peggy se retocou um pouco os lbios antes de colocar seu vestido azul de noite, que ressaltava de maneira incrvel sua figura. A gravidez no se notava absolutamente. Inclusive parecia mais magra que antes.
Olhou seu relgio de ouro. Brad estava se atrasando. Supunha-se que tinham que estar na festa s sete horas e j eram seis e meia e demorariam uma meia hora em chegar.
Brad entrou na habitao justo no momento em que ela estava tentando em vo fechar o colar de esmeraldas.
-Sinto muito, querida -olhou-a, e imediatamente se aproximou de ajud-la-. Ests fabulosa -disse-lhe com tom suave.
-Obrigado... mas no temos muito tempo. Tens que andar depressa.
-Eu? -franziu o cenho, e depois olhou seu relgio-. Maldita seja -exclamou, e correu a tomar banho. Peggy no pde fazer nada a no ser rir. -Esperarei-te l embaixo.
Recolheu seu xale de seda, que tinha deixado sobre a cadeira da penteadeira. Estava bebendo um copo de gua gelada quando Brad desceu, imponente com seu traje escuro. Seus olhares se encontraram intercambiando uma tcita mensagem.
-Que pena que fomos interrompidos desta tarde -sorriu-lhe ele-. Talvez esta noite poderamos retomar o que tivemos que interromper... -arqueou as sobrancelhas de uma maneira um tanto zombadora que a fez rir-. O que te parece?
Peggy sorriu enquanto Brad a aproximava para si para beij-la apaixonadamente nos lbios. E ainda tremia quando segundos depois se dirigiam para o carro.
A festa tinha sido organizada para comemorar o aniversrio de um luxuoso clube dos subrbios da cidade. A venda dos ingressos tinha sido um grande xito, a julgar pela grande quantidade de carros que enchiam o estacionamento. Brad encontrou um lugar livre e se dirigiram juntos para o edifcio.
-Peggy, me alegro em ver-te -Eric se dirigiu a seu encontro assim que entrou no salo de baile.
Enquanto o jovem a beijava efusivamente nas bochechas, Peggy intercambiou um simptico olhar de cumplicidade com seu marido.
-J lhe disse isso -sussurrou-lhe Brad ao ouvido, para que o outro no o ouvisse-. Est louco por ti.
Peggy sorriu e sacudiu a cabea. Depois, momentaneamente, separaram-se quando diversas pessoas  reclamaram sua ateno. Peggy sentia falta da companhia de Rosie. Quando antes a tinha chamado por telefone, Mike lhe havia dito que lhes seria impossvel comparecer a festa. J sabia que no iam poder, mas o tinha tentado de todas maneiras.
Brad lhe levou uma taa de vinho branco e ela a aceitou, mas s porque no queria que se inteirasse de que tinha deixado de beber. Na primeira oportunidade, deixou a taa sobre uma mesa.
-Espero que isso no seja lcool.
Ao reconhecer aquela voz, Peggy se girou em redondo.
-Rosie! Acreditava que no ias vir!
-A me de Mike se ofereceu para cuidar de William por algumas horas e, para ser sincera, morria de vontade de sair. Fazia meses que no ia a nenhuma parte. Acabamos de comprar os ingressos.
-Como est William? -perguntou-lhe Brad.
-Dando muitos problemas -respondeu Rosie, irnica-. Desde que nasceu no consegui dormir nenhuma s noite inteira.
-Pois apesar de tudo tem muito bom aspecto -comentou Brad com um sorriso.
-Eu adoro seu marido, Peggy -reps Rosie, agarrando-o pelo brao.
-Oh, sim... Bom, a que vem tanta adulao? O que  que vais nos propor? -inquiriu Brad, olhando-a com expresso zombadora.
-S duas coisas... -Rosie sorriu a Peggy-. Oua, seu marido me conhece muito bem.
-Venha, dispara -urgiu-a Brad.
-O primeiro, j pedi a Peggy que seja a madrinha de William... voc quer ser o padrinho?
-Ser uma honra, Rosie -aceitou sorridente-. Por um momento acreditei que ias nos pedir que  cuidssemos do menino.
-Pode faz-lo quando quiser -apressou-se a dizer Rosie-. Assim ir adquirindo prtica para... -interrompeu-se ao ver a horrorizada expresso de Peggy-. Bom, o segundo pedido  o seguinte -apressou-se a continuar, procurando dissimular aquele engano- o que vo fazer na tarde do... -interrompeu-se para procurar algo em sua bolsa-. Ah, aqui est -disse quando encontrou sua agenda e leu uma data determinada.
Um tenso silncio seguiu a suas palavras. Era a data do primeiro aniversrio de casamento, um dia no qual Peggy ultimamente tinha procurado no pensar.
-No... no sei, Rosie -respondeu tensa, sem atrever-se a olhar a Brad.
-Bom, pois pensam nisso e me do uma resposta -disse Rosie, encolhendo-se de ombros-. Mike e eu estamos preparando um churrasco... nada especial, algo em plano ntimo.
Nesse momento algum reclamou a ateno de Brad e Rosie tomou Peggy pelo brao.
-Ainda no lhe contaste do beb? -perguntou-lhe, olhando-a com os olhos muito abertos.
-No tive uma boa oportunidade... -Peggy se mordeu o lbio-. Mas esta noite vou dizer-lo.
-Bem. Morro para dar ao Mike a boa nova.
Mike se reuniu com elas naquele momento.
-E William chorando toda a noite -Rosie apressou-se a mudar de tema.
Peggy escolheu um suco de laranja de uma bandeja de bebidas que lhe ofereceu um garom. No outro lado do salo seu olhar tropeou de repente com Carolyn. Como sempre, ia vestida para chamar o mximo de ateno. Usava um vestido longo, de cor preto brilhante, muito justo. Rosie seguiu a direo de seu olhar.
-Suponho que sabe que Carolyn tem rompido com seu marido -comentou-lhe em voz baixa.
-Tinha ouvido algo -Peggy tentou no parecer interessada.
-Surpreende-me v-la aqui esta noite. Tinha entendido que este fim de semana se encontrava em So Francisco ultimando os detalhes de seu divrcio.
-Assim definitivamente vo divorciar se? -Peggy tinha ficado gelada ao conhecer aquele detalhe-. Como te inteiraste disso?
-Bom -Rosie se encolheu de ombros-, j sabe como correm as notcias... H inclusive rumores de que talvez poderia voltar a residir nesta cidade... apesar de toda essa retrica a respeito de que odiava viver aqui.
No gosta desta cidade, mas sim gosta de Brad, pensou Peggy, abatida.
A adrenalina comeou a circular velozmente por suas veias ao ver Brad dirigindo-se para Carolyn.
Depois sua ateno se viu distrada por algo que Mike disse e quando voltou a olhar, j no viu Brad e  Carolyn em nenhuma parte. Buscou-os com o olhar por todo o salo, mas havia muita gente. No podia distinguir seus rostos entre os casais que danavam.
Mike e Rosie estavam absortos em sua conversa e Peggy se desculpou com eles para perder-se entre a multido, em busca de Brad e de Carolyn. De repente no se sentiu bem. Possivelmente fosse a quantidade de gente que havia ou possivelmente fosse o fato de que estava aterrada. Dirigiu-se s portas que levavam a jardim, com a inteno de respirar um pouco de ar puro.                
O estalo de um isqueiro ao acender-se no outro lado do alpendre surpreendeu Peggy, e se voltou rapidamente.
Carolyn se encontrava entre as sombras, sozinha. Por um momento seu rosto ficou iluminado pela luz do isqueiro enquanto acendia um cigarro.
-Ora, Peggy, que surpresa. No ficaste de encontrar algum aqui, verdade? -ps-se a rir-. Possivelmente com Eric... ou com o outro jovem bonito com quem danou naquela festa beneficente... como se chama?
-Me diga, Carolyn, por que teria que estar interessada em qualquer homem quando tenho Brad? Estou muito apaixonada pelo meu marido.
-Que enternecedor -Carolyn se aproximou, sorrindo-. E se Brad e eu estivssemos esperando que nos fizesse um favor indo embora com outro homem?
-Ests de brincadeira? -perguntou-lhe Peggy, nervosa.
-Vamos, Peggy, sabe perfeitamente que segue havendo algo entre Brad e eu. Assim que nos encontramos, volta a surgir a atrao -Carolyn se encolheu de ombros-. Sei que Brad tentou resistir, mas no poder evit-lo. Chama-o de qumica, se quiser.
-Ou fantasia -apressou-se a replicar Peggy-. Por que no me faz um favor e te mantm afastada de meu marido? Voc no o ama.
-Como sabe? -aspirou uma ltima baforada de fumaa e atirou ao cho o cigarro-. Brad e eu temos uma relao muito ntima... como nos velhos tempos.
-Se isso for certo, por que o abandonou para te casar com Robert Hicks? -perguntou-lhe Peggy, furiosa-. Se o amasse de verdade, no lhe teria feito tanto dano.
-Robert me prometeu tudo... tudo o que quisesse -encolheu-se de ombros-. Foi um erro... paguei por isso e Brad j me perdoou -como Peggy no disse nada, acrescentou sorrindo- Sabe? Brad ainda me ama. Oh, no gostaria que voc soubesse, j que se mostra muito protetor contigo.  um verdadeiro cavalheiro, no?
-No engane a ti mesma, Carolyn -replicou Peggy com frieza-. Brad s se compadece de ti porque atualmente ests vivendo uma situao difcil.  simplesmente desprezvel que tente te aproveitar dessa situao.
-E voc tem a frescura de falar de aproveitar-se de uma situao... -espetou-lhe Carolyn furiosa-. Ao menos eu no sou uma caa-fortuna.
-Que diabos quer dizer com isso? -Peggy franziu o cenho.
-Sei tudo a respeito dos problemas econmicos que tinha antes de te casar com Brad. Sei que seu pai era um jogador compulsivo e que Brad teve que salv-lo vrias vezes da bancarrota.
-Como sabe isso? -perguntou-lhe Peggy com voz trmula.
-Brad e eu no temos segredos -Carolyn sorriu ao ver a intensa palidez da expresso da jovem.
Peggy se passou uma mo tremente pelo cabelo. Sentia umas terrveis nuseas... nauseia de dor e de desespero.
-Ele nunca te quis -burlou-se Carolyn-. Ficou contigo por despeito a mim e porque se compadecia de sua situao.
Por um instante uma expresso de triunfo se pintou em seu rosto ao ver o desconcerto da jovem. Depois girou sobre seus calcanhares para voltar para a festa.
O som da msica e das risadas procedente da pista de dana parecia crescer em intensidade at ensurdecer Peggy. As ltimas palavras de Carolyn ressonavam uma e outra vez em seu crebro: ele nunca te quis... Emitiu um tremente suspiro e lentamente voltou para a festa.
Brad se encontrava no outro extremo do salo, pronunciando um discurso. Peggy pensou que o fato de que tivesse falado com Carolyn a respeito de sua situao lhe resultava incrivelmente doloroso. Doloroso, mas no estranho. Carolyn era a mulher a quem realmente amava, com quem tinha querido casar-se.
Fortes aplausos estalaram no salo quando Brad terminou seu discurso. Ao descer do estrado, viu Peggy e lhe sorriu.
Ela no pde lhe devolver o sorriso. A habitao estava girando a seu redor. Sentia-se acalorada, enjoada. Teve que apoiar-se em uma mesa prxima.
-Encontra-te bem, Peggy? -perguntou-lhe algum.
Era consciente de que a seu redor se levantou um murmrio de preocupao, mas no podia distinguir nenhum rosto.
No momento seguinte se encontrou nos braos de Brad. Depois tudo ficou escuro.



Captulo 11

Quando Peggy abriu os olhos se encontrou nos braos de Brad, que a estava tirando do salo. Pde ouvir a voz de Rosie, terna e reconfortante.
-Ficar bem depois de respirar ar fresco.
-Meu Deus, espero que sim -reps Brad com um tom de extrema preocupao-. Estava mal h vrios dias. Deveria ter insistido que fosse ver um mdico -sentou-a delicadamente em uma das cadeiras do exterior-. Peggy, Peggy... pode me ouvir?
-Acredito que o doutor Riley est aqui. Esto procurando-o no salo -disse Rosie, sustentando na mo um copo de gua-. Peggy, gostaria de beber um pouco de gua?
-No quero ver o mdico -murmurou-. J estou bem.
Olhou a seu redor, assustada. Tinha um medo horroroso de que o doutor Riley se apresentasse ali e revelasse a Brad que estava grvida.
-O mdico tem que te examinar -Brad tomou o copo que Rosie sustentava e o aproximou dos lbios de Peggy.
-S foi o calor... -sentia-se muito melhor depois de beber o lquido-. No h necessidade de montar um escndalo.
-Acredito que j o montamos -reps Rosie, irnica-. De verdade te encontras bem? -perguntou-lhe com tom suave.
-Sim, s preciso ir para casa e me deitar. Ficarei bem.
-Est comeando a recuperar a cor nas bochechas -comentou- Rosie a Brad-. Possivelmente seria melhor que a levasse para casa. Amanh pela manh poder chamar o doutor Riley.
Peggy se disps a levantar-se da cadeira e imediatamente Brad lhe passou um brao pelos ombros.
-Chamarei-te pela manh, Rosie -despediu-se ela-. Obrigado por tudo.
-Como se sentes agora? -perguntou-lhe Brad com tom preocupado minutos depois, quando j se dirigiam a casa em seu esportivo.
-Te tranqilize, Brad, por favor. Estou bem.
Seguiu um tenso silncio at que entraram no imvel e distinguiram ao longe a silhueta da casa. 
-Voc viu muito a Carolyn desde que ela voltou? 
-Vimo-nos em umas poucas ocasies. No outro dia foi ao escritrio e tomamos uma taa.... 
-S isso? -murmurou Peggy, irnica. Brad freou e apagou o motor. Estavam estacionados  sombra de uns enormes eucaliptos. Peggy podia reconhecer seu denso e fresco aroma no ar da noite.
-Pensa o que quiser -Brad se voltou para ela-, mas queria me falar da ruptura de seu casamento.
-Trocando fofocas, suponho. Ela te falou de seu divrcio e voc lhe contou de nosso acordo.
-Jamais lhe mencionei o nosso acordo. 
-Mentiroso -estalou, furiosa-. Conhece toda minha histria pessoal. Sabe da afeio ao jogo de meu pai e dos problemas econmicos que tinha antes de te conhecer.
-Peggy, eu nunca contei a Carolyn nenhuma s palavra a respeito disso.
-Ento como sabe?
-Esteve em minha casa na noite em que seu pai foi pedir-me que lhe ampliasse o prazo de devoluo do emprstimo. Pedi-lhe que sasse  varanda enquanto ns falvamos -Brad se encolheu de ombros-. Mas seu pai perdeu a pacincia e... bom, levantamos a voz. Carolyn devia ter escutado tudo.
Peggy s podia pensar na especial relao ntima que Brad e Carolyn compartilhavam. No tinham segredos um para o outro. Dava-se conta de que esteve se enganando todo o tempo. Brad ainda amava  Carolyn e os dois s estavam esperando a oportunidade mais adequada para retomar sua relao.
O corao lhe pulsava acelerado quando saiu do carro e se dirigiu para a casa, seguida de perto por Brad.
-Olhe, Peggy, eu no me preocuparia com o que Carolyn pudesse dizer de seu pai ou de qualquer outra pessoa. Pedi-lhe que no repetisse a ningum o que tinha ouvido. Suponho que pensou que no importaria que repetisse isso a ti.
-Bom, pois sim que importa -Peggy detestava a maneira em que Brad defendia  outra mulher.
-Todo isso pertence ao passado -disse-lhe ele com tom suave.
-No, Brad. Embora talvez sim.... O passado nos acompanha neste mesmo momento. No  essa a razo pela que estamos juntos? -girou sobre seus calcanhares para olh-lo e nesse instante voltou a sentir-se terrivelmente fraca, como se tudo aquilo fosse muito e seu corpo estivesse lhe pedindo a gritos que se detivesse.
-Peggy? -aproximou-se dela com rapidez, segurando-a por um brao-. Venha, vamos para cima. Realmente no est em condies de sustentar uma discusso.
A jovem no se ops, e lhe permitiu que a ajudasse a subir as escadas. Sentar-se na cama foi um imenso alvio. Observou como Brad se agachava para lhe tirar os sapatos.
-O primeiro que farei pela manh ser chamar o doutor Riley -disse ele.
Peggy estendeu uma mo e lhe acariciou o cabelo com ternura, recordando de repente a noite de amor que lhe tinha proposto antes. Seus sonhos a respeito de que algum dia Brad pudesse chegar a am-la tinham sido um puro absurdo. Agora o via claro.
-Se no se sentir o bastante bem para ir comigo  clnica, ento o mdico vir aqui -continuou Brad com energia-. Deveria ter ido ver-lo faz sculos, quando comeou a te sentir mal.
-E o fiz.
Brad franziu o cenho e levantou o olhar para ela.
-Fez-o?
-Estou grvida, Brad... Por um segundo a expresso de imenso assombro que se pintou em seu rosto quase resultou cmica.
-Grvida? -olhava-a sem poder acreditar-lhe. Quando ela assentiu com a cabea, Brad lhe perguntou assombrado- Por que no me disse isso? De quanto tempo ests?
-De dez semanas. Olhe, j sei que tudo isto  um erro, mas  meu erro e assumirei as conseqncias -disse-lhe Peggy tentando parecer decidida... e mostrar uma aparncia tranqila e confiante. 
-O que quer dizer com isso? 
-Quero dizer que  meu beb e assumirei a inteira responsabilidade de... -interrompeu-se ao ver a sombria expresso de Brad.
-No far tal coisa -passou-se uma mo pelo cabelo, nervoso-. Possivelmente tenhas perdido algumas lies na escola, Peggy, mas posso te assegurar que se necessitam duas pessoas para fazer um beb. Essa responsabilidade  to minha como tua.
-No seja brincalho. Estou tentando te dizer que isto no quer dizer que os dois tenhamos que seguir juntos. 
Brad sacudiu a cabea, e depois se levantou para aproximar-se da janela, pensativo. Por um momento permaneceu de costas para Peggy, sumido em um completo silncio. 
-Desde quando sabes?
-No sei -encolheu-se de ombros em um gesto de impotncia-. Eu... eu suponho que soube com certeza no dia em que fomos ver Rosie no hospital.
-Faz semanas isso -Brad sacudiu de novo a cabea-. Ainda sigo assombrado por sua arrogante hiptese de que voc  quo nica pode tomar decises em um assunto que corresponde aos dois -nesse momento parecia furioso-. Em qualquer caso, suponho que j est planejando sair quanto antes de minha vida, no?
-No acredito que um beb seja uma boa razo para que sigamos juntos -reps ela com tom tranqilo.
-Ento, o que pensa fazer? Pegar meu filho e partir com seu antigo noivo? Detesto a idia de destroar os sonhos romnticos que possa ter na cabea, Peggy, mas esse  meu filho e voc no ir a nenhuma parte.
-Voc no pode me dar ordens -Peggy sacudiu a cabea-. Temos um acordo, Brad. O que era que me deixaste claro desde o princpio? Que as crianas no formavam parte desse acordo.... e que no pensasse em formar uma famlia contigo -brilhavam-lhe os olhos-. Me desculpe por no recordar as palavras exatas, mas acredito que essa era a mensagem.
-Estava tentando ser responsvel -replicou, furioso-. As crianas so um compromisso para toda a vida e...
-E voc no queria um compromisso desse tipo comigo -ela apressou-se a interromp-lo -. Sei, assinei esse maldito contrato. Estive de acordo com seus termos. No quero me encerrar para sempre na armadilha de um casamento sem amor.
Por um segundo pareceu como se o tivesse golpeado fisicamente com suas palavras. Peggy teve que desviar o olhar, e acrescentou com crueldade.
-Sinto ter ferido seu orgulho masculino, mas voc sabe que  verdade. E posso te assegurar que no tenho nenhum sonho romntico na cabea. Faz muito tempo que deixei de sonhar com essas coisas -fechou os olhos e assaltou sua mente a imagem de Brad abraando Carolyn.
-Ao menos quer ter o beb? -perguntou-lhe Brad.
-Sim, claro que quero ter -respondeu com deciso-. E se pensa me sugerir que... me dele desfaa ou o entregue em adoo, ento est perdendo teu tempo -por um instante lhe quebrou a voz, emocionada.
-Seria incapaz de te sugerir algo parecido -Brad aspirou profundamente e se sentou na cama a seu lado, olhando-a intensamente aos olhos-. Acreditava que me conhecia melhor -pegou-a pelas mos-.  por isso pelo que no me disse que estavas grvida? Porque temia que eu pudesse te convencer de que te desfizesse do beb?
-No -olhou-o nos olhos, comovida por sua expresso de tristeza-. No... no foi por esse motivo. Conheo-te melhor que isso -esboou uma careta-. Suponho que pensava que me diria que devamos seguir juntos pelo bem do beb... era isso o que eu temia.
-Temia ficar comigo? -perguntou-lhe Brad com voz baixa e rouca.
-Temia-o porque no era isso o que tnhamos planejado -admitiu, sincera-. No quero que terminemos nos odiando um ao outro, Brad. Que nos sintamos apanhados, que nos enchamos de rancor...
-Eu tampouco quero isso.
-Ento o melhor  que nos separemos...
-No -interrompeu-a-. No posso te deixar, Peggy -deslizou o olhar pelo suave e delicado contorno de seus lbios-. Agora no.
Peggy desviou o olhar sem saber se gritava de puro alvio ou de desespero, porque sabia que no mais profundo de seu ser Brad amava Carolyn. Mas seu sentido do dever era muito forte para permitir simplesmente seguir os impulsos de seu corao e esquecer-se de todo o resto.... Apesar de si mesmo, Brad ficaria com ela. Desde o comeo tinha adivinhado que essa seria sua reao.
Se ainda restava um pouco de orgulho, era ela quem tinha que abandonar a ele,  fora.
-Pode ser que no fosse isto o planejado, Peggy, mas o destino trabalha de maneiras muito diferentes -havia um brilho quente e ao mesmo tempo zombador em seus olhos enquanto lhe levantava o queixo para obrig-la que o olhasse-. No achas que, de algum jeito, devemos a nosso beb a necessidade de  conceder uma nova oportunidade ao nosso casamento? -perguntou-lhe com tom suave-. Eu acredito que poderamos obt-lo.
-Inclusive sem amor?
-H algum amor maior que o que sentem os pais por seu filho?
Peggy desviou o olhar. Poderia Brad sacrificar seu amor por Carolyn sem arrepender-se? E deveria ela aceit-lo sob aquelas condies? Tinha que pensar no bem de seu filho.
-No acredito que fosse to mau pai -acrescentou Brad com um sorriso-. Preocuparia-me e faria todo o necessrio. Inclusive pediria emprestado a Mike esse livro que tanto gostava, e aprenderia ele de cor.
Peggy no pde menos que comear a rir, apesar de que tinha os olhos cheios de lgrimas.
-No te atreva a pedir a Mike esse livro. Rosie ficou louca com ele durante todo a gravidez.
-O que me diz? -perguntou-lhe Brad, sorrindo-. Dar-me uma oportunidade de ser um pai moderno?
Comovida, Peggy apoiou a cabea em seu ombro. Queria a esse homem mais que a nenhum outro no mundo... e seria capaz de lhe dar qualquer coisa apesar de seu orgulho.
-Me abrace, Brad -sussurrou-lhe com tom suave.


Captulo 12

-Achas que ele gostar? -perguntou Peggy a Rosie enquanto mostrava o relgio de ouro. 
-Claro que sim.  um presente maravilhoso, Peggy.
 J era meia tarde e voltavam da cidade no carro de Rosie depois de uma excurso de compras no isenta de certa tenso. A tenso se havia devido a William, que invariavelmente se ps a chorar em cada uma das lojas em que tinham entrado. Nada tinha bastado para aplac-lo. Nem os mimos, nem a mamadeira, nem os brinquedos... S se tinha acalmado quando ao fim saam da loja em questo. Ento voltava a ser todo sorrisos.
Peggy lanou um olhar ao pirralho, que tinha adormecido no banco traseiro.
-O pobrezinho deve estar esgotado -murmurou com um sorriso.
-No  de se estranhar -Rosie sacudiu a cabea-. J lhe disse isso: Wills  um homem tpico. Todos nascem assim. Mike faz o mesmo quando entramos em uma loja. Sussurra e se queixa at que consegue sair.
Peggy se ps a rir e voltou a guardar o presente de Brad em sua caixa.
-O que achas que Brad te comprar? -perguntou-lhe Rosie.
-No sei.
-Eu lhe lanaria algumas indiretas se fosse voc -disse Rosie. J sabe a que me refiro. Ontem vi um diamante precioso. Por certo, este ano esto de moda, querido...
-No me surpreende que Mike sofra desvanecimentos quando sai contigo as compras -riu Peggy.
-A propsito de desvanecimentos, como foi sua ltima consulta mdica?
-Maravilhosa. O doutor Riley me deu muito nimo. Disse a Brad que deixasse de preocupar-se.
-Estava preocupado pelo desmaio que sofreu naquela noite -disse Rosie, sacudindo a cabea-. Mas  que ento tinha um aspecto horrvel. Nunca tinha visto ningum to plido... -nesse instante deteve o carro diante da casa de Peggy-. De quem  esse esportivo verde?
-No tenho nem idia -respondeu Peggy-. Algum que ter vindo ver Brad. Ultimamente est levando muito trabalho a casa -desabotoou-se o cinto de segurana-. Quer entrar e tomar um caf?
-Melhor no -lanou um olhar a seu filho, que seguia dormindo-. Tenho que levar William para casa. Depois terei que lhe dar de comer.
-Bom. Obrigado por ter te atrevido a ir s compras comigo -disse-lhe Peggy enquanto recolhia suas bolsas.
-E eu sinto que tenhamos tido que cortar nossa excurso -reps Rosie com um sorriso-. Mas acredito que nenhuma das duas tivesse podido resistir nem um ataque de pranto mais . Hei, no se esquea de que manh pela tarde temos o churrasco. J sabe, em plano ntimo e familiar. Esperamo-lhes por volta das doze e meia.
Peggy vacilou por um instante. Com a preocupao por seu aniversrio de casamento, esqueceu-se de que Rosie organizava um churrasco para esse mesmo dia.
-No ter mudado de idia, verdade? -perguntou-lhe sua amiga, abrindo muito os olhos.
-Oh, claro que no. So muito amveis em nos convidar -apressou-se a dizer Peggy. Estava segura de que Brad no tinha organizado nada para o dia seguinte. Possivelmente aos dois resultasse mais fcil evitar a data e no ter que pensar mais nela.
-Recorda: s doze e meia -voltou a lhe dizer Rosie enquanto Peggy se inclinava para beij-la nas bochechas-. At manh.
Assim que Peggy entrou em casa, reconheceu a voz de Carolyn.
Deixou as bolsas sobre a mesa do vestbulo justo quando Brad e Carolyn saam da sala. A mulher ia vestida de maneira muito elegante, com um traje de cala cor azul escura, que contrastava com sua preciosa cabeleira loira.
-Peggy, que agradvel surpresa... Que bom que te vejo antes de partir  -exclamou imediatamente com um tom to falsamente doce, que a jovem sentiu a entristecedora tentao de lhe abrir a porta e jog-la a pontaps.
-O que te traz por aqui, Carolyn?
-Somente vim para me despedir. Amanh volto para So Francisco. Robert e eu chegamos a um amistoso acordo sobre nossa propriedade da costa, mas ainda h muitos detalhes para solucionar.
Peggy percebeu de repente que seus olhos estavam ligeiramente inchados, como se tivesse estado chorando.
-Brad me esteve contando sobre o beb. Felicidades.
-Obrigado -reps Peggy com voz tensa, imaginando se o que Brad lhe teria dito sobre o beb tinha sido um erro, mas que se sentia obrigado moralmente a ficar com ela. Obrigou-se a acrescentar com tom ligeiro- Os dois estamos encantados com a notcia -os olhos lhe brilhavam de emoo quando se voltou para olhar a Brad.
Por um momento, o habitual bom humor que refletia o olhar de Brad foi substitudo por uma expresso de tal melancolia, que Peggy sentiu que o corao lhe acelerava ao v-lo.
-Aposto que sim -havia um ligeiro tom na voz de Carolyn, um tom de desprezo e amargura. Depois olhou seu relgio de pulso-. Bom, ser melhor que eu v. Tenho uma viagem muita longa pela frente -aproximou-se de Brad para lhe beijar nas bochechas-. Te cuide -sussurrou-lhe com tom suave.
-Voc tambm -reps Brad.
O timbre do telefone interrompeu o tenso silncio que se abateu sobre eles.
-Eu atenderei -disse ele. Levantou uma mo para saudar Carolyn, mas no se voltou para olh-la quando desapareceu em seu escritrio.
Seguiu outro momento de silncio enquanto Peggy tentava desesperadamente aceitar o fato de que Brad se sentia muito abalado por aquela separao.
-Vais sair agora mesmo para So Francisco? -perguntou a Carolyn enquanto a acompanhava at a porta.
-Sim... estou segura de que isso te ser um grande alvio -replicou bruscamente a mulher.
Peggy no respondeu. Sim, sentia alvio... misturado com uma sensao de culpa por ter-se interposto na felicidade de Brad, que evidentemente queria Carolyn com todo seu corao. Nunca o tinha visto to emotivamente abalado como naquele instante, fazia to somente uns minutos. Era como se sua mscara de segurana e confiana em si mesmo tivesse cado por uns segundos, deixando expostos seus verdadeiros sentimentos. Se ela tivesse sido melhor pessoa do que era, nesse mesmo momento teria ido busc-lo em seu escritrio para lhe dizer que ficasse com Carolyn. Fechou os punhos ao pensar nisso. Possivelmente fosse um trao de debilidade e egosmo por sua parte, mas no acreditava ter a coragem suficiente para fazer algo parecido. Necessitava tanto de Brad...
-Espero que tudo v bem -disse-lhe com tom suave a Carolyn, com uma sinceridade que a surpreendeu.
-Um gesto muito benevolente por sua parte -olhou Peggy de cima a baixo, vestida com uma camiseta e uma saia longa de cor branca o suficientemente folgadas para dissimular sua gravidez, embora ainda no se notasse muito-. Mas suponho que se pode permitir isso. Arrumaste isso para usar o truque mais velho do mundo com o fim de reter a seu homem... s espero que possa viver com o convencimento de que  a mim a quem Brad realmente quer.
-Isso no  verdade, Carolyn -replicou Peggy com voz trmula.
-No? J o veremos -sorriu Carolyn-. Pode ser que tenha ganho a batalha, mas no a guerra. Dei a Brad meu nmero de telefone e meu endereo em So Francisco. Ir ver-me um dia, possivelmente no este ano e tampouco no seguinte, mas com o tempo se dar conta de que a vida  algo muito precioso para desperdi-lo em um casamento sem amor.
-Acredito que j deveria ir, Carolyn -reps a jovem com total tranqilidade-. Antes de que siga te pondo em ridculo.
A mulher ficou surpreendida por seu comentrio. Franziu o cenho e, sacudindo a cabea, saiu da casa. Durante um bom momento Peggy permaneceu no vestbulo. Depois se dirigiu ao escritrio de Brad. Seu marido ainda estava sentado diante do telefone, escutando com expresso concentrada.
Peggy se apoiou no marco da porta, observando-o. Brad lhe lanou um rpido sorriso antes de recolher sua agenda.
-Posso mudar o encontro para um dia da semana que vem? No... no, assim est bem.
Brad desligou o telefone com um suspiro e se voltou para olh-la.
-J se foi, suponho.
Por um instante Peggy acreditou detectar um tom spero em suas palavras. Assentiu com a cabea e depois lhe perguntou.
-Quanto tempo ela esteve aqui? 
-No sei, suponho que perto de uma hora -anotou algo em sua agenda antes de guard-la na gaveta de seu escritrio.
-Parecia como se tivesse estado chorando -Peggy no podia deixar aquele tema, embora o desejasse com todas suas foras.
-Sim... bom -Brad se encolheu de ombros e se passou uma mo pelo cabelo com gesto impaciente, como se na realidade no queria pensar nisso-. Est desgostosa. Mas se recuperar -olhou-a com firmeza-. Encontrar outro homem. A vida segue, no?
-No sempre como ns gostaramos que seguisse -reps Peggy com uma sombra de tristeza nos olhos.
-Tens razo.
Peggy se voltou rapidamente e saiu do escritrio com a inteno de recolher as bolsas que tinha deixado sobre a mesa do vestbulo. Brad a seguiu.
-O que compraste?
Seu tom era deliberadamente alegre e ligeiro, e ela sabia que estava fazendo um decidido esforo para que o ambiente entre eles voltasse para a normalidade.
-Alguns livros de decorao e outros de maternidade que rosie me recomendou.
-Oh, maravilhoso, j tenho leitura para nos prximos dias -comentou Brad, esboando um zombador sorriso.
-Eu... acreditava que poderamos decorar a pequena habitao que est junto  nosso para o beb. O que me diz?
-Vamos dar uma olhada Brad a pegou pela mo e subiram juntos as escadas.
O contato de sua mo lhe suscitou um profundo desejo, uma sensao que no desapareceu nem sequer quando ele a soltou para empurrar a porta do pequeno quarto.
Era uma habitao luminosa e ventilada, com as mesmas vistas sobre os vinhedos que o dormitrio principal.
-Pensei que poderamos pintar-la de amarelo -Peggy tentou adotar um tom prtico, como se, oculto atrs daquelas palavras, seu corao no estivesse a ponto de romper-se.
Brad pareceu refletir durante um momento, e Peggy sups que, como ela, estava fazendo um decidido esforo para ser prtico, para olhar para o futuro e tentar esquecer o que poderia ter sido sua vida com  Carolyn.
-Poderamos deixar aberta a porta de nossa habitao e sempre o ouviramos chorar -assinalou ele.
-Se for parecido com William, acredito que o ouviremos chorar inclusive do outro lado da casa -sorriu Peggy-. E em qualquer caso, no tem por que ser um menino. No me desgostaria que fosse uma menina.
Brad esboou um sorriso e lhe passou um brao pelos ombros.
-Isso no importa... enquanto tenha sade e seja feliz.
Por um momento Peggy apoiou a cabea em seu peito, reconfortada pela segurana de seu abrao.
-Suponho que deveria voltar para o trabalho -disse Brad com um suspiro ao mesmo tempo que se separava dela-. Este  o nico problema de ter que trabalhar em casa. Sempre tem muitas distraes -olhou seu relgio-. Hoje a senhora O'Brien terminou cedo. Foi visitar sua irm ou algo assim. Gostaria que sassemos para jantar fora?
-Tinha inteno de cozinhar algo -reps Peggy, ruborizada. Ela mesma tinha pedido  senhora O'Brien que tomasse a tarde livre, com a inteno de cozinhar para Brad. Tinha planejado organizar um jantar romntico com velas, msica lenta e todo o resto, com a esperana, conforme supunha, de reavivar a paixo que ultimamente sentia tanta falta em sua relao com ele.
Mas agora, depois do ocorrido com a visita de Carolyn, duvidava sobre a convenincia daqueles planos.
-Est segura de que quer cozinhar? Ainda tenho que fazer muitas coisas, e acredito que terminarei um
pouco tarde.
Peggy pensou nisso por um instante e em seguida se encolheu de ombros. Tinha que tentar, tinha que fazer algum esforo por salvar sua relao. Se no fizesse assim, para isso poderia ter aceito sua derrota ante Carolyn e admitir que ela tinha ganho o corao de seu marido.
-Me diga a que horas voc gostaria de jantar e terei preparado tudo at ento.
-Muito bem, se for isso o que quer -Brad lhe deu um leve beijo em uma bochecha-. Verei-te depois.
Depois que tivesse se retirado, Peggy recolheu as bolsas com suas compras e as subiu ao dormitrio. Depois de olhar de novo o relgio que tinha comprado para Brad, guardou-o na gaveta superior da cmoda antes de voltar a descer.
Foi diretamente a sala. O servio de caf seguia sobre a mesa, depois de ter sido utilizado por Brad e Carolyn. Observou que as almofadas do sof estavam um pouco revoltas, como se tivessem se sentado muito juntos. Havia uma caixa de guardanapos de papel ao lado da cafeteira.
Depois de recolher a bandeja, Peggy arrumou as almofadas com movimentos enrgicos e rpidos. Desejava deixar de pensar na cena que poderia ter acontecido ali. Imaginava com muita facilidade a tormenta emocional que devia ter estalado entre eles quando Brad informou a Carolyn que ficava com sua esposa por uma questo de dever moral.

-O jantar estava excelente, Peggy. Obrigado.
Estavam sentados na sala de jantar. A clida luz da vela se refletia nas taas de fino cristal e no faqueiro de prata. A seu lado, as janelas que davam ao jardim estavam ligeiramente abertas. Uma lua cheia brilhava no cu, iluminando a piscina. Peggy sorriu.
-Bom, poucas vezes a senhora O'Brien me permite entrar na cozinha. Para ela  uma espcie de domnio sagrado.
-Possivelmente deveramos fazer que sasse mais freqentemente. Este me recorda o jantar daquela noite, em sua casa, antes de que nos casssemos.
-A noite em que decidimos assinar um contrato de casamento -refletiu Peggy.
-Acredito que foi uma boa idia -reps Brad, encolhendo-se de ombros-. Isso nos permitiu nos esquecer do aspecto mais material de nosso acordo e confiar um pouco mais um no outro.
-Possivelmente o que necessitemos agora seja atualizar nosso contrato com vistas ao nascimento de nosso filho, para assim poder sermos ainda mais prticos e profissionais -comentou-lhe Peggy, ressentida, sem poder evit-lo-. Sinto muito, Brad -interrompeu-o envergonhada quando ele se dispunha a replicar algo-. J sei que isto no teve nenhuma graa.
Um tenso silncio seguiu a suas palavras.
-Sei que no ests contente com esta situao, Peggy -comeou a dizer Brad, passando uma mo pelo cabelo-. E eu tampouco estou precisamente eufrico com ela. Nunca imaginei que teramos que seguir juntos por causa de um beb. Mas vou fazer todo o possvel para que isto funcione, para que...
-Possivelmente no deveria te incomodar -replicou Peggy, muito alterada-. De fato, preferiria que no o fizesse. Preferiria que no te mostrasse to nobre e generoso. J antes me arrumei muito bem sozinha... e poderei me arrumar muito bem outra vez. No te necessito.
Levantou-se da mesa para aproximar-se das portas do jardim, tentando respirar um pouco de ar fresco e acalmar seus nervos. No queria ser uma segunda opo... uma segunda escolha para seu marido. Tinha seu orgulho.
-Eu acreditava que os dois estvamos de acordo em tentar -comentou Brad com tom baixo e tranqilo quando se levantou para aproximar-se dela.
-Mas temos que pensar no longo prazo -reps Peggy com os olhos fechados, dizendo-se que tinha que ser forte-. Estou pensando tanto em sua felicidade como na minha prpria, Brad, e no acredito que possamos continuar com esta farsa. Como  esse dito? A estrada para o inferno est pavimentada de boas intenes. No duvido nem por um momento da bondade de suas intenes... mas isto no vai funcionar.
-Funcionaria se fssemos o suficientemente decididos -disse ele com tom suave, fazendo-a voltar-se para que pudesse olh-lo.
Ele usava um traje leve que lhe sentava  perfeio, destacando seus largos ombros. Estava to atraente que Peggy ansiava refugiar-se em seus braos e lhe pedir que lhe fizesse amor, que a liberasse daquela dor que tanto a torturava. Mas sabia que aquela dor nunca desapareceria... supunha-se que o tinha sabido desde o momento em que, naquela mesma tarde, leu a angstia nos olhos de Brad.
-Olhe, Peggy, sei que no passado cometemos erros. Apressei muito nosso casamento. Tentei ser to condenadamente prtico te dizendo que nossa unio poderia ser benfica para os dois... mas no fundo realmente acreditava que o amor poderia chegar a crescer entre ns. E ainda no renunciei  esperana de que ambos...
-No  verdade. S est tentando fazer o que considera o mais adequado -mordeu-se o lbio-. Olhe, estarei bem sozinha, Brad, eu...
-Sim, j sei. s uma mulher forte e inteligente, e provavelmente no demorar para te unir a outro homem.
- isso o que te incomoda? O pensamento de que outro homem possa chegar a educar a seu filho?
-Sim... isso me incomoda. Quero a meu filho, Peggy. No o vejo como um erro, mas sim como uma segunda oportunidade para ns... como uma esperana.
Havia tal sinceridade em sua voz que Peggy ficou profundamente comovida.
-Amanh cumpriremos nosso primeiro aniversrio de casamento, nosso primeiro ano juntos. Realmente pode dizer que foi um ano ruim? -perguntou-lhe ele com voz rouca.
-No... em muitos aspectos foi maravilhoso.
-Sei que  uma grande romntica -comentou Brad, sorrindo e lhe acariciando o rosto com ternura-... e que no era assim como imaginava que aconteceriam as coisas. Possivelmente ainda est apaixonada por esse teu antigo noivo -esboou uma careta-. H algo no primeiro amor  que jamais desaparece. Me d uma oportunidade, Peggy, porque isso  o que quero com todo meu corao.
Peggy o olhou fixamente. Tinha tentado ser forte, sacrificar-se para lhe dar a liberdade... mas Brad j tinha decidido que seu filho estava na frente de seu amor por Carolyn.
-No sei o que fazer -a voz lhe tremia de emoo.
-Poderamos ir  cama e fazer amor sem cessar, no te parece bom? -sussurrou Brad contra seu cabelo.
Peggy podia reconhecer um ligeiro aroma de usque em seu flego. Brad no estava acostumado a beber muito, mas naquela tarde se permitiu tomar umas taas. Perguntou-se se, apesar de seu tom decidido, sentiria-se na realidade to inseguro como ela a respeito de seu futuro juntos.
Mas ao levantar o olhar imediatamente desprezou suas dvidas. No havia nada inseguro em Brad.
Fechou os olhos e tentou pensar com coerncia. Quando tinha planejado aquela noite, era isso precisamente o que tinha querido que acontecesse. Naquele momento se sentia rasgada entre sua necessidade por Brad e o convencimento de que muito provavelmente estava tentando enterrar seus sentimentos mais profundos por Carolyn para, de alguma forma, forar-se a projet-los sobre ela.
Brad baixou a cabea e a beijou na boca, nas bochechas, at que lhe apartou a densa cabeleira para lhe acariciar o pescoo com os lbios.
Peggy se apoiou nele, sentindo como em seu interior se despertou o desejo, abrindo-se passagem atravs de todas suas dvidas e boas intenes.



Captulo 13

Peggy descobriu que estava sozinha na grande cama de casal quando despertou na manh seguinte.
A luz do sol entrava pela janela. Estendeu uma mo para o outro lado da cama, sumida ainda nas lembranas da maravilhosa noite que tinha passado. Fazer amor com Brad sempre tinha sido algo muito especial, mas naquela noite tinha parecido a Peggy realmente memorvel. Tinha havido tanta ternura, tanta delicadeza em suas carcias... Aquele delicioso xtase ainda sobrevivia na deliciosa frouxido de seu corpo.
-Ficars comigo, verdade? -tinha-lhe perguntado Brad quando o relgio do andar de baixo dava as doze badaladas da meia-noite, anunciando seu primeiro aniversrio. E Peggy lhe tinha sussurrado uma e outra vez que sim, enquanto ele a arrastava a cpulas nunca alcanadas de prazer...
Naquele momento se sentou na cama, procurando a seu marido com o olhar. Chamou-o vrias vezes. No houve resposta.
Levantou-se e colocou o robe antes de descer as escadas. Ouviu a voz de Brad procedente do escritrio e se dirigiu para l. J tinha uma mo na maaneta quando o escutou dizer.
-No, fez um bom trabalho. Acredito que acreditou em ti. No acredito que suspeite de nossos planos.
Peggy franziu o cenho, vacilando.
-Seguirei preso por minhas obrigaes ainda durante um tempo -explicou Brad-. Tenho que aceitar isso. Mas isso no quer dizer que no v aproveitar a menor oportunidade para sair na semana que vem. O que te parece uma viagem de dez dias s Bahamas? -ps-se a rir-. Sabia que diria isso. No, vou dizer que se trata de uma viagem de trabalho.
Em um princpio Peggy no soube por que se surpreendeu tanto, se com antecedncia j sabia que Brad no a amava. O problema era que jamais tinha pensado que poderia chegar a engan-la com tanta frieza. Acreditou em tudo o que lhe havia dito a respeito de tentar que seu casamento funcionasse... Acreditou de verdade que tinha se despedido para sempre de Carolyn.
Retrocedeu apressada e voltou a subir a sua habitao. Como tinha podido ser to estpida?, repetia-se continuamente. No sabia o que fazer, no sabia o que dizer a Brad. Tudo o que sabia era que no podia suportar aquela situao. Seria muito para seu orgulho.
Ouviu os passos de Brad no corredor e se apressou a entrar no banheiro para abrir a torneira da ducha. Ainda no podia falar cara a cara com ele. Antes tinha que recuperar-se. Brad Monroe poderia lhe ter destroado o corao, mas no ia permitir que ele acabasse tambm com sua dignidade.
-Peggy, tenho que me ausentar um momento -Brad a chamou atravs da porta-. Voltarei para te levar ao churrasco da Rosie. At mais tarde.
-At mais tarde -conseguiu responder.
Permaneceu durante um tempo sob a ducha tentando aceitar a situao. No dia anterior, Carolyn Hicks tinha se comportado como uma perfeita atriz. Peggy sinceramente tinha acreditado em seus olhos chorosos, em sua expresso desanimada. E seu prprio marido tambm tinha se mostrado muito convincente.
A fria se apoderou dela, para em seguida ser substituda por uma insuportvel tristeza. No havia forma de que pudesse seguir adiante com seu casamento... j no mais. Nem sequer pelo bem de seu filho poderia viver uma mentira semelhante.
Fechou com energia a torneira da ducha. Teria que pedir o divrcio a Brad... no havia outra opo. O que lhe havia dito Carolyn no dia anterior? Que a vida era algo muito precioso para desperdiar em um casamento sem amor.

Peggy j estava vestida e disposta a partir, mas Brad seguia sem aparecer. Olhou seu relgio, eram quase as doze e quinze, e temia que iam chegar tarde ao churrasco de Rosie. De todas formas, tampouco era que importasse muito. Aproximou-se do espelho para examinar sua aparncia. Ainda conservava sua esbelta figura, ressaltada por seu ajustado vestido azul. Em um determinado momento chegou a pronunciar, distrada.
-Parece que vamos ficar sozinhos, voc e eu, pequeno.
Essa perspectiva no seria to m, pensou imediatamente. Pior teria sido se no tivesse tido um lar onde viver. De repente, uma sombra cruzou por sua expresso. O mau era que seu lar estava ali, naquela casa... com Brad.
O som da porta principal se fechando a sobressaltou, e saiu ao patamar.
-Sinto muito, corao -Brad subiu com toda pressa as escadas, com um enorme ramo de rosas vermelhas em uma mo.
-Onde estiveste? -inquiriu com voz no muito firme.
-Detive-me na cidade para comprar isto -entregou-lhe as flores, e depois lhe levantou o queixo para obrigar-la delicadamente a que o olhasse-. Feliz aniversrio, querida.
Peggy se deixou beijar. O corao comeou a lhe pulsar acelerado, e a fria que sentia desapareceu ante o quente contato de seus lbios. Teve que apartar-se dele, incapaz de suportar a doce tortura de saber que tudo aquilo no era mais que uma farsa.
-Vou pr-las na gua -murmurou com voz rouca-. Ande depressa, Brad, no queremos chegar tarde.
Minutos depois, quando descia as escadas com Brad, j se tinha recuperado de tudo. Tentou no fixar-se muito em quo atraente estava vestido com umas calas bege, de corte informal, e uma camisa cor creme. Sentia-se agradecida de que tivessem pressa, assim virtualmente no dispunham de tempo para falar.
-Encontra-te bem? -Brad lhe lanou um rpido olhar quando estacionou o esportivo diante da casa de Rosie e de Mike.
Peggy assentiu e se disps a sair do carro. A casa de Rosie ficava nos subrbios da cidade, perto do campo. Era uma pequena residncia antiga, com muito carter. Havia um horta na parte traseira, e um prado em uma de suas laterais. O prado pertencia ao vizinho, que possua uma escola de equitao, pelo que sempre estava acostumado a haver vrios cavalos pastando. Entretanto, aquele dia tudo parecia deserto. De fato, um estranho silncio parecia abater-se sobre a casa. No havia nenhum s sinal de vida.
-Surpreende-me que no tenham chegado os pais de Rosie. No se v seu carro por aqui -comentou Peggy enquanto Brad fechava o esportivo e se dirigia com ela para a entrada principal.
-Possivelmente no tenham chegado ainda. J veras, no nos atrasamos tanto como temias -disse Brad ao mesmo tempo que apertava a campainha.
Esperaram durante um momento, mas ningum respondeu.
-Devem estar no jardim traseiro -Brad optou por empurrar a porta, que estava aberta, e passar-. Ol? H algum em casa? -gritou avanando pelo corredor.
Quando chegaram  cozinha, tomou Peggy pela mo. Era um gesto natural, mas comoveu profundamente a jovem. Esteve a ponto de apartar-se no momento em que passaram ao jardim. Depois se esqueceu de tudo ao descobrir  multido reunida que estava esperando para surpreend-los.
-Surpresa! -exclamaram todos com alegria.
Uma chuva de ptalas de rosa lhes caiu em cima. Havia




- que a perspectiva de passar o resto de sua vida comigo te parece to horrorosa? -perguntou-lhe Brad, olhando-a intensamente aos olhos.
-Sob... sob estas circunstncias... -Peggy assentiu enquanto procurava um leno em sua bolsa.
-Toma -lhe entregou o seu-. Peggy, no me pea que te deixe -pediu-lhe com um tom to triste, to angustiado, que lhe rasgou completamente o corao.
-Eu sei que quer o beb, Brad. Sei o muito que significa para ti, mas no podemos seguir vivendo esta mentira -enxugou-se as lgrimas e fez uma desesperada tentativa de recuperar-se-. Sei que ests cheio de boas intenes ao querer me cuidar... e ficar comigo por nosso filho. Sei que  um homem bom, Brad...
-Mas voc no me ama -olhou-a sombrio-. Sei que te obriguei a te casar comigo... obriguei-te a fazer algo que nunca quis na realidade. No achas que no repreendi a mim mesmo por isso ao longo de todo este ano. No devia ter te apressado... ter te forado a fazer isso quando realmente no estava em condies de tomar uma deciso semelhante... e quando tinha muito poucas opes para escolher. E sinto que por causa do beb tenha tido que sentir-se atada a mim -sacudiu a cabea-. Mas te queria com tanto desespero...
-Voc no me queria ... Queria Carolyn.
Por um segundo Brad a olhou com uma expresso de absoluto assombro.
-Peggy, isso no  verdade.
-No faa isto, Brad -pediu-lhe, retrocedendo-. Sei que se preocupa por mim, que quer a nosso beb, mas no tente me ocultar a verdade. No quero que me proteja dela. Como poderia qualquer um de ns ser feliz quando voc est apaixonado por outra mulher?
-Peggy -tomou pelos ombros, olhando-a fixamente-. Eu te amo... sempre te amei.
Mas ela sacudiu a cabea, sem poder lhe acreditar.
-Nosso casamento foi um acordo de negcios -recordou-lhe com voz quebrada pela emoo-. Tinha o prazo de um ano. Casou-te comigo por despeito, desesperado por ter perdido Carolyn.
-Deixe que te diga algo, Peggy. Nunca amei Carolyn... Saamos juntos, certamente, mas lhe deixei muito claro que o nosso namoro nunca chegaria a mais porque, no mais profundo de meu corao, sabia que sempre estaria voc. No quis me aproximar de ti at que terminasse seus estudos na universidade. Foi ento quando Carolyn comeou a mostrar-se exigente e, como eu no queria feri-la mais do que j a tinha ferido, disse-lhe que no podamos seguir nos vendo. Isso ocorreu um ms antes de que voltasse para casa.... Depois surgiu o assunto dos problemas que tinha tido seu pai e eu me converti de repente... em seu inimigo.
-Voc rompeu com Carolyn? -quase no podia acreditar no que lhe estava dizendo.
-No sei por que parece to surpreendida -murmurou com um sorriso-. De acordo, no dei nenhuma publicidade a esse fato... no teria sido muito galante da minha parte, verdade? Alm de que no podia evitar me sentir um pouco culpado. Eu nunca menti a Carolyn... mas quando a deixei ficou destroada... e se apressou a casar-se com Robert Hicks.
-Mas eu a vi em seus braos naquela noite da festa beneficente... acreditei que seguia apaixonado por ela.
-Oh, Peggy! -olhou-a com ternura-. Carolyn se encontrava muito mal, chorava muito... e se dirigiu para mim em busca de conselho. Por isso tambm foi ver-me no escritrio algumas vezes. Fomos amigos e eu me acreditava obrigado moralmente a escut-la, mas no havia nada romntico nisso... Diabos, justamente o contrrio. Dava-me muita pena.
-De verdade que no a amas? -sussurrou Peggy-. Eu pensava que quando ontem ela foi l em casa para despedir-se, voc estava realmente abalado com a sua partida...
-No -Brad franziu o cenho-. Ela veio para me falar dos termos do acordo que Robert lhe tinha proposto. Desejava que a aconselhasse sobre o particular. O nico que me afetou ontem pela tarde foi o tom forado com que lhe disse que ambos estvamos encantados com o nosso beb. Pensava que se sentia terrivelmente desgraada, como se lhe tivessem encerrado em uma armadilha.
-E eu pensava que a visita de Carolyn formava parte de uma grande farsa, que voc estava fingindo terminar com ela enquanto secretamente planejavam seguir juntos. De fato, cada vez que chegava tarde em casa ou tinha que ir  cidade de maneira inesperada, pensava que ias ver-la...
-Peggy, tire isso da cabea -levantou-lhe o queixo e a olhou aos olhos-. Faz muito tempo que terminei com Carolyn. No h absolutamente nada entre ns. Eu amo a ti.
Peggy no soube se ria ou chorava ao escutar aquelas palavras.
-Mas o que h a respeito desse contrato de um ano? Quando voc me props, parecia como se no te importasse realmente se o aceitasse ou no. Inclusive disse que se o anel de compromisso no me vinha bem, poderamos nos esquecer de todo aquele assunto...
-Peggy, querida -sorriu, olhando-a com ternura-, se esse anel no tivesse sido o adequado, teria corrido a encomendar outro com a medida exata e lhe teria proposto casamento de novo. Estava tentando me ocultar atrs de uma aparncia indiferente porque temia que se tivesse descoberto o que sentia por ti, teria rido no meu nariz para sair depois correndo na direo oposta... e te teria jogado nos braos de seu antigo noivo s para te vingar. Estava to furiosa comigo, Peggy, que no sabia o que fazer para te reter. Assim decidi te enrolar, te capturar antes de que pudesse escapar. Esperava que quando comeasse a te sobrepor  dor pela morte de seu pai, pudesse confiar em mim, inclusive te apaixonar... de modo que os dois pudssemos esquecer esse maldito contrato de um ano e seguir juntos para sempre -olhou-a com uma expresso de imenso carinho-. Por favor, me acredite, corao... Sempre te amei.
Inclinou a cabea e a beijou com ternura. Peggy o abraou emocionada, bria de felicidade.
Segundos depois Brad a soltou, e acrescentou olhando-a aos olhos.
-Eu sei que se sente presa e que se no fosse pelo beb, afastaria-te de mim neste mesmo momento. Mas te quero tanto... Quero a nosso beb, quero que sigamos casados.
-No sabe quanto sonhei ouvir voc dizendo isto -murmurou Peggy com voz rouca enquanto lhe acariciava delicadamente os lbios com a ponta dos dedos-. Amo-te tanto, Brad... Sempre te amei, mas acreditava que voc amava a outra mulher.
Pde ler a alegria em seus olhos enquanto pronunciava essas palavras, e imediatamente Brad a estreitou meigamente entre seus braos.
-Acreditei que te tinha obrigado a fazer algo que no desejava absolutamente, e me esforava tanto para ser paciente e no te espantar com minha atitude... -sussurrou-lhe ao ouvido-. Mas meu Deus, s vezes temia tanto que seguisse amando a Josh...
-Nunca amei a Josh, Brad. Nunca houve nada entre ns. Era um amigo, nada mais. Devia ter dito antes, mas meu orgulho no me permitiu isso. Suponho que queria te pr ciumento.
Brad voltou a abra-la e se beijaram apaixonados. Peggy chegou a perguntar-se se no estaria sonhando, se em qualquer momento despertaria para descobrir que tudo aquilo no estava acontecendo na realidade. Tudo era to surpreendente, to maravilhoso...
-Hei, vocs dois, pombinhos -a voz de Rosie os interrompeu de repente-. Vo comer de uma vez ou  que j comearam sem ns?
Peggy se separou de Brad, ruborizada, com os olhos brilhantes de felicidade.
-Vamos agora.
-Isso espero -reps Rosie-. Porque tm dez dias inteiros para desfrutar a fundo nas Bahamas....
-Hei, boca grande! -protestou Brad, rindo-. Supunha-se que isso era uma surpresa!
-Oh, sinto muito! -Rosie se levou uma mo  boca, aparentemente desolada-. Nunca fui muito boa guardando segredos, verdade, Peggy...? -sorriu a sua amiga-. No te parece um magnfico presente de aniversrio? Eu me pus verde de inveja quando Brad me telefonou esta manh para comentar isso 
-Esta manh esteve falando por telefone com a Rosie? -perguntou- Peggy a Brad.
-Bom, sim, Rosie me informou a respeito dos planos que tinha para hoje... assim pensei em lhe corresponder lhe contando alguns detalhes...
-No posso acreditar que tenha podido ser to estpida -murmurou Peggy ao pensar nas terrveis suspeita que tinha albergado, e se fundiu com seu marido em um emocionado abrao-. Oh, Brad, amo-te tanto...
-De acordo... compreendi a indireta... -Rosie riu e se voltou para a casa-. Comecem a comer, meninos -gritou aos convidados-. Acredito que os pombinhos ainda vo demorar para reunir-se conosco.
-Talvez seria melhor que voltssemos para a festa -disse Peggy ao cabo de um bom momento, em uma pausa entre os beijos de Brad.
-Sim, talvez.
-Mas antes quero te entregar meu presente -Peggy tirou de sua bolsa um pacote. Observou a seu marido enquanto o abria-. No  to excitante como uma viagem de dez dias s Bahamas -acrescentou, tmida-. Mas pensei que voc gostaria.
- maravilhoso -exclamou Brad enquanto admirava o relgio de ouro, e a olhou aos olhos-. E muito significativo, agora que dispomos de todo o tempo do mundo para estarmos juntos.... -inclinou-se para beijar-la de novo-. Feliz aniversrio, querida.




